48. Ayla

1265 Words
Eu comi no automático. O arroz tava soltinho, o feijão bem temperado, tinha farofa e alguma carne que eu nem identifiquei direito porque meu estômago tava mais ocupado segurando um nó do que pedindo comida. Dona Tereza falava de alguma coisa: mercado, vizinha fofoqueira, um gás que tinha aumentado, e eu respondia com "hm", "é", "sério?", fingindo normalidade. Mas por dentro eu tava com a cabeça latejando. Não era a tal Larissa em si. Era o que ela tinha encostado em mim com duas frases bem escolhidas: a sensação antiga de que eu tava sendo observada, medida, puxada pelo tornozelo de volta pra um lugar onde eu não mandava em nada. Eu terminei de comer, lavei o prato e fiquei parada na pia por tempo demais, encarando a água escorrendo como se fosse me hipnotizar. Dona Tereza percebeu. Ela sempre percebia. — Que foi? — perguntou, sem rodeio, secando a mão no pano. — Tu tá com cara de quem engoliu pedra. Eu respirei fundo e tentei sorrir. — Só tô cansada. Hoje foi puxado lá na ONG. Ela me olhou com aquele olhar que atravessa. — Cansada eu sei quando é cansaço. Isso aí tá com gosto de preocupação. Eu dei de ombros, o meu truque mais velho. — É só coisa da minha cabeça. — Então tua cabeça tá precisando de descanso. — ela decretou. — Vai pro quarto. Deita. Fica aí hoje. Amanhã tu resolve. Eu hesitei. Parte de mim sabia que eu devia voltar pra ONG, ajudar a fechar tudo, ser presente. A outra parte, tava querendo se esconder. Não da ONG, não das meninas: de mim mesma. Do que eu senti quando Larissa encostou naquele assunto. Da ideia de que o Victor tinha uma vida que eu não entendia inteira, cheia de passados e riscos e mulheres que sabiam mais sobre ele do que eu e eu odiei sentir isso. — Eu vou ficar um pouco. — eu disse, baixinho. — Vai ficar o resto do dia. — Dona Tereza corrigiu, como quem manda. — Eu não tô te criando pra tu desmaiar de emoção, não. Vai. "Criando" me pegou de um jeito quase ridículo. Eu subi pro quarto e deitei na cama sem nem trocar a roupa. Fiquei olhando pro teto por longos minutos, ouvindo os sons da casa como se fossem música: panela batendo, voz da Dona Tereza chamando alguém, um rádio ao longe, um cachorro latindo. Normalidade. Mas meu corpo não tava normal. Meu corpo tava em alerta. Peguei o celular e fiquei encarando a tela por um tempo, a vontade de mandar mensagem pro Victor brigando com a vontade de fingir que nada tinha acontecido. Eu pensei nas meninas da ONG. Pensei na Rita. Pensei no evento. Pensei na Larissa segurando meu braço e na minha pele reagindo como se aquilo fosse ataque e a pior parte foi perceber que eu queria o Victor ali pra me acalmar. Eu não queria precisar de ninguém. Isso me assustava. No fim, eu mandei uma mensagem curta pra Rita. “Tô meio m*l hoje. Vou ficar na pensão. Se precisar de mim pra algo urgente, me chama.” A resposta veio rápido. “Tu tá bem? Foi ele?” Eu fechei os olhos. “Não foi ele. Depois eu te conto.” Depois disso, eu larguei o celular e fiquei ali. Dormi picado. Acordei. Dormi de novo. Sonhei com flashes confusos de set, luz de flash, uma voz me chamando de "difícil", e acordei com o coração disparado, segurando o lençol como se fosse âncora. O resto da tarde eu passei na varanda dos fundos, com uma xícara de café fraco e um livro aberto que eu não lia. Eu só... existia. Tentando reorganizar o mundo dentro de mim. Quando o sol começou a baixar e a casa ficou com aquela luz morna de fim de tarde, eu ouvi passos conhecidos na porta. Aquela energia que chega antes da pessoa. Eu não precisei olhar pra saber. — Tia! — a voz dele chamou, como sempre, já ocupando espaço. — Tá chamando eu pra quê, filho de uma égua? — Dona Tereza respondeu de dentro, no automático. — Entra logo. Meu corpo ficou tenso sem querer. Eu respirei fundo e fiquei quieta, esperando. Talvez ele fosse embora depois de comer. Talvez ele nem viesse até a varanda. Mas ele veio. Os passos dele no corredor foram firmes, e quando ele apareceu na porta da varanda, a expressão dele mudou assim que me viu: primeiro alívio, depois atenção. — Aí. — ele falou baixo. — Tu tá aí. Eu senti o peito apertar de um jeito bobo. Só de ver ele. Victor entrou devagar, como se percebesse que eu tava frágil, e encostou no batente. — Rita falou que tu não voltou pra ONG. — ele disse. — Tu tá bem? Eu não queria mentir. Mas eu também não queria falar. Não naquele momento. Não com ele chegando com aquela presença toda, porque eu sabia que se eu abrisse a boca, ia sair tudo junto: a Larissa, a ameaça, o medo, o ciúme, a vergonha de estar mexida. Eu respirei, mantendo o tom o mais educado possível. — Eu tô. — respondi. — Só... cansada. Victor me olhou por alguns segundos, analisando. — Cansada não faz tu sumir assim. — ele falou, sem acusar, mas firme. — O que foi? Eu apertei a caneca com as duas mãos pra me manter no lugar. — Victor... — eu comecei, e minha voz saiu calma, mas com limite. — Eu não quero conversar agora. Ele piscou, como se não esperasse. — Como assim? Eu levantei o olhar pra ele, sem agressividade, sem dramatizar. Só honesta. — Eu não tô pronta pra essa conversa hoje. — falei. — Eu não quero falar sobre nada no momento. Não é... contra você. Eu só preciso ficar quieta. O rosto dele endureceu por meio segundo. Eu vi a reação instintiva, o homem acostumado a resolver tudo na hora, a controlar cenário. Mas ele respirou fundo e segurou. — Tu tá me expulsando? — ele perguntou, baixo. — Não. — respondi rápido. — Eu só tô pedindo espaço. Hoje. Victor ficou parado, olhando pra mim como se estivesse tentando decidir se insistia ou se respeitava. E eu senti uma onda de alívio e medo ao mesmo tempo, porque eu sabia que esse era um teste real: o quanto ele respeitava quando eu fechava a porta. Ele passou a língua pelos dentes, soltou o ar e assentiu devagar. — Tá. — ele disse. A palavra saiu pesada pra ele, mas saiu. Ele deu um passo pra trás, mas não foi embora de imediato. Só ficou ali, como se não quisesse sair deixando buraco. — Só me fala uma coisa. — ele pediu, com a voz mais baixa. — É culpa minha? Eu senti os olhos arderem, não porque eu ia chorar, mas porque a pergunta era cuidado puro. — Não. — eu respondi. — É eu mesma… Ele olhou pra dentro da casa, ouviu Dona Tereza batendo panela e resmungando, e voltou o olhar pra mim. — Tá bom. — falou. — Eu vou comer ali. Não vou encher tua cabeça. Mas eu vou ficar por perto. Se tu quiser, tu me chama. Eu assenti. — Obrigada. Victor hesitou um segundo, como se quisesse se aproximar e me beijar a testa, ou segurar minha mão, ou qualquer gesto que resolvesse. Mas ele não fez. Só respeitou o limite. Quando ele foi embora pro corredor, eu soltei o ar devagar, como se meu corpo só agora lembrasse que podia respirar.
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