Eu comi no automático.
O arroz tava soltinho, o feijão bem temperado, tinha farofa e alguma carne que eu nem identifiquei direito porque meu estômago tava mais ocupado segurando um nó do que pedindo comida.
Dona Tereza falava de alguma coisa: mercado, vizinha fofoqueira, um gás que tinha aumentado, e eu respondia com "hm", "é", "sério?", fingindo normalidade.
Mas por dentro eu tava com a cabeça latejando.
Não era a tal Larissa em si. Era o que ela tinha encostado em mim com duas frases bem escolhidas: a sensação antiga de que eu tava sendo observada, medida, puxada pelo tornozelo de volta pra um lugar onde eu não mandava em nada.
Eu terminei de comer, lavei o prato e fiquei parada na pia por tempo demais, encarando a água escorrendo como se fosse me hipnotizar.
Dona Tereza percebeu. Ela sempre percebia.
— Que foi? — perguntou, sem rodeio, secando a mão no pano. — Tu tá com cara de quem engoliu pedra.
Eu respirei fundo e tentei sorrir.
— Só tô cansada. Hoje foi puxado lá na ONG.
Ela me olhou com aquele olhar que atravessa.
— Cansada eu sei quando é cansaço. Isso aí tá com gosto de preocupação.
Eu dei de ombros, o meu truque mais velho.
— É só coisa da minha cabeça.
— Então tua cabeça tá precisando de descanso. — ela decretou. — Vai pro quarto. Deita. Fica aí hoje. Amanhã tu resolve.
Eu hesitei.
Parte de mim sabia que eu devia voltar pra ONG, ajudar a fechar tudo, ser presente. A outra parte, tava querendo se esconder. Não da ONG, não das meninas: de mim mesma. Do que eu senti quando Larissa encostou naquele assunto.
Da ideia de que o Victor tinha uma vida que eu não entendia inteira, cheia de passados e riscos e mulheres que sabiam mais sobre ele do que eu e eu odiei sentir isso.
— Eu vou ficar um pouco. — eu disse, baixinho.
— Vai ficar o resto do dia. — Dona Tereza corrigiu, como quem manda. — Eu não tô te criando pra tu desmaiar de emoção, não. Vai.
"Criando" me pegou de um jeito quase ridículo.
Eu subi pro quarto e deitei na cama sem nem trocar a roupa. Fiquei olhando pro teto por longos minutos, ouvindo os sons da casa como se fossem música: panela batendo, voz da Dona Tereza chamando alguém, um rádio ao longe, um cachorro latindo. Normalidade.
Mas meu corpo não tava normal. Meu corpo tava em alerta.
Peguei o celular e fiquei encarando a tela por um tempo, a vontade de mandar mensagem pro Victor brigando com a vontade de fingir que nada tinha acontecido. Eu pensei nas meninas da ONG.
Pensei na Rita. Pensei no evento. Pensei na Larissa segurando meu braço e na minha pele reagindo como se aquilo fosse ataque e a pior parte foi perceber que eu queria o Victor ali pra me acalmar.
Eu não queria precisar de ninguém. Isso me assustava. No fim, eu mandei uma mensagem curta pra Rita.
“Tô meio m*l hoje. Vou ficar na pensão. Se precisar de mim pra algo urgente, me chama.”
A resposta veio rápido.
“Tu tá bem? Foi ele?”
Eu fechei os olhos.
“Não foi ele. Depois eu te conto.”
Depois disso, eu larguei o celular e fiquei ali. Dormi picado. Acordei. Dormi de novo. Sonhei com flashes confusos de set, luz de flash, uma voz me chamando de "difícil", e acordei com o coração disparado, segurando o lençol como se fosse âncora.
O resto da tarde eu passei na varanda dos fundos, com uma xícara de café fraco e um livro aberto que eu não lia. Eu só... existia. Tentando reorganizar o mundo dentro de mim.
Quando o sol começou a baixar e a casa ficou com aquela luz morna de fim de tarde, eu ouvi passos conhecidos na porta.
Aquela energia que chega antes da pessoa.
Eu não precisei olhar pra saber.
— Tia! — a voz dele chamou, como sempre, já ocupando espaço.
— Tá chamando eu pra quê, filho de uma égua? — Dona Tereza respondeu de dentro, no automático. — Entra logo.
Meu corpo ficou tenso sem querer. Eu respirei fundo e fiquei quieta, esperando. Talvez ele fosse embora depois de comer. Talvez ele nem viesse até a varanda.
Mas ele veio.
Os passos dele no corredor foram firmes, e quando ele apareceu na porta da varanda, a expressão dele mudou assim que me viu: primeiro alívio, depois atenção.
— Aí. — ele falou baixo. — Tu tá aí.
Eu senti o peito apertar de um jeito bobo. Só de ver ele. Victor entrou devagar, como se percebesse que eu tava frágil, e encostou no batente.
— Rita falou que tu não voltou pra ONG. — ele disse. — Tu tá bem?
Eu não queria mentir.
Mas eu também não queria falar.
Não naquele momento.
Não com ele chegando com aquela presença toda, porque eu sabia que se eu abrisse a boca, ia sair tudo junto: a Larissa, a ameaça, o medo, o ciúme, a vergonha de estar mexida.
Eu respirei, mantendo o tom o mais educado possível.
— Eu tô. — respondi. — Só... cansada.
Victor me olhou por alguns segundos, analisando.
— Cansada não faz tu sumir assim. — ele falou, sem acusar, mas firme. — O que foi?
Eu apertei a caneca com as duas mãos pra me manter no lugar.
— Victor... — eu comecei, e minha voz saiu calma, mas com limite. — Eu não quero conversar agora.
Ele piscou, como se não esperasse.
— Como assim?
Eu levantei o olhar pra ele, sem agressividade, sem dramatizar. Só honesta.
— Eu não tô pronta pra essa conversa hoje. — falei. — Eu não quero falar sobre nada no momento. Não é... contra você. Eu só preciso ficar quieta.
O rosto dele endureceu por meio segundo. Eu vi a reação instintiva, o homem acostumado a resolver tudo na hora, a controlar cenário. Mas ele respirou fundo e segurou.
— Tu tá me expulsando? — ele perguntou, baixo.
— Não. — respondi rápido. — Eu só tô pedindo espaço. Hoje.
Victor ficou parado, olhando pra mim como se estivesse tentando decidir se insistia ou se respeitava. E eu senti uma onda de alívio e medo ao mesmo tempo, porque eu sabia que esse era um teste real: o quanto ele respeitava quando eu fechava a porta.
Ele passou a língua pelos dentes, soltou o ar e assentiu devagar.
— Tá. — ele disse.
A palavra saiu pesada pra ele, mas saiu.
Ele deu um passo pra trás, mas não foi embora de imediato. Só ficou ali, como se não quisesse sair deixando buraco.
— Só me fala uma coisa. — ele pediu, com a voz mais baixa. — É culpa minha?
Eu senti os olhos arderem, não porque eu ia chorar, mas porque a pergunta era cuidado puro.
— Não. — eu respondi. — É eu mesma…
Ele olhou pra dentro da casa, ouviu Dona Tereza batendo panela e resmungando, e voltou o olhar pra mim.
— Tá bom. — falou. — Eu vou comer ali. Não vou encher tua cabeça. Mas eu vou ficar por perto. Se tu quiser, tu me chama.
Eu assenti.
— Obrigada.
Victor hesitou um segundo, como se quisesse se aproximar e me beijar a testa, ou segurar minha mão, ou qualquer gesto que resolvesse. Mas ele não fez. Só respeitou o limite.
Quando ele foi embora pro corredor, eu soltei o ar devagar, como se meu corpo só agora lembrasse que podia respirar.