Eu tentei voltar pro trabalho como se nada tivesse acontecido. Peguei mais uma pilha de papel, comecei a organizar sem realmente enxergar o que fazia. A conversa ainda ecoava na minha cabeça, não as piadas, mas a constatação nua e crua: eu tinha me exposto. Tinha dito em voz alta algo que eu sempre tratei como fraqueza.
Eu me apaixonei.
Essa frase não combinava com a vida que eu tive. Não combinava com contratos, com silêncio imposto, com sobrevivência. Mas ali, no meio da ONG, entre tinta guache e gargalhada alta, ela tinha saído da minha boca como verdade simples.
Rita percebeu primeiro que eu tinha desligado. Ela se aproximou sem alarde, encostou do meu lado e falou mais baixo, longe do tom de zoeira.
— Ei. — cutucou meu braço de leve. — A gente pegou pesado. Foi m*l.
Eu respirei fundo.
— Não foi pesado. — falei, sincera. — Foi real.
Ela me olhou com atenção, daquele jeito raro em que a Rita ficava séria de verdade.
— Ciúme dói quando a gente não tá acostumada a sentir. — ela disse. — Mas não é coisa r**m, não. É só sinal de que tu tá viva.
Viva. Essa palavra sempre parecia grande demais pra mim. Josi passou por nós carregando umas cadeiras e soltou, sem maldade:
— Ó, só não vai sumir por causa disso, tá? Homem nenhum merece teu desaparecimento.
Eu levantei o olhar pra ela e assenti.
— Não vou.
E eu não tava mentindo. O que eu sentia não era vontade de fugir, era vontade de entender. Pela primeira vez, eu não queria apagar nada. Eu queria atravessar.
Mais tarde, quando a ONG esvaziou um pouco e o barulho diminuiu, eu sentei num banco do pátio com um copo de água gelada na mão. O sol da tarde batia fraco, e eu observei as crianças brincando, a normalidade acontecendo sem mim no centro.
Meu celular vibrou. Victor. Meu estômago deu aquele pulo imediato, quase automático. Não de medo. De expectativa.
“Tá tudo bem?”
Só isso. Nenhuma cobrança. Nenhuma invasão.
Eu demorei alguns segundos antes de responder, pensando em tudo o que as meninas tinham dito, nas histórias que eu não conhecia, nas versões dele que eu ainda não tinha visto.
Mas também pensei no café da manhã. No abraço no mirante. No jeito como ele disse tu não tá sozinha sem fazer disso promessa vazia.
“Sim… estou na ONG”
A resposta veio rápido.
“Bom.
Tô resolvendo umas coisas aqui.
Depois te vejo?”
Eu encarei a tela por um momento longo demais.
Só um: “Depois te vejo?” Não um “Onde você tá”. Não um “Oque você tá fazendo”. Não um “Vem agora”
Era convite, não posse.
“Depois. — respondi. — A gente conversa.”
Três pontinhos apareceram. Sumiram. Voltaram.
“Gosto quando tu fala assim.
Sem fugir.”
Meu peito apertou de um jeito estranho. Eu desliguei o celular e fiquei ali, respirando fundo, tentando organizar o turbilhão novo dentro de mim.
Eu gostava dele.
Eu sentia desejo, curiosidade, carinho.
E agora... um pouco de ciúme.
Mas, pela primeira vez, eu não sentia vergonha disso. Ciúme não me diminuía. Não me tornava fraca. Só me mostrava que eu tinha algo a perder e, principalmente, algo a escolher.
(…)
A noite caiu devagar no morro.
Não foi aquela queda brusca que apaga tudo, foi um escurecer morno, com luzes acendendo aos poucos, gente chegando do trabalho, som de televisão vazando pelas janelas. Eu caminhei de volta pra pensão com a cabeça cheia e o corpo cansado, mas não pesado. Era um cansaço diferente. De quem tinha vivido o dia inteiro por dentro.
Dona Tereza tava na cozinha quando eu cheguei, sentada à mesa, descascando alho com uma calma quase cerimonial.
— Demorou hoje. — ela comentou, sem olhar.
— Fiquei até mais tarde na ONG.
— Hm. — ela respondeu, aquele hm que sempre significava "tô ouvindo mais do que parece".
Eu peguei um copo d'água e fiquei encostada na pia, observando o jeito como ela organizava os dentes de alho em linha, como se botar ordem nas pequenas coisas fosse um tipo de filosofia.
— Tereza... — eu comecei, meio sem saber como.
Ela ergueu o olhar na hora.
— Fala.
— Como é que a gente sabe... — eu fiz uma pausa — quando tá gostando demais?
Ela não riu. Não fez piada. Só apoiou o cotovelo na mesa e me encarou com aquela cara de quem já viveu coisa demais pra romantizar dor.
— Quando você começa a pensar antes de ir embora. — ela respondeu. — E quando começa a se perguntar se cabe ficar.
Meu peito apertou.
— E isso é bom?
— Não é bom nem r**m. — ela deu de ombros. — É escolha.
Eu assenti, sentindo a palavra pesar do jeito certo.
Mais tarde, já no quarto, eu sentei na cama com o celular na mão. Fiquei olhando a tela apagada por um tempo longo demais. Pensando se escrevia. Pensando no que escrever. Pensando se eu tava pronta pra ouvir o que eu mesma tinha provocado.
Acabei digitando antes de desistir.
“Chegou a falar com sua mãe?”
A resposta demorou alguns minutos. Eu imaginei ele resolvendo coisa séria, andando de um lado pro outro, aquele jeito dele quando o humor brincalhão dava lugar ao peso.
“Falei.
Ela não tava errada. Só tava exagerada.
Como sempre.”
Eu sorri sozinha.
“Ela é intensa.”
“Tu foi educada.
Isso conta ponto.”
Eu respirei fundo.
“Victor...”
Os três pontinhos apareceram quase na hora.
“Oi.”
Eu fiquei olhando pra palavra simples como se ela fosse um convite.
“A gente precisa conversar”
Demorou um pouco mais dessa vez.
“Eu sei.
Quando tu quiser.”
Sem drama. Sem defesa. Sem ironia.
“Hoje não. — eu escrevi. — Hoje estou cansada”
“Tô aqui. — ele respondeu. — Sem pressa.”
Eu desliguei o celular e deitei, encarando o teto escuro do quarto. Meu corpo ainda lembrava do abraço dele no mirante, da casa silenciosa, da forma como ele cuidava das coisas, e das pessoas.
Mas, agora, tinha algo novo misturado ao desejo e ao encanto: clareza.
Eu não queria exclusividade cega. Não queria disputar passado. Não queria virar mais uma história contada por outras bocas.
Eu queria verdade. Presença. Escolha mútua. E, pela primeira vez, eu me sentia forte o suficiente pra pedir isso, ou pra ir embora se não fosse possível.
Do lado de fora, alguém riu alto na rua. Um cachorro latiu. A vida seguiu. Eu fechei os olhos com uma certeza calma, quase madura demais pra quem sempre fugiu.
Gostar não me obrigava a aceitar tudo e ficar não precisava significar me perder. Quando eu dormi, não foi com ansiedade nem com medo. Foi com a estranha sensação de que, dessa vez, eu tava entrando em algo acordada.