29. Ayla

1368 Words
Eu tava lavando os pratos quando senti o Victor encostar no batente da porta, olhando. Ele não falou nada por alguns segundos. Só ficou ali, me observando daquele jeito quieto que me dava vontade de mandar ele parar e, ao mesmo tempo, me dava vontade de chegar mais perto. — Tu tá muito calada. — ele comentou, como quem joga isca. Eu não virei o rosto. — Tô cansada. — Cansada eu sei quando é cansaço. — ele respondeu, e eu senti a voz dele mais baixa. — Isso aí é outra coisa. Eu parei de esfregar o prato por um segundo, respirei fundo e voltei, como se água e espuma pudessem resolver minhas coisas. — Eu tô bem. Ele riu de leve, sem deboche dessa vez. — Tá... "bem" do jeito que tu fala quando tá segurando o mundo com os dentes. Eu apertei a boca. Ele era bom em enxergar. Bom demais. — O que você quer, Victor? — Quero te roubar hoje mais tarde. Eu virei o rosto na hora, desconfiada. — Roubar como? Ele fez uma cara de quem tá falando a coisa mais óbvia do planeta. — Sair comigo. — Pra onde?— Meu peito deu um pulo pequeno e irritante. Eu odiei que uma parte de mim gostou de cara. — Pra um lugar bonito. — ele respondeu. — Um lugar que tu vai olhar e falar "c*****o, Rio de Janeiro é coisa de doido". Eu soltei um riso curto, involuntário. — Você não fala assim. — Eu falo sim. — ele confirmou, completamente satisfeito. — E tu vai. — Eu não disse que vou. Ele chegou um pouco mais perto, encostou de leve na pia, do meu lado. — Eu tô te chamando, Loirinha. — a voz veio mais séria agora. — Tu disse que não ia voltar pra tua mãe. Então hoje tu vai fazer uma coisa por você. — Victor... — eu tentei fugir da conversa. — Eu não sei se... — Sabe sim. — ele cortou, firme, mas não agressivo. — Tu só tá com medo. Eu encarei a espuma escorrendo da minha mão. Medo eu tinha de tudo. Mas principalmente de felicidade. Antes que eu pudesse responder, Dona Tereza apareceu na cozinha como se tivesse ouvido só pelo cheiro. — Que história é essa de date? — ela perguntou, já interessada demais. Victor olhou pra ela com o maior cinismo. — Tô chamando a Ayla pra sair. Hoje. Dona Tereza colocou as mãos na cintura. — Ah, agora o safado quer levar a menina pra passear. — ela me olhou direto. — Vai menina! Eu arregalei os olhos. — Dona Tereza— — Nada de "Dona Tereza" pra mim, não. — ela apontou a colher pra mim como se fosse ameaça. — Você vai sim. Tu achou que eu ia te deixar virar planta na varanda? Vai viver. Eu abri a boca pra protestar e a Rita entrou bem nessa hora, segurando um copo de refrigerante como se fosse microfone. — O quê? Viver? — repetiu, animada. — Ih, eu ouvi "sair"? Com quem? — Com o VT. — Dona Tereza respondeu, seca. Rita fez uma cara de quem acabou de ganhar presente. — Ahhhh! — ela gritou, e eu senti o sangue subir pro meu rosto. — Eu sabia! Eu falei! Eu falei que esse homem tava te olhando diferente! — Rita... — eu tentei, constrangida. Ela veio até mim e pegou meu rosto com as duas mãos, dramática. — Amiga, pelo amor de Deus. Tu já apanhou da vida. Agora tu vai ganhar beijo e comida boa. Tá entendendo? Comida boa. — Aqui já tem comida boa. — eu murmurei. Rita apontou pro Victor. — Mas hoje vai ter comida boa e VT pagando. Isso é outro nível de cura. Victor riu, cruzando os braços. — Tá vendo? Ela entende. Eu me senti encurralada por duas mulheres e um homem com sorriso fácil. O pior: eu não odiava a ideia. Eu só tava com medo do que vinha junto com ela. — Eu não sei... — eu repeti, mais fraca. Dona Tereza bateu a mão na mesa. — Ayla. — ela falou meu nome como se fosse ordem e carinho ao mesmo tempo. — Deixa de ser boba, vai passear. E depois volta pra cá. Casa continua sendo casa. Eu respirei fundo e olhei pro Victor. Ele não tava rindo agora. Tava me olhando sério, esperando. — Que horas? — eu cedi, com a voz baixa. O sorriso dele abriu devagar, como se ele estivesse tentando não parecer feliz demais. — Nove. Eu passo aqui. Rita deu um gritinho ridículo. Eu revirei os olhos, mas por dentro... eu senti alguma coisa relaxar. Um pedacinho mínimo de mim disse: talvez eu mereça uma noite normal. (…) Quando deu seis e pouco, eu já tava no meu quarto encarando a cama como se fosse passarela. Eu tinha separado duas opções: uma era discreta demais, como se eu estivesse me escondendo; a outra era bonita demais, como se eu estivesse pedindo holofote. Eu não sabia como ser "mulher comum" sem virar personagem. Rita entrou sem bater, óbvio. — Minha filha, tu tá parecendo que vai pra tribunal. — ela anunciou, indo direto pras minhas roupas. — Eu tô nervosa. — Claro que tá. — Rita pegou um vestido vermelho simples, mas que caía bem no corpo. — Isso aqui. Tá linda sem tentar. E bota um brincinho pequeno. Só pra dizer "eu existo". Eu ri baixo, meio sem jeito. — Você fala como se fosse fácil. Rita parou e me olhou com uma seriedade rara. — Não é fácil, não. — ela disse. — Mas é teu. Entendeu? É tua escolha. Eu engoli seco. Dona Tereza apareceu na porta do quarto como uma fiscal. — Nada de roupa curta demais. — ela avisou, apontando pra Rita. — E nada de maquiagem de defunto. — Tá bom, mãe do mundo. — Rita respondeu, rindo. Eu me arrumei devagar. Um delineado leve, nada demais. Perfume quase nada, só um cheirinho. Cabelo solto, ainda com um pouco de umidade, porque eu gostava de como ele ficava natural. Quando eu terminei, fiquei olhando meu reflexo. Eu parecia... eu. E isso era estranho. Rita abriu um sorriso enorme. — Pronto. Agora só falta tu não correr quando ele chegar. — Eu não vou correr. — eu falei, mas a frase saiu mais como promessa do que certeza. Dona Tereza cruzou os braços. — E se ele vier com gracinha, lembra que eu tenho pano de prato. — ela avisou, séria. Eu ri, nervosa. — Vocês são absurdas. — A gente é família. — Rita respondeu, dando de ombros. — Família é isso: incentivar e ameaçar ao mesmo tempo. (…) Quando deu nove em ponto, eu ouvi a voz dele lá embaixo. — Tiaaa! — ele chamou alto, como se o mundo inteiro tivesse que saber que ele chegou. — Cala a boca, Victor! — Dona Tereza berrou de volta. — Aqui não é comício! Meu coração bateu forte. Eu desci as escadas devagar, e quando cheguei no corredor, ele tava lá. Vestido diferente. Ele não tava com a roupa de sempre do morro. Não tava de bermuda e chinelo. Tava com uma camisa escura, calça, um tênis limpo. E um boné baixo demais na testa, cobrindo parte do rosto. Ele me olhou de cima a baixo com aquela cara de quem quer falar uma besteira, mas resolve ser homem por um segundo. — Caralho... — ele soltou, baixo. — Tu tá bonita pra um c****e. Eu senti meu rosto esquentar na hora. — Para. Ele sorriu. Dona Tereza apareceu atrás de mim. — VT. — ela falou, no tom de ameaça. — Respeita a menina. Victor levantou as mãos. — Tô respeitando, tia. Só tô apreciando. Rita apareceu do lado da Dona Tereza e fez um sinal de "vai". Eu olhei pros dois lados como se estivesse indo pra guerra. Victor chegou mais perto, sem pressa, e estendeu a mão. — Vem comigo? Eu olhei pra mão dele. Ele não falou nada além disso. Não me pressionou, não fez piada. Só ofereceu. Coloquei minha mão na dele. E foi simples. Foi assustadoramente simples.
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