46. Ayla

1352 Words
O dia clareou preguiçoso, com aquele sol que não machuca, só avisa que a vida continua. Eu acordei primeiro, ainda meio enrolada nele, com o lençol embolado e o quarto silencioso demais pra parecer real. Victor dormia de lado, a respiração pesada, uma mão largada na minha cintura como se tivesse esquecido ali sem querer... ou como se não quisesse soltar. Fiquei alguns minutos só olhando. O rosto relaxado, sem a tensão que ele carregava acordado. Era estranho ver aquele homem inteiro, tão inteiro, dormindo como se o mundo não precisasse dele por algumas horas. Eu me mexi devagar pra não acordar, mas ele abriu os olhos mesmo assim. — Já tá fugindo? — murmurou, a voz grossa de sono. — ONG. — respondi baixo. — Vida real me chama. Ele fez um som de desagrado, puxando o travesseiro pra perto. — Odeio essa parte. — Qual? — A que tu sai. Eu sorri sem virar o rosto. — Você vai sobreviver. — Talvez. — ele disse. — Mas vou reclamar. A gente tomou banho rápido, sem pressa e sem urgência, aquele tipo de i********e que não precisa provar nada. Depois, eu me vesti de novo, cabelo preso, mochila no ombro. Ele colocou uma camisa limpa, correntinha de prata, já no modo mundo. No carro, o silêncio era confortável. Não aquele silêncio tenso de despedida, era sómanhã. Quando ele parou em frente à pensão, desligou o motor, mas não abriu a porta de imediato. Ficou me olhando de lado, como se quisesse guardar minha cara daquele jeito: normal, acordada, indo trabalhar. — Que horas tu sai hoje? — perguntou. — No fim da tarde. — respondi. — Talvez um pouco mais tarde por causa do evento. — Eu vou te buscar. — Não precisa— — Eu quero. — ele cortou, simples. — Te busco pra tu dormir comigo de novo. A frase saiu sem drama, sem peso. Como se fosse o plano mais óbvio do mundo. Meu peito deu aquele pulo traidor. — Você fala isso como se fosse... normal. — Pra mim já tá virando. — respondeu, dando um meio sorriso. Eu mordi o lábio, sentindo aquela versão adolescente minha aparecer de novo. — Aí fica combinado. Eu te busco lá. Ele se inclinou e me deu um beijo rápido, de despedida, daqueles que não querem incendiar nada, só marcar presença. — Vai lá. Faz teu dia. — Você também. — respondi, abrindo a porta. Saí do carro com o coração leve demais pra uma manhã comum. Subi as escadas da pensão sentindo o olhar dele ainda em mim, e quando entrei, Dona Tereza me lançou aquele olhar que sabia demais. — Ah. — a voz veio da cozinha, seca, cortante, com aquele tom de quem tá controlando a própria irritação pra não virar sermão. — Voltou. Eu respirei fundo e fui até a entrada da cozinha, tentando colocar leveza na cara como se eu fosse corajosa. — Bom dia, Dona Tereza. Ela estava de costas, mexendo alguma coisa na panela com força demais pro que quer que fosse. A colher de p*u ia e voltava como se ela estivesse brigando com a comida. O cabelo preso, a camiseta velha, o corpo inteiro com aquela energia de quem acordou cedo demais e ficou esperando uma pessoa que não apareceu. — Bom dia é pra quem dorme em casa. — respondeu sem virar. — Pra quem some, eu dou "oi" no máximo. Meu peito apertou num reflexo automático. A primeira vontade foi pedir desculpa. A segunda foi me defender. E a terceira... foi ficar ali, porque eu sabia que, por trás da bronca, tinha uma coisa que me desarmava: falta. — Eu não sumi. — minha voz saiu mais baixa do que eu queria. — Eu só... dormi fora. Ela virou de repente, com a colher de p*u na mão como se fosse uma arma branca. — Dormiu fora. — repetiu, devagar, como quem mastiga a palavra. — Ontem dormiu fora. Anteontem chegou tarde. Hoje de manhã eu m*l vi tua sombra. Daqui a pouco tu vai virar visita aqui dentro. Eu senti a garganta fechar. Não por medo dela. Por uma sensação r**m de estar devendo presença. Como se eu tivesse pegado algo que não era meu e agora alguém estivesse cobrando. — Eu tenho trabalhado na ONG. — falei, firme, tentando não deixar a culpa dominar. — A senhora sabe. — Eu sei. — respondeu, e o olhar dela ficou mais afiado ainda. — Eu não tô falando da ONG. Eu tô falando de você entrando e saindo dessa casa como se isso aqui fosse... um lugar qualquer. Eu fiquei quieta um segundo, sem saber o que dizer. Porque doía. Doía porque ela tinha razão num ponto que eu nem sabia nomear: aquela casa não era "um lugar qualquer" pra mim. Ela virou um tipo de chão. — Dona Tereza... — eu comecei, tentando achar um tom. — Não. — ela me cortou de novo, mas dessa vez a voz saiu menos dura, mais carregada de verdade. — Tu acha que eu não vejo? Tu acha que eu não entendo? Ela apontou a colher na minha direção, e não era ameaça. Era diagnóstico. — Tu tá indo. Tá indo pra lá, tá gostando, tá vivendo... e tá deixando aqui pra trás. Meu estômago revirou. Eu dei um passo pra dentro da cozinha sem perceber, como se aproximar pudesse consertar. — Eu não tô deixando ninguém pra trás. — Tá sim. — respondeu. E dessa vez saiu com mais emoção do que bronca. — Eu não tô dizendo que tu não pode viver tua vida, menina. Pelo amor de Deus. Eu só tô dizendo: não faz isso do jeito que tu sempre fez. Não some. A palavra caiu pesada. Porque era exatamente isso que eu fazia. Eu sumia. Eu desaparecia. Eu achava que ir embora antes do afeto firmar era me proteger. Eu engoli seco, sentindo o olho arder, mas não deixei cair lágrima. Eu me recusei a chorar ali como se fosse vítima. Eu não queria ser vítima. — Eu... — minha voz falhou, e eu respirei fundo pra continuar. — Eu não tô acostumada com alguém notar. O olhar dela mudou na hora. Continuou firme, mas o foco ficou mais humano, mais... maternal sem ser meloso. — Pois acostuma. — ela disse, simples. — Porque aqui a gente nota. Aqui a gente sente falta. Aqui a gente reclama, briga, xinga e espera tu voltar. Eu fiquei parada, sentindo a frase me atravessar como coisa perigosa. Ela suspirou, como se estivesse cansada de ser brava e triste ao mesmo tempo. A mão com a colher baixou um pouco. — Eu volto. — eu disse, firme, sem desviar o olhar. — Eu volto sim. Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada como sempre. — Volta quando? — Todo dia. — eu respondi. — E se eu for dormir fora, eu aviso. Eu juro. Ela me mediu em silêncio. A cozinha ficou quieta por um instante, só o barulho baixo do fogo. — Tá. — ela falou, finalmente. — Então hoje tu aparece pro almoço. Eu soltei o ar que eu nem sabia que tava prendendo. — Eu apareço. — E não vem com cara de pena. — completou, já voltando pro jeito dela. — Eu tô te dando bronca porque eu gosto de tu aqui. Se eu não gostasse, eu nem perdia saliva. Eu senti um sorriso puxar minha boca, pequeno, inevitável. — A senhora sentiu minha falta. Ela virou de costas rápido, fingindo que não ouviu, mexendo na panela de novo. — Vai arrumar tuas coisas. E vai trabalhar. E presta atenção: antes de sair, come alguma coisa. Tu acha que amor e ONG sustenta? Come. Eu ri, mais emocionada do que queria demonstrar, e fui até ela sem pensar. Beijei a bochecha dela rápido, como se eu tivesse medo dela reclamar se eu demorasse. Ela resmungou na hora, previsível: — Sai, menina. Grudenta. Mas eu vi. Eu senti. Ela reclamava porque me queria ali e pela primeira vez, isso não me deu vontade de fugir. Me deu vontade de merecer.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD