42. Ayla

1145 Words
Eu tava largada no sofá como se aquele fosse o único lugar possível no mundo. O corpo ainda quente do banho, a pele relaxada daquele jeito preguiçoso que só vem depois de prazer sem pressa, não da correria, mas da i********e. Vestia uma blusa dele larga demais em mim, caindo de um ombro só, com cheiro dele grudado no tecido. Aquilo sozinha já era uma ousadia emocional maior do que eu costumava permitir. Minha perna tava dobrada no estofado, a outra esticada, e eu equilibrava um pacote de salgadinho aberto no colo enquanto mastigava sem culpa nenhuma. Nenhuma. Victor tinha passado no mercado. Não pra comprar "coisa saudável". Tinha comprado besteira. Muita besteira. Chocolate, biscoito recheado, salgadinho, refrigerante, bala. Como se tivesse decidido, por mim, que hoje não existia vigilância nem punição. — Você comprou comida de criança. — eu falei, rindo, com a boca cheia. Ele tava em pé na cozinha, abrindo outra coisa. — Criança nada. — respondeu. — Isso aqui é comida de gente feliz. Eu ri de novo, jogando a cabeça pra trás no encosto do sofá. Ri daquele jeito solto que não calcula som, nem postura, nem ângulo. — E você não tem medo de... sei lá... — fiz um gesto vago com a mão — ...descontrole? Ele apareceu no campo da minha visão com uma lata na mão, encostou no braço do sofá e me olhou como se eu tivesse perguntado algo muito estranho. — Medo de quê? Eu dei de ombros, sentindo o peso antigo daquela pergunta. — De eu engordar. De exagerar. De perder o controle. Victor franziu a testa por meio segundo e depois riu baixo, não debochado, confuso. — Ayla — ele falou, com calma. — Tu acabou de sair do banho comigo, tá deitada na minha sala, comendo besteira, usando minha blusa e ainda tá tentando se policiar? Eu senti o rosto esquentar, mas não de vergonha, de reconhecimento. — Hábito. — murmurei. Ele sentou no chão, encostando as costas no sofá, bem perto da minha perna. Não me tocou. Só ficou ali. — Aqui não tem isso, não. — disse. — Tu come porque quer. Para quando tá satisfeita. Se quiser mais, come mais. Teu corpo não é inimigo. A frase bateu em mim de um jeito silencioso e profundo. Eu peguei mais um chocolate sem pensar muito e dei uma mordida grande, quase desafiadora. Esperei aquela voz interna aparecer. Ela não veio. Só veio prazer simples. — Você não faz ideia do que isso é pra mim. — falei, olhando pro teto. — Tenho uma ideia. — ele respondeu, tranquilo. — E por isso mesmo eu compro. Eu virei o rosto pra ele. — Você cuida das coisas sem fazer alarde. — observei. — Das plantas. Do morro. Das pessoas. Até de mim, sem parecer que tá fazendo esforço. Ele deu um meio sorriso. — Quem faz alarde geralmente quer aplauso. — respondeu. — Eu só quero que funcione. Eu mastiguei devagar, sentindo o corpo pesado, satisfeito. O sofá confortável. A casa silenciosa. O mundo lá fora distante o suficiente pra não doer. — Eu nunca fiquei assim depois de... — parei no meio da frase, sem saber como completar. — Depois do quê? — ele perguntou, olhando pra cima. — De estar com alguém. — finalizei. — Normalmente eu fico alerta. Pensando no depois. No estrago. Ele virou um pouco o corpo pra me encarar melhor e eu pensei por um segundo, sincera. — Agora eu só tô aqui. Victor assentiu, como se aquela resposta fosse tudo. — Então deu certo. Eu sorri, mordendo o lábio de novo, distraída. Olhando pro nada. Comendo mais um pouco sem culpa. Sentindo o corpo vivo, não vigiado. E, enquanto ele levantava pra buscar mais besteira na cozinha, eu pensei, quase assustada com a clareza: Eu não tava com medo de engordar. Nem de gostar. Nem de ficar. O silêncio da casa era denso, acolhedor. Um cobertor invisível feito de satisfação e de salgadinhos. Eu estava afundada no sofá, o corpo mole, a mente quieta. Ele voltou da cozinha com mais duas latas de refrigerante e um pacote de biscoito recheado. Colocou tudo na mesa baixa de madeira escura, ao lado do sofá, e se deixou cair no chão de novo, suas costas largas encostadas na lateral do móvel, tão perto da minha perna que eu podia sentir o calor dele. — Tá feliz? — ele perguntou, abrindo uma das latas com um psht satisfatório. A pergunta era simples, mas a resposta dentro de mim era complexa, enorme. Não era só felicidade. Era alívio. Era paz. Era permissão. — Estou leve — respondi, e a palavra soou certa. Leve. Ele sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos como algo espetacular, mas que os suavizava, tornando-os menos desconfiados. Bebeu um gole do refrigerante e olhou para a parede de vidro, para a cidade adormecida lá embaixo. Eu estiquei a perna, meu pé descalço encontrando o chão frio perto do quadril dele. Sem pensar, deixei os dedos do pé roçarem de leve o tecido da calça dele, na lateral da coxa. Um toque casual. Íntimo. Victor não se moveu, mas a respiração dele pareceu ficar um pouco mais contida. Ele olhou para meu pé, depois para o meu rosto. Seus olhos escuros, na penumbra da sala iluminada apenas pela luz indireta das prateleiras, pareciam ler mais do que eu poderia dizer. — Leve é bom — ele comentou, sua voz um pouco mais grossa. Meu pé deslizou um pouco mais para cima, pressionando de leve o músculo duro de sua coxa. Era um teste. Uma pergunta muda. Ele soltou a lata no chão, com um cuidado que contrastava com a tensão que eu agora via nos seus ombros. Lentamente, como se não quisesse assustar um animal, ele virou o corpo para ficar de frente para mim, ainda ajoelhado no chão. Suas mãos, grandes e com veias salientes, vieram repousar na minha perna esticada no sofá. Seus polegares começaram a fazer círculos lentos na minha pele, logo acima do joelho. O toque era diferente. Não era a veneração devoradora do quarto, nem a possessão urgente do banheiro. Era... carinho. Puro, simples, tátil. Mas o olhar dele não era simples. Era fogo contido. — Ainda quer mais besteira? — perguntou, mas a pergunta era sobre outra coisa. — Já tô cheia — sussurrei, minha voz embargada pelo que estava crescendo dentro de mim. Não era fome por comida. — Então chega — ele disse, e não era uma ordem, era um acordo. Suas mãos subiram pela minha perna, passando pela coxa, até encontrarem a barra da blusa. A blusa dele. Seus dedos se enrolaram na borda do tecido, e ele puxou, devagar, revelando mais da minha pele. A blusa era tão grande que, com aquele movimento, meu quadril, minha barriga, a curva do osso do quadril ficaram expostos.
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