41. Victor

1288 Words
A boca tava daquele jeito que eu gosto: barulho controlado. Nada de gritaria, nada de arma à mostra à toa, nada de menor fazendo merda grande demais pra idade. Cada um no seu posto, cada coisa no seu tempo. Eu encostado no parapeito, observando tudo como quem parece relaxado, mas não tá. Nunca tá. — Ô, Juninho. — eu chamei, sem levantar a voz. O moleque virou na hora, rápido demais. Bom sinal. — Fala, VT. — Tu tá contando errado. Ele franziu a testa. — Tô não. Eu descruzei os braços devagar e olhei pra ele como quem olha pra criança que jurou que fez a lição. — Tu contou três vezes o mesmo valor. — falei. — Ou tu tá me testando, ou tu tá nervoso. O moleque engoliu seco. — Foi m*l, foi mal... é que eu… — Relaxa. — eu cortei, batendo de leve no ombro dele. — Nervoso é quem tá devendo. Corrige aí e segue o baile. Ele assentiu rápido, aliviado. — Valeu, chefe. — Chefe é o c*****o. — eu corrigi, já sorrindo. — Aqui ninguém trabalha pra patrão. Trabalha pra não virar estatística. Os menorzinhos riram baixo. Eu gosto disso. De manter o clima leve sem perder o fio da faca. Mais pro canto, Biel e PH tavam discutindo alguma coisa b***a. — Vocês dois tão parecendo casal brigando. — eu falei alto o suficiente pra geral ouvir. — Se forem se beijar, avisa que eu viro padrinho. Os dois mandaram eu me f***r em coro. A boca caiu na risada. Eu andei alguns passos, peguei uma garrafa d'água, dei um gole. Enquanto isso, minha cabeça fazia o que sempre fazia: dividia atenção em camadas. Movimento estranho no beco da esquerda? Não. Carro desconhecido parado tempo demais? Não. Polícia? Nem sinal. Tudo sob controle. Ou quase tudo. Porque, mesmo ali, com o morro andando do meu jeito, tinha uma coisa fora do lugar: eu. Desde cedo, minha mente voltava nela sem pedir permissão. No corredor. No beijo rápido. No jeito que ela mordeu o lábio depois, tentando fingir que não tinha ficado mexida. — VT. — PH me chamou. — Tá viajando. — Tô pensando. — respondi. — Que é pior. — Pensar dá trabalho demais. — ele riu. — Pois é. — concordei. — Por isso que a maioria não faz. Os moleques riram de novo. Eu sentei na cadeira de plástico, peguei o rádio, ajustei o volume. Tudo normal. Tudo funcionando. Mas eu sabia reconhecer quando alguma coisa tava mudando por dentro. E eu não era i****a. A Ayla não era igual às outras. Não porque era bonita, isso ali era o de menos. Era o jeito que ela olhava, como se ainda estivesse aprendendo a ocupar espaço. O jeito que ela ficava quando ria de verdade, sem defesa. O jeito que ela não me pedia nada, mas me fazia querer dar. Isso era perigoso. — Chefe... — Juninho chamou de novo. Eu levantei a mão. — Já falei que não é chefe. — Foi m*l. — ele corrigiu. — VT... a carga chega mais tarde hoje. — Eu sei. — respondi. — Já tá resolvido. Ele assentiu e saiu. Eu encostei a cabeça por um segundo na parede fria atrás de mim, só um segundo. Coisa que ninguém percebe. Coisa que eu não faço quando tem gente olhando. Eu não podia vacilar. Não podia misturar demais. Não podia baixar guarda. Mas também não era de fingir que não sentia. E a ideia de alguém me esperar em outro lugar, fora da boca, fora da função, fora do peso, não me irritava. Me acalmava. — Ô, VT! — Biel gritou. — Vai colar no rango da tia hoje? Eu ri, voltando pro personagem. — Vou. — respondi. — Se eu não aparecer, ela sobe aqui e me arrasta pela orelha. — Medo real. — PH comentou. — Respeita a Tereza. — eu falei, sério. — Aquela ali manda mais que eu. Eles riram, mas sabiam que era verdade. Eu levantei, dei mais uma olhada geral, e senti o rádio vibrar no bolso. Não peguei. Ainda não. (…) Eu cheguei na porta da ONG sem alarde. Nada de buzinar, nada de chamar alto. Encostei o carro do jeito que sempre faço quando não quero virar assunto e fiquei esperando, braço apoiado na janela, observando o movimento. Mulher entrando, mulher saindo, sacola, risada, conversa atravessada. E aí eu vi ela. Ayla vinha descendo a escada com uma bolsa grande no ombro, falando alguma coisa animada com a Rita. Gesticulava, ria daquele jeito meio contido que ela tinha quando ainda não acreditava totalmente que podia rir assim. O cabelo preso, mas uns fios soltos no rosto. Simples. Linda sem tentar. Meu peito apertou num lugar que não tinha nada a ver com desejo puro. Quando ela me viu, deu uma micro travada. Coisa mínima, quase imperceptível, mas eu conhecia agora. Depois veio o sorriso, rápido demais pra ser calculado. Ela se despediu das meninas e veio na minha direção. — Você apareceu. — disse, como se fosse constatação, não surpresa. — Eu falei que vinha. — respondi, abrindo a porta pra ela. — Tu achou que eu blefei? — Um pouco. — ela sorriu, entrando no carro. Eu fechei a porta e dei a volta, sentando no banco do motorista. Antes de ligar o carro, olhei pra ela de lado. — Dia cheio? Ela suspirou, jogando a cabeça no encosto. — Cansativo. Bom. Eu ri mais do que esperava. — Gosto disso. — falei, simples. Ela virou o rosto pra mim. — Gosta de quê? — De ver tu assim. — liguei o carro. — Viva no meio da bagunça. Ela ficou quieta por alguns segundos. Eu deixei. Ayla precisava de espaço até pra aceitar elogio. No caminho, o clima foi aquele silêncio confortável, quebrado por comentários pequenos. Uma música baixa no rádio. O morro passando pela janela. Ela mexendo no zíper da bolsa, distraída. — Você não avisou que vinha me buscar. — ela comentou. — Se eu aviso, tu pensa demais. — respondi. — Prefiro pegar de surpresa. — Controlador. — ela provocou. — Estratégico. — corrigi, sorrindo. Quando a gente entrou no portão da minha casa de novo, ela suspirou sem perceber. Dentro da casa, o silêncio voltou daquele jeito bom. Não vazio. Calmo. Ela deixou a bolsa num canto e caminhou devagar, como se ainda estivesse conhecendo o espaço, mesmo já tendo estado ali. Ela sorriu daquele jeito pequeno que me desmontava. — Me trouxe aqui por quê, Victor? Eu pensei por um segundo antes de responder. — Porque hoje eu queria silêncio. — falei. — E porque aqui ninguém puxa tua manga, ninguém te chama de nada além do teu nome. Ela assentiu, como se aquilo fosse exatamente o que precisava. Eu fui até a cozinha, peguei água, entreguei pra ela. Os dedos se tocaram por um segundo a mais do que o necessário. — Tu fica diferente aqui. — ela disse. — Tu também. — respondi. — Parece que abaixa a guarda. — É perigoso, né? — Ela mordeu o lábio. — É. — concordei. — Mas perigoso bom. Eu a conduzi até a parede de vidro, a vista aberta de novo, o morro inteiro se espalhando lá embaixo. Fiquei atrás dela, sem abraçar de imediato. — Eu gosto que tu venha. — falei, baixo. — Não porque eu te chamei. Mas porque tu escolheu. Ela virou o rosto só um pouco. — Hoje eu escolhi fácil. Eu sorri, finalmente envolvendo ela num abraço inteiro, calmo, sem urgência. O tipo de abraço que não pede nada além de ficar. — Então fica um pouco. — murmurei. Ela encostou as costas em mim, relaxando de vez.
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