O nome que muda tudo

966 Words
O escritório estava mergulhado em silêncio. Eu analisava alguns documentos quando a porta se abriu sem aviso. — Don. Era Riccardo. E pelo tom… algo estava errado.Eu nem levantou o olhar. — Fale. Riccardo fechou a porta atrás de si.Caminhou até a mesa.E colocou uma pasta sobre ela. — Você precisa ver isso. Algo na forma como ele disse aquilo fez eu finalmente erguer os olhos. Eu abro a pasta.Leio a primeira linha. E então…paro. O tempo pareceu congelar.Os meus olhos percorreram o documento de novo.E de novo. Como se não acreditasse. — Isso… não está certo — murmurou. Riccardo permaneceu em silêncio. — Verificamos três vezes — respondeu. Lorenzo levantou lentamente o olhar.Frio.Descrente. — Nielly… Ele engoliu seco. — Bellini? O nome saiu pesado.Quase impossível. Riccardo assentiu. — Filha direta da família. O ar ficou denso.Pesado. Eu sento e recosto na cadeira.Passou a mão pelo rosto.Tentando processar.Todas as peças começaram a se encaixar.O jeito dela. As palavras que ela soltava sem perceber. O conhecimento.A resistência.A fuga. — Então… — ele murmurou — eu trouxe para dentro da minha casa… Ele não terminou.Não precisava. Riccardo completou: — A herdeira de uma das famílias mais perigosas da Sicília. Silêncio.Longo.Tenso. Mas não havia ódio no meu olhar. Havia outra coisa.Conflito. — Ela não sabe que nós sabemos — disse ele. — Ainda. Riccardo cruzou os braços. — E o que pretende fazer? Lorenzo fechou a pasta. — Nada muda. Riccardo ergueu uma sobrancelha. — Nada? — Nada. — Lorenzo… — Eu não vou colocar ela no meio disso. A resposta veio firme.Imediata.Riccardo suspirou. — Ela já está no meio disso. Silêncio. — Existe uma oportunidade aqui — continuou ele. — Uma oportunidade que pode acabar com os Bellini de uma vez. Lorenzo ficou imóvel. — Use isso. — Não. A resposta veio cortante. — Eu não vou usar ela como arma. Riccardo o encarou. — Você é o Don. — Exatamente. — Então pense como um. O silêncio voltou. Pesado. — Se você se casar com ela… — Riccardo continuou — você não apenas a mantém sob controle…Você força uma ligação direta com os Bellini. Eles vão se expor.Vão reagir.E quando reagirem… Ele se inclinou levemente. — Nós esmagamos. Lorenzo fechou os olhos por um segundo. A ideia era… perfeita. Estratégica.E perigosa. — Isso coloca ela em risco. — Tudo já coloca. — Eu não vou— — Você já colocou — interrompeu Riccardo. Silêncio.Aquilo me acertou.Direto. — Trouxe ela para sua casa.Expôs ela.Fez o conselho olhar para ela. Riccardo se aproximou mais. — Não existe mais “fora” para ela. As palavras ecoaram.Lentas.Cruéis.Mas verdadeiras. Aperto o maxilar. Porque no fundo…Eu sabia. Riccardo estava certo. — Então fazemos isso do meu jeito — digo finalmente. Riccardo esperou. — Ela não vai saber.Não agora. E eu não vou forçar nada que coloque ela diretamente na linha de fogo. Riccardo pensou por um segundo.E assentiu. — Então precisamos agir rápido.O conselho já começou a questionar. —Então damos a eles uma resposta. Eu levanto o olhar.Frio.Decidido. — Mande uma mensagem para meus pais,o filhinho deles vai se casar. ⸻ Mais tarde…O jantar. Eu entro na sala e imediatamente sento.Algo estava diferente.Lorenzo estava mais calado.Mais distante.E RiccardoObservando demais. Me sento,tentando ignorar o desconforto. O jantar começou.Mas não demorou muito. — Eu vou viajar — disse Lorenzo. Eu levanto o olhar. — Viajar? — De forma permanente. Olho para Riccardo que está a mexer em seu celular,mandando uma mensagem,normalmente ele não janta com a gente. O meu coração apertou.Mas junto…veio uma esperança silenciosa.Talvez aquilo fosse o fim. — Então… eu posso voltar pra minha casa? Silêncio.Pesado.Lorenzo me encarou,limpou a boca e termina de mastigar e toma um gole de seu vinho,dando uma leve olhada para Riccardo. — Você vem comigo. O mundo parou. — O quê? Ele puxou uma pasta.E coloco diante de mim. — Seu nome chegou ao conselho. Ela sentiu o estômago gelar. — Conselho? Riccardo respondeu: — Quando um Don marca uma mulher…Não há volta. Eu fico em silêncio.Mas por dentro…eu sabia. — Você vai se casar comigo — disse Lorenzo. A frase caiu como uma sentença. — Não — ela respondeu na hora. Riccardo suspirou. — Não é uma opção. — Sempre é — retrucou ela. E então…Eu soltou: — Uma mulher que não pertence à máfia não pode ser forçada a se casar com um Don sem ligação direta ou aceitação formal. Silêncio.Dessa vez mais pesado.Mais perigoso.Lorenzo me encarou com intensidade.Riccardo também. — Interessante — disse ele.— Muito interessante. Lorenzo se inclinou levemente. — Como você sabe disso? O coração dela disparou. — Eu… ouvi falar. Não convenceu.Não mesmo.Riccardo sorriu de lado. E Lorenzo se encosta na cadeira.Uns dedos tocava na boca,com cotovelo na cadeira e outros tocava na mesa,como se tocasse piano e para.Me analisando. — Essa regra existe.— ele afirma— Mas já foi contornada. Sinto o ar faltar. — O conselho aceitou você. — Por quê? Riccardo olhou para Lorenzo antes de responder: — Porque o Don fez uma oferta. Eu olho para ele.Mas Lorenzo não desviou o olhar de mim. — E essa regra está sendo alterada — continuou Riccardo. — Muitas mulheres da máfia não são adequadas. Ele a analisou. — Você é. Aquilo não parecia escolha.Parecia destino imposto. — Eu não tenho saída — murmuro. Silêncio. — Não. Eu fecho os olhos.Por um segundo.Respirou fundo. E tento me segurar. — E minha vida?Meus amigos?Minha faculdade? A voz falhou. Lorenzo responde: — Você poderá vê-los. Eu abro os olhos. — Quando? — Você terá dois dias. O coração apertou. — Para se despedir. Uma pausa. — E pode até convidá-los para o casamento. Aquilo a destruiu.Por dentro.Mas eu não mostrei.Não completamente.Porque naquele momento… ******** Nielly Bellini entendeu uma coisa.Ela não tinha fugido do passado. O passado…Tinha encontrado ela primeiro.
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