O escritório estava mergulhado em silêncio.
Eu analisava alguns documentos quando a porta se abriu sem aviso.
— Don.
Era Riccardo.
E pelo tom… algo estava errado.Eu nem levantou o olhar.
— Fale.
Riccardo fechou a porta atrás de si.Caminhou até a mesa.E colocou uma pasta sobre ela.
— Você precisa ver isso.
Algo na forma como ele disse aquilo fez eu finalmente erguer os olhos.
Eu abro a pasta.Leio a primeira linha.
E então…paro.
O tempo pareceu congelar.Os meus olhos percorreram o documento de novo.E de novo.
Como se não acreditasse.
— Isso… não está certo — murmurou.
Riccardo permaneceu em silêncio.
— Verificamos três vezes — respondeu.
Lorenzo levantou lentamente o olhar.Frio.Descrente.
— Nielly…
Ele engoliu seco.
— Bellini?
O nome saiu pesado.Quase impossível.
Riccardo assentiu.
— Filha direta da família.
O ar ficou denso.Pesado.
Eu sento e recosto na cadeira.Passou a mão pelo rosto.Tentando processar.Todas as peças começaram a se encaixar.O jeito dela.
As palavras que ela soltava sem perceber.
O conhecimento.A resistência.A fuga.
— Então… — ele murmurou — eu trouxe para dentro da minha casa…
Ele não terminou.Não precisava.
Riccardo completou:
— A herdeira de uma das famílias mais perigosas da Sicília.
Silêncio.Longo.Tenso.
Mas não havia ódio no meu olhar.
Havia outra coisa.Conflito.
— Ela não sabe que nós sabemos — disse ele.
— Ainda.
Riccardo cruzou os braços.
— E o que pretende fazer?
Lorenzo fechou a pasta.
— Nada muda.
Riccardo ergueu uma sobrancelha.
— Nada?
— Nada.
— Lorenzo…
— Eu não vou colocar ela no meio disso.
A resposta veio firme.Imediata.Riccardo suspirou.
— Ela já está no meio disso.
Silêncio.
— Existe uma oportunidade aqui — continuou ele. — Uma oportunidade que pode acabar com os Bellini de uma vez.
Lorenzo ficou imóvel.
— Use isso.
— Não.
A resposta veio cortante.
— Eu não vou usar ela como arma.
Riccardo o encarou.
— Você é o Don.
— Exatamente.
— Então pense como um.
O silêncio voltou.
Pesado.
— Se você se casar com ela… — Riccardo continuou — você não apenas a mantém sob controle…Você força uma ligação direta com os Bellini. Eles vão se expor.Vão reagir.E quando reagirem…
Ele se inclinou levemente.
— Nós esmagamos.
Lorenzo fechou os olhos por um segundo.
A ideia era… perfeita.
Estratégica.E perigosa.
— Isso coloca ela em risco.
— Tudo já coloca.
— Eu não vou—
— Você já colocou — interrompeu Riccardo.
Silêncio.Aquilo me acertou.Direto.
— Trouxe ela para sua casa.Expôs ela.Fez o conselho olhar para ela.
Riccardo se aproximou mais.
— Não existe mais “fora” para ela.
As palavras ecoaram.Lentas.Cruéis.Mas verdadeiras.
Aperto o maxilar.
Porque no fundo…Eu sabia.
Riccardo estava certo.
— Então fazemos isso do meu jeito — digo finalmente.
Riccardo esperou.
— Ela não vai saber.Não agora.
E eu não vou forçar nada que coloque ela diretamente na linha de fogo.
Riccardo pensou por um segundo.E assentiu.
— Então precisamos agir rápido.O conselho já começou a questionar.
—Então damos a eles uma resposta.
Eu levanto o olhar.Frio.Decidido.
— Mande uma mensagem para meus pais,o filhinho deles vai se casar.
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Mais tarde…O jantar.
Eu entro na sala e imediatamente sento.Algo estava diferente.Lorenzo estava mais calado.Mais distante.E RiccardoObservando demais.
Me sento,tentando ignorar o desconforto.
O jantar começou.Mas não demorou muito.
— Eu vou viajar — disse Lorenzo.
Eu levanto o olhar.
— Viajar?
— De forma permanente.
Olho para Riccardo que está a mexer em seu celular,mandando uma mensagem,normalmente ele não janta com a gente.
O meu coração apertou.Mas junto…veio uma esperança silenciosa.Talvez aquilo fosse o fim.
— Então… eu posso voltar pra minha casa?
Silêncio.Pesado.Lorenzo me encarou,limpou a boca e termina de mastigar e toma um gole de seu vinho,dando uma leve olhada para Riccardo.
— Você vem comigo.
O mundo parou.
— O quê?
Ele puxou uma pasta.E coloco diante de mim.
— Seu nome chegou ao conselho.
Ela sentiu o estômago gelar.
— Conselho?
Riccardo respondeu:
— Quando um Don marca uma mulher…Não há volta.
Eu fico em silêncio.Mas por dentro…eu sabia.
— Você vai se casar comigo — disse Lorenzo.
A frase caiu como uma sentença.
— Não — ela respondeu na hora.
Riccardo suspirou.
— Não é uma opção.
— Sempre é — retrucou ela.
E então…Eu soltou:
— Uma mulher que não pertence à máfia não pode ser forçada a se casar com um Don sem ligação direta ou aceitação formal.
Silêncio.Dessa vez mais pesado.Mais perigoso.Lorenzo me encarou com intensidade.Riccardo também.
— Interessante — disse ele.— Muito interessante.
Lorenzo se inclinou levemente.
— Como você sabe disso?
O coração dela disparou.
— Eu… ouvi falar.
Não convenceu.Não mesmo.Riccardo sorriu de lado. E Lorenzo se encosta na cadeira.Uns dedos tocava na boca,com cotovelo na cadeira e outros tocava na mesa,como se tocasse piano e para.Me analisando.
— Essa regra existe.— ele afirma— Mas já foi contornada.
Sinto o ar faltar.
— O conselho aceitou você.
— Por quê?
Riccardo olhou para Lorenzo antes de responder:
— Porque o Don fez uma oferta.
Eu olho para ele.Mas Lorenzo não desviou o olhar de mim.
— E essa regra está sendo alterada — continuou Riccardo. — Muitas mulheres da máfia não são adequadas.
Ele a analisou.
— Você é.
Aquilo não parecia escolha.Parecia destino imposto.
— Eu não tenho saída — murmuro.
Silêncio.
— Não.
Eu fecho os olhos.Por um segundo.Respirou fundo.
E tento me segurar.
— E minha vida?Meus amigos?Minha faculdade?
A voz falhou.
Lorenzo responde:
— Você poderá vê-los.
Eu abro os olhos.
— Quando?
— Você terá dois dias.
O coração apertou.
— Para se despedir.
Uma pausa.
— E pode até convidá-los para o casamento.
Aquilo a destruiu.Por dentro.Mas eu não mostrei.Não completamente.Porque naquele momento…
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Nielly Bellini entendeu uma coisa.Ela não tinha fugido do passado.
O passado…Tinha encontrado ela primeiro.