A porta ainda ecoava na minha cabeça .O som seco da batida parecia repetir dentro do quarto silencioso.Eu continuava parada na sacada.O vento da noite tocava meu rosto, mas não conseguia esfriar o turbilhão dentro do peito.
Eu fecho os olhos.
— O que eu estou fazendo…?
Parte de mim queria correr atrás dele.
Explicar melhor.Dizer que não era aquilo que eu queria.Mas a outra parte…
A parte que passou anos tentando fugir da violência, da máfia, das regras sufocantes…Essa parte gritava para eu não ceder.Eu aperto o corrimão da sacada.
— Eu não posso…
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Do outro lado da mansão…
Caminhando pelos corredores com passos duros.Os seguranças abaixavam levemente a cabeça quando eu passava.Mas ninguém ousava falar nada.Quando eu entro no escritório, o subchefe já estava lá.
— Don.
Eu me servo um copo de whisky sem responder.
— Algo aconteceu? — perguntou o homem com cautela.
Eu viro o copo de uma vez.
— Nada que seja problema da família.
O subchefe assentiu.Mas percebeu.Sei que ele percebeu.Eu estava irritado.Muito.
— Alguma ordem para hoje?
Eu olho pela janela.Por um momento, e penso em tudo.Em como havia armado aquela confusão no restaurante.Em como trouxe Nielly para essa casa.Em como tentei dar tudo a ela.E mesmo assim…Ela continuava distante.
— Não — respondeu ele finalmente.
— Apenas mantenham os homens atentos.
— Sim, Don.
O Riccardo saiu.Eu fico sozinho.E apoio as mãos na mesa.Fecho os olhos por um segundo.Nunca havia sido rejeitado daquela forma.Não por uma mulher.Não por ninguém.Mas o pior não era o orgulho ferido.Era o fato de que…Eu realmente queria que ela tivesse dito sim.
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Na manhã seguinte…
Eu acordo cedo.Quase não havia dormido.
Quando sai do quarto, dois seguranças já estavam no corredor.
Suspiro.
— Isso é sério mesmo?
Nenhum deles respondeu.Desço as escadas.A mansão estava tranquila.
Uma empregada organizava algumas flores na sala.
— Bom dia, senhorita.
— Bom dia.
— O café está servido.
Eu caminhou até a sala de jantar.Mas quando entro…Lorenzo já estava lá.Sentado.Lendo algo,com o tablet na mão.
Ele levantou os olhos por um segundo.Nossos olhares se encontraram.E o clima ficou pesado imediatamente.
— Bom dia — disse ele.
A voz dele estava calma.Mas distante.
— Bom dia — respondo.
Eu me sento na outra ponta da mesa.A distância entre nós parecia maior do que o tamanho da mesa.Eu me servo de café.Mas o silêncio estava sufocante.
Decido finalmente quebrar o gelo:
— Sobre ontem…
— Não precisamos falar sobre isso — interrompeu Lorenzo.
Paro.
— Lorenzo…
— A decisão foi sua.
A frieza da voz dele fez o meu peito apertar.
— Eu não quis te magoar.
Ele levantou os olhos.
— Mas fez.
O silêncio voltou.Eu abaixo o olhar para a xícara.
— Eu só quero uma vida normal.
Ele respondeu calmamente:
— E você acha que eu não posso dar isso a você?
Respiro fundo.
— Você é o Don da Sicília.
Ele não respondeu.Porque no fundo…
Ele sabia que eu tinha razão.Eu olho para ele novamente.
— Eu não odeio você.
Algo mudou no olhar dele.
— Então por que parece que sim?
Eu demoro alguns segundos para responder.
— Porque eu tenho medo.
Lorenzo ficou em silêncio.E pela primeira vez em semanas…Ele percebeu algo diferente nos meus olhos.
Não era desprezo.Não era rejeição.Era medo.Medo do mundo dele.Medo do que aquilo significava.
Ele suspirou lentamente.
— Você pode sair hoje.
Levanto a cabeça rapidamente.
— O quê?
— Se quiser ir para a faculdade… ou para a cidade, não vou impedir.
Fico surpresa.
— Sério?
— Sim.
Ele se levantou.
— Mas a escolta continua.
Solto um pequeno suspiro.
— Claro que continua.
Ele começou a sair da sala.
Mas antes de atravessar a porta, ele disse algo que fez o meu coração apertar.
— Não vou pedir você em casamento de novo. Mas peço,por favor! Não saia perto de mim.
Ele saiu.
Deixando-me sozinha na mesa.E pela primeira vez…A ideia de que ele realmente poderia parar de lutar por mim…Doía mais do que eu imaginava.