Naquela noite, depois de um dia longo e cheio de observações no laboratório, Allan se sentou em seu escritório em casa, reorganizando os exercícios e planejando as próximas aulas. A rotina o ajudava a manter o foco, mas, de vez em quando, sua mente se desviava para a aluna dedicada que havia chamado sua atenção. Ele sacudia a cabeça, lembrando a si mesmo que nada poderia passar disso — era uma questão profissional, ética, acadêmica.
Quando finalmente se deitou, cansado, o silêncio do apartamento parecia quase intenso demais. A cidade lá fora respirava suavemente, os sons de carros e passos distantes ecoando de maneira sutil. Allan fechou os olhos, esperando o sono chegar.
E então ele sonhou.
No sonho, ele estava novamente no laboratório de engenharia. As luzes eram mais suaves, a sala parecia mais silenciosa, como se o mundo tivesse se afastado. Ele a viu sentada na mesma bancada, concentrada nos exercícios, mas de alguma forma… diferente. Havia uma leve aura de serenidade e foco absoluto ao redor dela, como se ela fosse completamente absorvida por aquilo que fazia, ignorando o mundo.
Ele tentou falar, mas as palavras não saíam. Apenas observava. Cada gesto, cada traço do lápis no caderno, cada inclinação da cabeça parecia hipnotizante. No sonho, ela levantou os olhos para ele — só por um instante — e então desviou, com aquele mesmo movimento tímido que ele lembrava do dia. O olhar dela parecia captar algo que ele não conseguia explicar, algo entre curiosidade, percepção e… atenção intensa.
Allan sentiu uma mistura estranha de fascínio e preocupação. “Isso não pode estar acontecendo”, pensou, mesmo dentro do sonho. Mas, ainda assim, não conseguia se afastar. A mente dele tentava racionalizar, buscando manter a ética e a distância, mas o próprio subconsciente parecia brincar com essa sensação de proximidade e atenção silenciosa.
No sonho, Flávia começou a escrever fórmulas no quadro, com ele parado ao lado, observando cada passo. Era como se a atenção dela estivesse direcionada apenas para ele, ainda que ele não pudesse se mover ou falar. O sonho misturava realidade e fantasia, fazendo com que Allan acordasse algumas vezes, suando levemente, o coração acelerado, incapaz de afastar a imagem da aluna de seus pensamentos.
Quando finalmente abriu os olhos naquela manhã, o quarto iluminado pelo sol trazia a sensação de normalidade. Mas Allan sabia, mesmo que de forma desconfortável, que aquele sonho não era apenas fruto do cansaço. Era a primeira sintonia inconsciente entre atenção, curiosidade e percepção que ele tinha sobre Flávia. Algo dentro dele havia notado uma presença que não se limitava apenas à sala de aula, algo que a dedicação dela despertava de maneira intensa, mesmo que ele não quisesse admitir.
No café da manhã, enquanto revisava mentalmente o planejamento das aulas do dia, ele se pegou pensando nas fórmulas que Flávia tinha resolvido com perfeição, na atenção aos detalhes, na forma como ela mordia o lábio inferior ao se concentrar. Allan balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos, lembrando-se de que aquele semestre seria longo, e que precisaria manter a disciplina profissional acima de tudo. Mas algo havia mudado: a percepção silenciosa, quase imperceptível, sobre Flávia agora tinha uma presença constante em sua mente — uma atenção silenciosa que ainda não podia ser entendida nem admitida, mas que se tornaria parte daquele semestre intenso.