Na semana seguinte, o laboratório estava quase vazio. Apenas alguns alunos haviam chegado cedo para revisar fórmulas antes da aula começar. Entre eles, Flávia Santos já estava sentada, organizada, concentrada em seu caderno. Ela usava uma calça pantalona rosa clara e uma blusinha branca simples, com uma jaqueta branca por cima. Os cabelos lisos estavam presos em um r**o de cavalo, revelando o rosto delicado e os olhos verdes marcantes que pareciam iluminar o ambiente.
Allan entrou na sala com passos silenciosos, observando a turma. A maioria dos alunos estava espalhada pelo laboratório, ainda arrumando materiais ou mexendo em cadernos. Mas seu olhar foi imediatamente atraído por Flávia. Ela estava na primeira fila, exatamente de frente para a mesa dele. O modo como ela escrevia no caderno, cada traço cuidadoso e cada símbolo colocado com precisão, fazia com que Allan sentisse uma estranha admiração silenciosa.
"Nossa… como ela é dedicada. E… como é linda." — pensou, tentando afastar o sentimento, consciente de que precisava manter a postura profissional.
Flávia, por sua vez, estava tão concentrada que não percebeu o quanto Allan a observava, até que sentiu a sensação de alguém atento sobre ela. Levantou o olhar do caderno e, com a voz um pouco hesitante, disse:
— Professor…
— Sim? — Allan respondeu, olhando diretamente nos olhos verdes dela, mantendo a voz calma, mas sentindo o impacto da intensidade do olhar de Flávia.
Ela respirou fundo, tentando não se perder na percepção de quão atentos eram os olhos dele, e perguntou:
— Essa fórmula… você poderia me explicar de novo?
Allan se aproximou, pegando a régua que ela usava para acompanhar os cálculos. Conforme se inclinava, eles ficaram mais próximos do que o habitual, o rosto quase colado ao dela, o perfume suave dela chegando até ele de forma inesperada. Por um instante, Allan fechou os olhos levemente, respirando fundo e se concentrando apenas em manter a postura acadêmica, mesmo sentindo uma estranha e intensa atenção diante de Flávia.
Ele explicou a fórmula novamente, passo a passo, enquanto ela acompanhava cada movimento no caderno. Ela inclinou a cabeça, absorvendo as palavras dele, e então, finalmente, entendeu.
— Ahh… entendi! Obrigada, professor. — disse, com um sorriso tímido, mas genuíno.
Ela fez os cálculos e, com cuidado, mostrou o resultado para Allan. Ele olhou para o papel, conferiu rapidamente e sorriu:
— Está certinho.
Flávia devolveu um sorriso de leve, aquele tipo de sorriso que parecia iluminar o ambiente e, por um instante, fez Allan perder o foco apenas nos cálculos. Ele ficou admirando aquele sorriso delicado, tentando internalizar o momento sem demonstrar demais, consciente de que precisava manter o profissionalismo.
Enquanto se afastava para continuar explicando a aula aos outros alunos, Allan não conseguia tirar da cabeça a imagem dela concentrada, o modo como os cabelos caíam sobre o ombro, o r**o de cavalo bem preso, a determinação nos olhos verdes e aquele sorriso que parecia quase iluminar o laboratório. Era apenas mais uma aula, mas algo naquele encontro tinha despertado uma atenção silenciosa, intensa, que ele sabia que permaneceria nos próximos dias do semestre.
Flávia, por sua vez, sentiu uma leve confusão interna. Algo na forma como Allan se aproximara, a atenção que ele dera a ela e a maneira calma como explicava fez seu coração bater um pouco mais rápido. Mas, imediatamente, tentou racionalizar:
"É só professor explicando. Ele só quer que eu aprenda direito. Só isso." — disse a si mesma, tentando focar nos cálculos e manter a mente organizada.
O resto da aula passou rápido, mas a sensação daquele momento ficou com ambos: ele, admirando silenciosamente sua dedicação e presença; ela, sentindo a atenção dele de uma forma que não conseguia explicar totalmente. E naquele semestre de seis meses, cada aula, cada explicação e cada gesto começaria a se acumular, lentamente, em uma tensão silenciosa e constante, ainda totalmente profissional, mas impossível de ignorar.