Era mais uma noite que acordava com os pesadelos de Will e ele aos gritos de desespero, já estava ficando tão comum que me levantei no automático e cheio de sono para ajuda-lo. Isso estava passando dos limites, ele m*l dormia, sempre acordando cedo e indo dormir tarde por estar estudando, o sono não era bom, pois tinha sempre pesadelos e o descanso necessário não era efetuado como deveria ser. Sabia que o curso dele era muito mais puxado que o meu, que ele precisava realmente se esforçar, mas deixar de viver? Não conseguia achar certo, ele m*l se alimentava também, vivia a base de chás.
Não podia tentar falar sobre essas coisas com ele, eu não tinha a vida dele para meus cuidados, isso ultrapassaria meus limites de amizade e eu sabia que talvez ele não fosse me obedecer, ele não me devia obediência, não como um submisso, ou seja, eu não podia ajuda-lo.
Faço o que estava acostumado a fazer, vou para sua cama o coloco em meus braços e com carícias delicadas e sussurros em proteção tento acalma-lo, ele estava quase relaxando, mas em um momento rápido voltou a chorar e se debater, suas falas indecifráveis foram se tornando suplícios audíveis.
— Nã-ão! po-or fa-avor! Ed! Deixa e-ele! Pa-ara, nã-ão o ma-achu-uque! - Em meio ao choro de desespero ele falava tentando sair dos meus braços. — Me... me so-olte! Dei-ixe aju-udaa-lo! - Parecia mais sério que os outros pesadelos, dessa vez ele sonhava comigo e para a calmaria em meu peito o monstro dessa vez não era eu, ele pedia para não me machucarem. Tentei novamente acalma-lo para dormir, mas não tinha sucesso, mesmo que não gostasse de acorda-lo nesses momentos, eu tinha que fazer.
— Will, meu anjo, acorde por favor. Estou aqui baby, você está seguro em meus braços, sou eu... Ed! - Apertei seu corpo contra o meu numa tentativa maior de proteção, minha mente que tentava me punir pelas minhas falas ao garoto simplesmente deixei de lado, não importava nossa relação agora, o importante era apenas mante-lo seguro e sem medos. Eu precisava entender que nem sempre eu teria alguém para cuidar como um submisso, eu podia tentar uma relação de amizade com William sem pensar a todo instante não poder me aproximar, pois, ele não era meu.
— Will, abra os olhos, acorde, eu estou aqui, estou bem! - Odiava ver qualquer pessoa desse jeito, sem parar as carícias em seus cabelos e o aperto de seu corpo contra o meu continuei falando baixinho com a boca próxima ao seu ouvido. O garoto acordou em um salto pelo susto, me olhou paralisado como se quisesse ter a certeza que era eu mesmo ali com ele, Will piscou e se jogou em meus braços chorando.
— Vo-ocê es-está a-aqui! - Murmurou em meio ao choro enquanto afagava suas costas tentando conforta-lo. A única certeza que eu tinha nesse momento era de que precisava protege-lo a todo custo e a qualquer circunstância.
— Estou aqui querido, se acalme por favor, você está seguro, eu estou seguro, foi tudo um pesadelo. - Seu aperto se intensificou um pouco e eu retribui da mesma forma, minha fala calma e carinhosa, acariciando seus cabelos continuavam.
Depois de alguns minutos e com ele mais calmo ele se levantou para tomar um banho, estava muito suado pelo pesadelo, aproveitei para trocar a roupa de cama dele para que deitasse em uma limpa. Fiquei sentado em sua cama esperando que ele saísse do banho para podermos conversar agora com ele mais calmo, assim que saiu do banheiro me olhou, suspirou, baixou a cabeça e com o olhar parecendo perdido se sentou ao meu lado brincando com os dedos.
— Me desculpe por isso, está tão tarde e eu aqui tirando seu tempo de sono. - Sussurra parecendo sem jeito e completamente desconcertado.
— Meu problema no momento não é o meu sono Will, seus pesadelos estão ficando constantes, agora sonhou comigo, o que está acontecendo? Sei que nos conhecemos a pouco tempo, mas eu me preocupo com você, está dormindo m*l, se alimentando m*l, não está nem cuidando de sua saúde. Fale para mim pequeno, por favor. - Peço sendo sincero e o olho, Will me olha também, apesar dele ser mais velho e estar numa faculdade mais séria que a minha, seus olhos azuis não me engavam, ele era muito ingenuo e sensível.
— É complicado Ed... - Suspirei quando baixou a cabeça novamente, com a ponta dos meus dedos segurei seu queixo e o fiz me olhar.
— Você não entende como para mim é difícil vê-lo sofrendo assim e simplesmente não poder fazer nada. Não poder ajuda-lo, não poder cuidar de você e acabar com esses seus pesadelos de uma só vez. Sua aflição me machuca, me deixe ajuda-lo. Confie em mim Will. - Peço sem tirar meus olhos dele, conforme ia falando seus olhos voltavam a marejar e seu rosto delicado ia se contraindo em tristeza.
— Quando mais novo, morando ainda com minha mãe, meu padrasto abusava de mim. - Começa a contar e o susto por ele falar de forma tão calma e parecendo acostumado com essa história me assustam a ponto de soltar seu rosto, ele soluça como se tivesse levado um soco pelo meu afastamento, mas não queria passar essa sensação a ele, sem eu poder me retratar ele volta a falar. — Quando contei a mamãe que era gay, ele não aceitou, minha mãe sempre me apoiou e quando ela não estava por perto ele judiava de mim. Não tinha paciência para minha falta de cuidado, sempre fui estabanado e vivia esbarrando ou derrubando as coisas pela minha timidez. Uma certa época quando ele ficou desempregado, mamãe teve que dobrar no trabalho para nos sustentar, era eu, ela, ele e minhas duas irmãs.
William balançou a cabeça voltando a chorar e as mãos em seu colo voltaram a se fecharem com raiva. Meu peito doeu pela cena e a raiva do homem que eu se quer sabia o nome começava a crescer.
Passei meu braço em torno de seus ombros o puxando lateralmente para meu peito, ele deitou a cabeça em meu ombro fungando enquanto tentava se recompor para voltar a falar.
— Nessa época minhas irmãs estudavam a tarde, eu sendo o mais velho de manhã, quando voltava para casa era apenas nos dois, ele começou a beber, fumava e se descontrolava, até que teve a primeira vez, sempre tive medo dele, ele bêbado simplesmente entrou no meu quarto e me usou. - O soluço do garoto partia meu coração, me arrastei pela cama para ficar com as costas encostada na cabeceira e o puxei para meus braços, deixando ele sentado nas minhas pernas com o rosto em meu peito.
— Estou aqui agora anjo, eu vou te proteger, ele jamais irá encostar novamente em um único fio de seus cabelos. - Digo em promessa prendendo a raiva que crescia cada vez mais em mim. Will se afastou do meu peito, fungou limpando as lágrimas do rosto e me olhou meio desconfiado e balançou a cabeça. Ele não saiu do meu colo, apenas me olhou e voltou a falar com raiva.
— Hoje isso não é nada para mim, me sinto sujo e usado ainda, mas sinceramente, não me preocupa mais. Depois de um tempo e aparentemente cansado de mim, Mark começou a me usar de outra forma, sempre que tinha trabalho de escola em grupo, implorava para mamãe me deixar fazer ou na escola, ou na casa de algum dos meus amigos, nas primeiras vezes ela deixou, mas depois Mark percebendo que eu fingia trabalho só para não ficar sozinho em casa com ele me colocou na parede e com raiva socou minha barriga, avisou que se eu tentasse fugir dele novamente faria pior com mamãe e me obrigou a levar um por um dos meus amigos para casa.
Will fechou os olhos com raiva e quando abriu voltou a chorar, meu peito cada vez mais doía, me sentia um inútil sem saber o que fazer para acalentar o garoto e curar sua dor.
— Me sentia nojento, no próximo trabalho marquei com dois amigos de ser na minha casa achando que naquele momento ele não fosse estar em casa, ouvi na manhã anterior ele conversando com mamãe que iria procurar trabalho, mas quando cheguei em casa ele estava lá, bêbado como sempre. Ele abusou dos dois garotos que foram comigo para casa e me deixou trancado no armário enquanto ouvia os gritos de desespero deles. Nunca mais vi nenhum deles, eles saíram da cidade com os pais uma semana depois e não voltaram para escola. Patrick já era meu amigo naquela época. Quando Mark voltou a trabalhar uns meses depois a casa ficou mais tranquila, ele já não bebia como antes e não me procurava também, tinha medo dele e medo de tudo voltar como era antes, mas fui vivendo conforme os dias ia se passando. Patrick marcou de me encontrar na saída da escola no final de uma aula e fomos juntos para minha casa, eu estaria sozinho como estava nos últimos meses não tinha mais medo de ferir nenhum amigo meu.
Ele voltou a chorar e imaginando o que vinha na frente voltei a puxa-lo para meus braços beijando seus cabelos lhe dando carinho.
— Ele estava em casa, bêbado como antes. Sorriu feliz da vida falando que eu nunca o decepcionaria, que levara carne nova para ele. - O menino fez uma voz de nojo, fechei meus olhos com força apertando o mesmo em meus braços e ele soluçou novamente desistindo de se controlar, eu não tinha problema com ele chorando para desabafar, deixaria ele tirar tudo do peito como precisava. — Você já imagina o que aconteceu. Patrick diferente dos outros não desistiu de mim, viu que eu era só mais uma vítima dele. - Will parou um pouco, respirou algumas vezes e voltando a tomar coragem continuou.
— As coisas começaram a piorar quando começou a chegar drogado em casa. Em uma das noites, mamãe chegou cedo do trabalho, ela estava muito cansada e subiu para dormir, aproveitei e subi para o meu também, no meio da noite ele chegou e entrou no meu quarto, ele não sabia que ela estava em casa e eu morria de medo de contar para ela o que Mark fazia comigo, medo dela não acreditar em mim, medo dele fazer pior com ela, medo de perder a confiança dela e ela sentir raiva de mim, me culpava por tudo o que me acontecia, se eu não fosse quem era, talvez não estivesse sofrendo. Naquele dia eu não sei o que aconteceu comigo, eu sabia que ele odiava que eu gritasse, com o tempo tinha começado a me fingir de morto, ficava parado sem me expressar, só sentindo ele me usar, ele me batia demais, tinha raiva por não ver nenhuma expressão minha, mas quando gritava ele fazia pior, tinha prazer em me ver sofrendo. Ali eu gritei, esperniei, entrei em desespero e ele adorou, mas meus gritos acordaram mamãe, quando ela chegou em meu quarto em desespero quebrou meu abajur na cabeça dele que caiu desmaiado.
Will suspirou esfregou seu rosto em meu peito nu, deu de ombros e voltou a falar.
— Ele foi preso, mamãe ficou do meu lado, chorou, se culpou e fizemos tratamento com psicologo juntos. Minhas irmãs passaram a me odiar, não sabiam dos abusos, mas sabiam que a prisão do pai delas tinha haver comigo. Semana passada mamãe me ligou, Mark foi solto e ela estava desesperada, minhas irmãs ficaram tão felizes que foram morar com ele. Ela não sabia como contar para as meninas que o pai delas era um monstro e ela se culpa por esconder a verdade das filhas. Nós ficamos próximos tão rapido que quando fiquei sabendo da soltura os pesadelos aumentaram e o medo dele te encontrar e querer te machucar como fez com os meus amigos no passado foi aumentando. É por isso que eu tenho o menor tipo de contato possivel com qualquer pessoa a minha volta, tenho medo dele ferir as pessoas que me aproximo apenas para me atingir. Essa noite o pesadelo foi pior, parecia mais real, sentia braços me apertando enquanto te via sendo machucado por ele e não podia te ajudar, não conseguia te salvar, não conseguia me mexer e sair do aperto. - Ele disse em um sussurro, se afastando do meu peito para me olhar, suspirei levando minha mão para seu rosto e acariciando sua bochecha, deixei um beijo demorado em sua testa e o olhei.
— Talvez as mãos te prendendo eram as minhas, eu te abraçava para tentar tira-lo do pesadelo como andei fazendo os ultimos dias mas quando te mantive em meu peito você foi piorando. Me desculpe, eu não gosto de acordar ninguem durante o sono e essa tática estava funcionando tão bem com você pequeno.
— Não me peça desculpas por tentar me ajudar Ed, você me ajudou tanto em tão pouco tempo, eu só tenho que te agradecer.
— Você quer ver esse homem preso novamente?
— Era o que eu mais queria, ele foi solto por bom comportamento, não acredito que seria preso de novo, mesmo sabendo que minhas irmãs jamais iriam me perdoar, sei que ele preso me faz muito melhor que solto. - Suspirei acenando, Mark seria preso novamente, eu faria isso por Will e por sua família.
— Ele não vai chegar perto de você novamente, eu te prometo, esse homem não vai mais ferir você, eu não vou deixar ok? - Will acenou, seu sorriso fofo com ruguinhas embaixo dos olhos, seu nariz e olhos vermelhos pelo choro o deixaram mais fofo e me fizeram sorrir. O garoto pediu para deitar com ele, faze-lo dormir como eu estava fazendo os ultimos dias, deixei a luz do abajur acesa como ele fazia entendo agora o motivo de seus medos durante o sono e como se sentia mais seguro com a luz ligada, me ajeitei em sua cama e ele se deitou em meu peito, quando seu sono foi chegando e ele ressonando suas mãos foram se prendendo mais e mais em meu corpo, como se ele pedisse para não sair do seu lado, então por ali eu fiquei.
Era incrivel ver como ele fazia eu me sentir diferente, como me fazia bem, desde o dia que lhe conheci não pensei mais em Nick, não senti mais raiva ou sofri pelo meu ex, meus pensamentos mesmo negando e me auto sabotando era sempre com ele. Não era suficiente ficar ao seu lado, parecia que eu queria sempre mais do garoto, te-lo confiando em mim num momento como esse e vendo ele se abrir e contar seu passado me fez ficar ainda mais encantado, agora eu entendia porque ele queria tanto ser advogado, ele queria proteger pessoas com passado ou presente igual o que ele um dia já teve.
Acabei dormindo com os pensamentos voltado a ele. William era forte mas eu ainda o protegeria e cuidaria dele, fosse como amigo, como conhecido, como protetor ou como seu dono.