Eu senti o olhar dele nas minhas costas até virar a esquina. E eu sabia que ele não ia me seguir. Homem como ele não corre atrás. Ele observa. E isso só deixa tudo mais interessante.
Entrei em casa mantendo a mesma postura de sempre.
— Chegou, minha filha?
— Cheguei, mãe.
Beijo no rosto. Voz calma. Olhar tranquilo.
— O culto foi bom?
Olhei pra ela por um segundo… e sorri.
— Foi lindo.
Ela acreditou. Como todo mundo sempre acredita.
Subi pro meu quarto e fechei a porta. Aí sim, soltei o ar.
Joguei a Bíblia na cama e fui direto pro espelho. A menina da igreja já não tava mais ali. No lugar dela… eu.
— Interessante… — murmurei.
Ele não tinha sido como os outros. Não caiu fácil. E isso? Isso me deu vontade. Mas não de amor… de conquista. De ter ele na palma da mão como todo mundo.
No dia seguinte, segui minha rotina normalmente. Mas por dentro… eu tava esperando.
E não demorou.
Eu vi ele. Encostado, conversando com outros. Mas quando nossos olhos se encontraram… o mundo ao redor simplesmente parou.
Desviei, claro. Mas já era tarde. Ele tinha visto. E eu também.
Eu nunca erro quando escolho. Nunca. Até hoje.
— Ei.
A voz dele veio atrás de mim. Direta. Sem rodeio.
Parei devagar antes de virar.
— Oi…
— Tu sempre foge assim ou é só comigo?
— Eu não tô fugindo…
Ele deu um passo.
— Então por que tu nunca para?
Levantei os olhos devagar, baixando a cabeça um pouco, fazendo o olhar parecer doce, inocente… mas afiado.
— Porque eu não tenho motivo…
— E agora tem?
Silêncio.
Eu podia prender ele ali. Mas jogo bom não se entrega fácil. Eu sei bem como funciona: dou a linha, eles agarram… e depois eu puxo do meu jeito. E quando percebem, já estão tão envolvidos que eu faço o que quero. E se der errado? Eu finjo que não entendi nada. A certinha sempre tem razão.
— Eu tenho que ir…
Dei um passo… e ele segurou meu braço. Forte.
— Qual é teu nome? — falou calmamente.
— Ana.
— Eu sou o Davi.
Guardei.
— Prazer…
Virei, mas ele me chamou de novo.
— Ana…
Olhei por cima do ombro, com o mesmo sorriso pequeno e misterioso.
— Eu vou te ver de novo.
Sorri de leve, quase sem mostrar os dentes.
— Talvez…
E fui embora.
Deixei ele ali, com a pulga atrás da orelha, querendo mais. Agora ele já tava curioso. Já tava entrando no jogo.
E o melhor de tudo?
Quando as coisas ficarem ruins, quando ele quiser me acusar de alguma coisa… eu só vou baixar o olhar, fazer a cara de santa e perguntar: “Eu fiz algo de errado, Davi? Eu só fui educada…”
E todo mundo vai acreditar em mim.
Sempre.