Entendi tudo. A editora quer conflito logo no início, mostrar que ela é manipuladora, que seduz, usa os homens e depois finge que nada aconteceu, virando o jogo contra eles — exatamente a energia de Creusa e Tião.
Vou ajustar esse capítulo para já ter essa tensão, mostrar a maldade dela e o perigo real, não só um flerte. O texto vai ficar natural, com ritmo, mas com "dentes".
Aqui está:
Eu não olhei pra trás, nem uma vez. Mas senti. Senti o olhar dele me seguindo, pesado, atento… diferente de todos os outros. Não era só desejo, era interesse. E isso, pra mim? Sempre foi um brinquedo.
Cheguei em casa como se nada tivesse acontecido.
— Demorou hoje, minha filha — minha mãe comentou, mexendo na panela.
— Tinha muita gente na rua… — respondi no automático, largando a sacola na mesa. Mais uma meia verdade. Sempre funciona melhor assim. Todo mundo compra a história da menina boazinha.
Subi pro meu quarto e fechei a porta. Dessa vez, não encostei nela como antes, fui direto pro espelho e fiquei me olhando.
— Davi… — falei o nome baixo, testando o gosto dele. Nome forte. Mas nome não diz nada. O que importa é o que ele faz… e o que ele vai se tornar no meu jogo. Outro peão.
Passei a mão pelo cabelo devagar.
— Você não é burro… — murmurei. E isso muda tudo. Porque homem burro é fácil, agora homem que pensa que observa? Esse eu adoro desmontar. Dá trabalho, mas a satisfação de ver ele caindo é muito maior. Sorri sozinha.
Os dias seguintes foram silêncio. E isso não foi por acaso, foi estratégia. Minha. Porque o erro deles é sempre querer demais, aparecer demais. Eu não. Eu desapareço. Deixo o vazio comer eles. Deixo a dúvida crescer: “Será que ela vem?”, “Por que sumiu?”. Sim. Sempre faço de propósito. É assim que eu deixo eles loucos.
No terceiro dia, voltei pra igreja. Mesmo horário, mesmo vestido comportado, mesmo cabelo preso. A mesma “Ana” que todo mundo ama e confia. Entrei sem olhar pros lados, cumprimentei as mesmas pessoas e sentei no mesmo lugar. Mas por dentro… eu já sabia. Ele tava ali. Não vi, mas senti. Predador sente predador.
E quando o culto começou, não demorou muito pra confirmação vir.
— Posso sentar aqui?
A voz. Baixa. Perto demais.
Meu coração deu uma batida mais forte, mas não de nervoso. De caça. Eu controlo até a respiração. Levantei os olhos devagar e lá estava ele. Mais arrumado, mas ainda com aquele ar que não combina com nada santo. Olhar direto, sem vergonha.
Hesitei. Claro que hesitei. Faz parte do papel.
— Pode…
Ele sentou ao meu lado como se sempre tives sido o lugar dele. E por alguns minutos, ficamos em silêncio. O pastor falava, mas nada ali importava. Porque a guerra real era ali, entre eu e ele.
— Tu some… — ele murmurou, sem olhar diretamente pra mim.
Sorri de leve, ainda olhando pra frente. Doce. Inocente.
— Eu venho sempre.
— Eu não te vi.
— Talvez você não tenha procurado direito… — repeti de propósito, jogando a isca.
Ele soltou uma risada baixa.
— Eu procurei.
Virei o rosto um pouco, só o suficiente pra encontrar o olhar dele, e sustentei. Dessa vez, sem recuar tão rápido.
— E achou?
Silêncio. Pesado. Carregado.
— Tô achando agora.
Aquilo foi diferente. Não foi cantada barata. Foi direto. E por um segundo… eu senti. Não controle. Algo mais quente. Mas logo botei a máscara de volta. Não posso deixar ele ver que mexeu comigo.
— A gente não devia conversar aqui… — falei baixo, olhando pro lado, fingindo pudor.
Ele se inclinou um pouco mais perto. O calor do corpo dele invadindo meu espaço.
— Por quê? Tem medo de quê?
Respirei fundo e olhei pra frente de novo.
— Do que as pessoas vão pensar…
Mentira. Eu nunca liguei pra isso. Eu ligo é no que eu ganho.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos e então disse, mais baixo ainda, quase rosnando:
— Ou do que tu pode acabar querendo?
Aquilo me acertou. Forte. Virei o rosto na hora e, dessa vez, o doce sumiu. A voz saiu afiada.
— Você não me conhece.
Ele não recuou. Pelo contrário.
— Então me deixa conhecer.
Silêncio. Longo. Perigoso.
Eu podia ter parado ali. Podia ter virado a cara e deixado ele com vontade. Mas não… eu queria mais. Queria ver ele se afogando no que eu sinto.
Inclinei levemente o rosto, chegando um pouco mais perto. O suficiente pra ele sentir meu hálito.
— Cuidado com o que você quer… — sussurrei, com a voz melada, mas com veneno escondido. — Porque eu não sou mulher de meio termo. Ou tu vai até o fim… ou eu esqueço você existe.
E me afastei. Rápida. De novo a santa.
Mas por dentro? Eu sabia. O jogo tinha virado. Ele achava que estava me conquistando, mas não sabia que já era meu.
E o melhor de tudo? Quando eu me cansar dele, quando ele quiser exigir algo… eu só vou baixar os olhos, chorar e dizer que ele me entendeu m*l. E todo mundo vai acreditar em mim.
Sempre.