Mais perto do que devia

884 Words
Entendi tudo. A editora quer conflito logo no início, mostrar que ela é manipuladora, que seduz, usa os homens e depois finge que nada aconteceu, virando o jogo contra eles — exatamente a energia de Creusa e Tião. Vou ajustar esse capítulo para já ter essa tensão, mostrar a maldade dela e o perigo real, não só um flerte. O texto vai ficar natural, com ritmo, mas com "dentes". Aqui está: Eu não olhei pra trás, nem uma vez. Mas senti. Senti o olhar dele me seguindo, pesado, atento… diferente de todos os outros. Não era só desejo, era interesse. E isso, pra mim? Sempre foi um brinquedo. Cheguei em casa como se nada tivesse acontecido. — Demorou hoje, minha filha — minha mãe comentou, mexendo na panela. — Tinha muita gente na rua… — respondi no automático, largando a sacola na mesa. Mais uma meia verdade. Sempre funciona melhor assim. Todo mundo compra a história da menina boazinha. Subi pro meu quarto e fechei a porta. Dessa vez, não encostei nela como antes, fui direto pro espelho e fiquei me olhando. — Davi… — falei o nome baixo, testando o gosto dele. Nome forte. Mas nome não diz nada. O que importa é o que ele faz… e o que ele vai se tornar no meu jogo. Outro peão. Passei a mão pelo cabelo devagar. — Você não é burro… — murmurei. E isso muda tudo. Porque homem burro é fácil, agora homem que pensa que observa? Esse eu adoro desmontar. Dá trabalho, mas a satisfação de ver ele caindo é muito maior. Sorri sozinha. Os dias seguintes foram silêncio. E isso não foi por acaso, foi estratégia. Minha. Porque o erro deles é sempre querer demais, aparecer demais. Eu não. Eu desapareço. Deixo o vazio comer eles. Deixo a dúvida crescer: “Será que ela vem?”, “Por que sumiu?”. Sim. Sempre faço de propósito. É assim que eu deixo eles loucos. No terceiro dia, voltei pra igreja. Mesmo horário, mesmo vestido comportado, mesmo cabelo preso. A mesma “Ana” que todo mundo ama e confia. Entrei sem olhar pros lados, cumprimentei as mesmas pessoas e sentei no mesmo lugar. Mas por dentro… eu já sabia. Ele tava ali. Não vi, mas senti. Predador sente predador. E quando o culto começou, não demorou muito pra confirmação vir. — Posso sentar aqui? A voz. Baixa. Perto demais. Meu coração deu uma batida mais forte, mas não de nervoso. De caça. Eu controlo até a respiração. Levantei os olhos devagar e lá estava ele. Mais arrumado, mas ainda com aquele ar que não combina com nada santo. Olhar direto, sem vergonha. Hesitei. Claro que hesitei. Faz parte do papel. — Pode… Ele sentou ao meu lado como se sempre tives sido o lugar dele. E por alguns minutos, ficamos em silêncio. O pastor falava, mas nada ali importava. Porque a guerra real era ali, entre eu e ele. — Tu some… — ele murmurou, sem olhar diretamente pra mim. Sorri de leve, ainda olhando pra frente. Doce. Inocente. — Eu venho sempre. — Eu não te vi. — Talvez você não tenha procurado direito… — repeti de propósito, jogando a isca. Ele soltou uma risada baixa. — Eu procurei. Virei o rosto um pouco, só o suficiente pra encontrar o olhar dele, e sustentei. Dessa vez, sem recuar tão rápido. — E achou? Silêncio. Pesado. Carregado. — Tô achando agora. Aquilo foi diferente. Não foi cantada barata. Foi direto. E por um segundo… eu senti. Não controle. Algo mais quente. Mas logo botei a máscara de volta. Não posso deixar ele ver que mexeu comigo. — A gente não devia conversar aqui… — falei baixo, olhando pro lado, fingindo pudor. Ele se inclinou um pouco mais perto. O calor do corpo dele invadindo meu espaço. — Por quê? Tem medo de quê? Respirei fundo e olhei pra frente de novo. — Do que as pessoas vão pensar… Mentira. Eu nunca liguei pra isso. Eu ligo é no que eu ganho. Ele ficou em silêncio por alguns segundos e então disse, mais baixo ainda, quase rosnando: — Ou do que tu pode acabar querendo? Aquilo me acertou. Forte. Virei o rosto na hora e, dessa vez, o doce sumiu. A voz saiu afiada. — Você não me conhece. Ele não recuou. Pelo contrário. — Então me deixa conhecer. Silêncio. Longo. Perigoso. Eu podia ter parado ali. Podia ter virado a cara e deixado ele com vontade. Mas não… eu queria mais. Queria ver ele se afogando no que eu sinto. Inclinei levemente o rosto, chegando um pouco mais perto. O suficiente pra ele sentir meu hálito. — Cuidado com o que você quer… — sussurrei, com a voz melada, mas com veneno escondido. — Porque eu não sou mulher de meio termo. Ou tu vai até o fim… ou eu esqueço você existe. E me afastei. Rápida. De novo a santa. Mas por dentro? Eu sabia. O jogo tinha virado. Ele achava que estava me conquistando, mas não sabia que já era meu. E o melhor de tudo? Quando eu me cansar dele, quando ele quiser exigir algo… eu só vou baixar os olhos, chorar e dizer que ele me entendeu m*l. E todo mundo vai acreditar em mim. Sempre.
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