Não Era Pra Mexer Comigo

672 Words
Eu não gosto de perder o controle. Nunca gostei. E, por muito tempo, achei que isso nem fosse possível. Porque tudo sempre foi do meu jeito. No meu tempo. No meu ritmo. Mas ele… Ele tava começando a bagunçar isso. O culto acabou, mas eu não levantei na hora. Fiquei ali, sentada, olhando pra frente como se ainda estivesse prestando atenção em alguma coisa. Como se ainda fosse aquela menina perfeita que todo mundo acha que eu sou. Mas por dentro? Eu só sentia ele do meu lado. Quase como se a presença dele ocupasse mais espaço do que devia. — Tu faz isso com todo mundo? — ele perguntou de repente. Virei o rosto devagar. — Isso o quê? Ele me encarou com aquele olhar que parecia atravessar. — Esse joguinho. Segurei o olhar dele por um segundo. Dois. E então… sorri, mas não doce. Não inocente. — Eu nem sei do que você tá falando. Ele soltou uma risada baixa, passando a mão pelo rosto. — Sabe sim. Silêncio. Dessa vez, eu não desviei o olhar. Não abaixei a cabeça. Não fingi. Fiquei ali. Inteira. — E se eu souber? A pergunta saiu mais afiada do que eu planejei. Mais… eu. Ele inclinou um pouco a cabeça, me analisando. — Então tu é problema. Senti algo estranho subir pelo peito. Não era raiva. Não era medo. Era… reconhecimento. E isso? Isso é perigoso. — E você gosta de problema? — retruquei. Ele não pensou. — Gosto. Aquilo me fez sorrir de verdade. Devagar. — Então você devia tomar cuidado… Me levantei. Ele me acompanhou com o olhar. — Por quê? Inclinei um pouco o corpo na direção dele, diminuindo a distância. — Porque nem todo problema tem solução. Sussurrei. E virei. De novo. Sempre eu indo embora. Sempre deixando ele querendo mais. Sempre no controle. Ou pelo menos era o que eu achava. Desci o morro mais rápido dessa vez. O coração batendo mais forte do que o normal… e isso me irritava. Eu não fico assim. Não por ninguém. — Ridículo… — murmurei pra mim mesma. Mas a verdade? Eu sabia o motivo. Ele não tava caindo como os outros. Ele não tava se perdendo fácil. E pior… Ele tava me enxergando. Não tudo. Mas o suficiente pra incomodar. No dia seguinte, eu não fui pra igreja. Nem no outro, nem no outro. Sumi. De propósito. Dessa vez não era só estratégia. Era teste. Queria ver até onde ia a paciência dele. Queria ver se ele ia me procurar. Porque uma coisa é certa: Quando o homem deixa de esperar… Ele começa a agir. E ele agiu. Era fim de tarde quando bateram na porta de casa. Eu tava na sala com minha mãe, ajudando ela a dobrar roupa. — Vê quem é, filha? Levantei sem pressa, mas por dentro… Eu senti. Abri a porta. E congelei por meio segundo. Davi. Ali. Na minha porta. Dentro do meu mundo. Erro. Erro meu. Erro grande. Mas eu não deixei transparecer. Claro que não. — Oi… — falei baixo, segurando a expressão. Ele me olhou de cima a baixo, rápido. Mas não com malícia. Com atenção. — Sumiu. Direto. Sem educação. Sem filtro. Respirei fundo, abrindo um pouco mais a porta. — Eu… tava ocupada. Mentira fraca. Ele percebeu. — Tava mesmo ou tava me evitando? Silêncio. Minha mãe apareceu atrás de mim. — Quem é, minha filha? Virei levemente o rosto. — Um amigo… Amigo. Quase ri. Ele ouviu. E deu um meio sorriso. — Boa noite, dona. Educado. Na medida. Minha mãe abriu um sorriso na hora. — Boa noite, meu filho. Quer entrar? Não. Não. Não era pra ele entrar. Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa… Ele respondeu: — Quero sim. E entrou. Sem pedir mais nada. Sem olhar pra mim. Como se já soubesse… Que eu não ia impedir. E foi ali que eu entendi. O jogo mudou. De verdade. Porque uma coisa é brincar no mundo deles. Outra… É deixar eles entrarem no meu.
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