Eu sabia que não devia.
Mas fiz mesmo assim.
Dois dias depois da visita dele, eu voltei à rotina.
Mesma igreja, mesma postura e mesmo sorriso.
Como se nada tivesse mudado.
Como se ele não tivesse entrado na minha casa… na minha cabeça… no meu jogo.
Mas eu não podia parar.
Não agora.
Não por ele.
Era depois do culto quando eu vi.
Encostado mais à frente, rindo, cercado de gente.
Bonito.
Confiante.
Do tipo que chama atenção fácil.
Novo alvo.
Ou melhor…
Distração.
Eu me aproximei devagar, conversando com uma senhora, rindo baixo, sendo exatamente quem esperavam que eu fosse.
E então…
Deixei acontecer.
Um olhar.
Só um.
Rápido.
Calculado.
Ele percebeu, claro que percebeu.
E não demorou nem dois minutos pra vir até mim.
— Você que é a menina que canta aqui às vezes, né?
Sorri tímido.
Baixei o olhar.
— Às vezes…
— Eu nunca tinha reparado…
— Talvez você não tenha olhado direito.
Mesma frase.
Novo homem.
Mesmo efeito.
Ele riu.
Caiu.
Fácil.
Mas dessa vez…
Tinha alguém olhando.
— Cuidado, menina.
A voz veio baixa, do meu lado.
Eu gelei por dentro, mas virei tranquila.
Era Dona Celeste.
Velha.
Observadora.
Perigosa.
— Com o quê, tia?
Ela me olhou… diferente.
Como se estivesse juntando peças.
— Com os olhos que você anda levantando por aí…
Sorri leve.
— Eu não entendi…
— Entende sim.
Silêncio.
Por um segundo…
Eu achei que ela tinha visto demais.
Mas ela só balançou a cabeça.
— Só não brinca com quem não deve.
Aquilo ficou.
Pesado, mas eu mantive o sorriso.
— Pode deixar…
Ela saiu.
Mas não levou a desconfiança com ela.
Eu tentei manter o jogo.
De verdade.
Falei com outro.
Sorri.
Usei o mesmo olhar, as mesmas palavras.
Mas não era igual.
Não tinha o mesmo gosto.
E quando eu percebi…
Ele estava olhando.
Davi.
Mais afastado, atento e frio.
E quando o outro homem se aproximou demais…
— Você quer descer comigo? — o outro perguntou, se aproximando mais.
Antes que eu respondesse…
Uma mão segurou meu braço.
Davi veio.
— Ela não vai.
Direto.
Pesado.
— Tá achando que manda nela?
— Não acho.
Silêncio.
— Eu sei.
Aquilo mudou tudo.
Ficamos frente a frente.
— Tu tá brincando comigo?
— Você tá confundindo…
— Não tô.
Ele chegou perto.
— Eu vi.
Silêncio.
— Eu não sou ele.
A mão dele segurou meu queixo.
— Então por que tu para quando eu chego?
Ele segurou meu queixo.
De leve, mas firme.
Me obrigando a olhar direto pra ele.
E dessa vez…
Eu não consegui fingir totalmente.
Meu corpo reagiu.
Erro.
Ele percebeu.
Se inclinou.
Quase.
Muito perto.
Mas antes que acontecesse…
— ANA!
A voz cortou tudo e eu me afastei.
Mas não adiantou.
— Você tá bem, minha filha? — ela perguntou, se aproximando.
— Tô… — respondi rápido demais.
Ela olhou pra mim.
Pra ele.
E dessa vez…
Ela viu.
Não tudo, mas o suficiente.
E eu senti, pela primeira vez de verdade…
Que eu tava perdendo o controle.
E isso?
Isso nunca aconteceu antes.
Nunca.
Dona Celeste viu.
E eu senti.
Minha máscara…
Começando a cair.