Rachaduras

652 Words
Ela não tirou os olhos de mim. Depois olhou pra ele. E demorou um segundo a mais do que devia. — Cuidado por onde anda, minha filha… — disse baixo, mas com peso. Aquilo não foi conselho. Foi aviso. E eu entendi. — Boa noite — Davi falou, seco. Sem sorriso. Sem personagem. Ela respondeu, mas já não era mais a mesma simpatia de antes. E quando ela saiu… Levou embora o pouco de controle que ainda restava. Ficamos em silêncio. Pesado. Denso. Cheio de coisa não dita. — Isso aqui já foi longe demais — falei, sem olhar pra ele. Mentira. Eu sabia que ainda ia piorar. — Ainda não foi o suficiente — ele respondeu. Direto. Eu virei na hora. — Pra você, talvez. — Pra tu também. Neguei com a cabeça, rindo sem humor. — Você tá viajando… Ele deu um passo na minha direção. — Então olha pra mim e fala isso de novo. Silêncio. Eu não olhei. E ele percebeu. Claro que percebeu. — É isso que tu faz, né? — a voz dele saiu mais baixa, mais controlada… e mais perigosa. — Chega, mexe, vira a cabeça… e depois se faz de santa. Aquilo me atingiu. Porque não foi acusação vazia. Foi leitura. — Cuidado com o que você fala — rebati, firme. — Ou o quê? Desafio. Puro. Cru. Levantei o olhar devagar e dessa vez… Sem máscara. — Ou você descobre coisa que não vai saber lidar. Silêncio. Os olhos dele travaram nos meus. E eu vi. De novo. Aquela mistura. Vontade. Raiva. Ciúmes. E algo pior… Interesse demais. — Eu já tô lidando — ele disse. Mais perto. Mais intenso. — Tu que não tá. Meu peito subiu e desceu mais forte. E isso me irritou. Porque eu não perco o controle. Não por ninguém. — Eu não sou uma das suas — falei, firme. Ele inclinou a cabeça. — Ainda não. Aquilo… Aquilo foi errado. De um jeito que mexeu. — Você não manda em mim — repeti. Ele chegou mais perto. Sem encostar. Mas perto o suficiente pra confundir tudo. — Então para de agir como se quisesse que eu mandasse. Silêncio. Pesado. E perigoso demais. Porque ele tava certo. E eu odiava isso. — Você acha que me conhece — falei, tentando retomar o controle. — Não. Ele negou. Simples. — Mas eu sei o que tu faz. Meu coração bateu mais forte. — E o que eu faço? Desafiei. Ele olhou pra minha boca. Depois pros meus olhos. Devagar. Sem pressa. — Tu provoca. Pausa. — Tu puxa. Mais um passo. — Tu prende. Minha respiração falhou por um segundo. — E quando vê que conseguiu… Ele chegou ainda mais perto. Quase encostando. — Tu solta. Silêncio. E ali… Naquele momento… Eu senti. A máscara rachando. De verdade. — Eu não sou eles… — ele continuou, baixo. Muito perto. Muito. — Eu não vou sair correndo atrás. — Então por que você tá aqui? — rebati, quase num sussurro. Ele não hesitou. — Porque tu veio até mim primeiro. Aquilo… Aquilo virou o jogo. Porque era verdade. E pela primeira vez… Eu não tinha resposta pronta. Silêncio. Longo. Pesado. E cheio de coisa que eu não conseguia controlar. — Ele recuou um pouco. Mas não o suficiente. Nunca o suficiente. — Decide o que tu quer, Ana. A voz saiu mais calma. Mas ainda firme. — Porque esse jogo aí… Ele deu um meio sorriso. Sem humor. — Já não é só teu. E saiu, assim. Sem olhar pra trás. Eu fiquei parada. No meio da rua. Sentindo tudo ao mesmo tempo. Raiva. Orgulho ferido. Vontade. E uma coisa que eu nunca admito… Nem pra mim. Medo. Porque agora tinha alguém que não só jogava comigo… Mas que tava começando a ganhar. E eu? Eu nunca perdi, mas pela primeira vez… Eu não tinha certeza de que ia ganhar.
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