Ela não tirou os olhos de mim. Depois olhou pra ele.
E demorou um segundo a mais do que devia.
— Cuidado por onde anda, minha filha… — disse baixo, mas com peso.
Aquilo não foi conselho.
Foi aviso.
E eu entendi.
— Boa noite — Davi falou, seco.
Sem sorriso.
Sem personagem.
Ela respondeu, mas já não era mais a mesma simpatia de antes.
E quando ela saiu…
Levou embora o pouco de controle que ainda restava.
Ficamos em silêncio.
Pesado.
Denso.
Cheio de coisa não dita.
— Isso aqui já foi longe demais — falei, sem olhar pra ele.
Mentira.
Eu sabia que ainda ia piorar.
— Ainda não foi o suficiente — ele respondeu.
Direto.
Eu virei na hora.
— Pra você, talvez.
— Pra tu também.
Neguei com a cabeça, rindo sem humor.
— Você tá viajando…
Ele deu um passo na minha direção.
— Então olha pra mim e fala isso de novo.
Silêncio.
Eu não olhei.
E ele percebeu.
Claro que percebeu.
— É isso que tu faz, né? — a voz dele saiu mais baixa, mais controlada… e mais perigosa. — Chega, mexe, vira a cabeça… e depois se faz de santa.
Aquilo me atingiu.
Porque não foi acusação vazia.
Foi leitura.
— Cuidado com o que você fala — rebati, firme.
— Ou o quê?
Desafio.
Puro.
Cru.
Levantei o olhar devagar e dessa vez… Sem máscara.
— Ou você descobre coisa que não vai saber lidar.
Silêncio.
Os olhos dele travaram nos meus.
E eu vi.
De novo.
Aquela mistura.
Vontade.
Raiva.
Ciúmes.
E algo pior…
Interesse demais.
— Eu já tô lidando — ele disse.
Mais perto.
Mais intenso.
— Tu que não tá.
Meu peito subiu e desceu mais forte.
E isso me irritou.
Porque eu não perco o controle.
Não por ninguém.
— Eu não sou uma das suas — falei, firme.
Ele inclinou a cabeça.
— Ainda não.
Aquilo…
Aquilo foi errado.
De um jeito que mexeu.
— Você não manda em mim — repeti.
Ele chegou mais perto.
Sem encostar.
Mas perto o suficiente pra confundir tudo.
— Então para de agir como se quisesse que eu mandasse.
Silêncio.
Pesado.
E perigoso demais.
Porque ele tava certo.
E eu odiava isso.
— Você acha que me conhece — falei, tentando retomar o controle.
— Não.
Ele negou.
Simples.
— Mas eu sei o que tu faz.
Meu coração bateu mais forte.
— E o que eu faço?
Desafiei.
Ele olhou pra minha boca.
Depois pros meus olhos.
Devagar.
Sem pressa.
— Tu provoca.
Pausa.
— Tu puxa.
Mais um passo.
— Tu prende.
Minha respiração falhou por um segundo.
— E quando vê que conseguiu…
Ele chegou ainda mais perto.
Quase encostando.
— Tu solta.
Silêncio.
E ali…
Naquele momento…
Eu senti.
A máscara rachando.
De verdade.
— Eu não sou eles… — ele continuou, baixo.
Muito perto.
Muito.
— Eu não vou sair correndo atrás.
— Então por que você tá aqui? — rebati, quase num sussurro.
Ele não hesitou.
— Porque tu veio até mim primeiro.
Aquilo…
Aquilo virou o jogo.
Porque era verdade.
E pela primeira vez…
Eu não tinha resposta pronta.
Silêncio.
Longo.
Pesado.
E cheio de coisa que eu não conseguia controlar.
—
Ele recuou um pouco.
Mas não o suficiente.
Nunca o suficiente.
— Decide o que tu quer, Ana.
A voz saiu mais calma.
Mas ainda firme.
— Porque esse jogo aí…
Ele deu um meio sorriso.
Sem humor.
— Já não é só teu.
E saiu, assim.
Sem olhar pra trás.
Eu fiquei parada.
No meio da rua.
Sentindo tudo ao mesmo tempo.
Raiva.
Orgulho ferido.
Vontade.
E uma coisa que eu nunca admito…
Nem pra mim.
Medo.
Porque agora tinha alguém que não só jogava comigo…
Mas que tava começando a ganhar.
E eu?
Eu nunca perdi, mas pela primeira vez…
Eu não tinha certeza de que ia ganhar.