Milena narrando
Eu tava na cozinha concentrada, tentando ocupar a mente com qualquer coisa que não fosse dor. Tinha recebido encomenda de copos da felicidade, e enquanto mexia o recheio na panela, já ia mentalizando o bolo da outra cliente. Pensava nas camadas, no sabor, no acabamento. Cozinha sempre foi meu refúgio. Ali eu conseguia respirar.
O cheiro doce tomava o ambiente quando ouvi a porta abrir com força.
Meu pai entrou cambaleando.
Na mesma hora, meu coração apertou. A primeira coisa que pensei foi que ele tivesse bebido. Meu corpo reagiu antes da cabeça. A colher escorregou da minha mão e caiu dentro da panela, respingando recheio. Eu nem liguei. Deixei tudo em cima da mesa e corri pra sala.
Quando cheguei perto, vi que não era bebida.
Era desespero.
Ele chorava de um jeito que eu nunca tinha visto. O rosto vermelho, os olhos inchados, o corpo todo tremendo. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me puxou pra um abraço forte, quase desesperado, como se estivesse se agarrando à última coisa que ainda existia.
Pai: Me perdoa… me perdoa, minha filha…
Meu coração disparou.
Milena: Perdão por quê, papai? O que aconteceu?
Ele apertou mais forte, o choro ficando ainda mais alto.
Pai: Eu sou fraco… sou um infeliz…
Eu não entendi nada. Meu corpo ficou rígido, a cabeça confusa, tentando encontrar sentido naquilo tudo. Ele me soltou de repente, passou a mão no rosto, respirando m*l, e sem dizer mais nada, saiu cambaleando em direção ao quarto.
Fiquei parada no meio da sala, sentindo um nó se formar no estômago.
O que tá acontecendo?
Voltei pra cozinha ainda sem entender. Lavei a colher, terminei os copos, organizei tudo com cuidado. Minhas mãos trabalhavam no automático, mas minha mente estava longe, presa naquele abraço e naquele pedido de perdão que não fazia sentido nenhum.
Quando terminei, peguei as encomendas e saí pra fazer as entregas. A rua já estava mais vazia, o céu começando a escurecer. Entreguei, recebi o dinheiro, agradeci. Fiz tudo certo, como sempre.
Na volta, o silêncio do beco me deixou alerta. Meus passos ecoavam baixo quando, de repente, um farol forte bateu direto no meu rosto. Levei a mão aos olhos na hora, tentando enxergar. A luz me cegava.
Meu coração quase saiu pela boca.
Quando consegui focar um pouco, vi que não era só uma moto. Tinha outra atrás. E mais outra. Todas paradas, formando um bloqueio silencioso.
Na mesma hora, entendi.
É o Teteu.
Ele só anda assim. Em bando. Sempre foi assim.
Engoli seco, sentindo o corpo inteiro ficar tenso. A moto da frente desligou, e antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, ouvi a voz dele. Grossa. Firme. Daquelas que fazem o ar pesar.
Teteu: O que você tá fazendo sozinha essa hora nesse beco?
Levantei o rosto, tentando manter a postura. Meu coração batia forte, mas minha voz saiu firme.
Milena: Fui fazer entrega de bolo.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. O tipo de silêncio que dá mais medo do que resposta.
Teteu: Vai pra casa.
Eu não respondi. Não olhei pra trás. Apenas segui andando, passando por eles com o coração acelerado, sentindo os olhares me acompanharem. Dei graças a Deus quando saí do alcance daqueles faróis que já estavam deixando meus olhos arderem. Só quero ir embora.
Continuei andando sem olhar pra trás. Cada passo parecia pesado, mas eu não parei. Só quando dobrei a esquina e senti a rua mais iluminada é que consegui respirar de verdade.
Alguma coisa estava errada. Muito errada.
E eu sentia que aquela noite não tinha sido um encontro por acaso.
Cheguei em casa cansada. O corpo doía, mas a cabeça não parava. Tomei um banho demorado, deixando a água cair como se pudesse lavar tudo que eu não entendia ainda. Depois fiz um arroz com frango simples, do jeito que a gente sempre comeu. Jantei sozinha. O silêncio da casa parecia maior à noite.
Fui até a porta do quarto do meu pai e bati de leve.
Milena: Pai?
Nada.
Esperei alguns segundos, bati de novo, mais baixo ainda. Nenhuma resposta. Achei melhor não insistir. Voltei pra cozinha com o coração apertado, mas tentando manter a cabeça no lugar.
Comecei a bater os bolos. Enquanto assavam, já preparei os recheios. Eu gosto de deixar tudo pronto de um dia pro outro, bem fechado na geladeira. No dia seguinte faço a cobertura com calma e entrego pro cliente. É meu jeito de trabalhar, sempre foi.
Quando terminei tudo, já passava da meia-noite. Lavei o que tinha sujado, organizei a cozinha e fui me deitar. Rezei baixinho, pedindo força, proteção e um pouco de paz. Deitei e apaguei. Literalmente.
Acordei com o barulho da rua. Vozes, passos, som distante de moto. A casa estava silenciosa demais. Me levantei, escovei os dentes, ajeitei o cabelo, troquei de roupa. Na cozinha, tudo estava exatamente do jeito que deixei na noite anterior. Nenhum sinal do meu pai.
Fui até o quarto dele. A porta estava aberta. A cama arrumada. Ele já tinha saído.
Tomara que tenha ido procurar emprego, qualquer coisa pra ocupar a mente e ajudar com as despesas.
Voltei pra cozinha e terminei o bolo. A cliente veio buscar no horário certinho, elogiou, pagou. Em seguida tinha encomenda de bolo de pote. Decidi fazer vários sabores. Alguns diferentes, outros dos que sempre vendem mais. Trabalho não me assusta.
Fiz almoço, almocei sozinha de novo. Lavei a louça, varri a casa, deixei tudo em ordem. Quando a tarde começou a cair, organizei as sacolas e comecei as entregas dos bolos de pote.
Entreguei tudo certinho. Dinheiro contado. Voltei pra casa quando já estava escuro. Fui esquentar a comida e nada. Nenhuma mensagem, nenhuma notícia do meu pai.
Me sentei à mesa da cozinha, olhando pro nada. Pensando se ia pra praça vender bolo ou não. Eu tinha feito onze bolos de manhã. Na praça, vende rapidinho. Mas alguma coisa dentro de mim não tava certa.
Milena: Será que eu vou, ou será que eu fico?
Antes que eu decidisse, ouvi um barulho no portão. Forte. Seco. Do tipo que faz o coração pular. Me assustei na hora. O som se repetiu, mais forte ainda.
Levantei devagar e fui até lá.
Quando abri, meu corpo gelou.
Era o Teteu.
Ele estava parado ali, olhar duro, postura firme. Não estava sozinho, mas os outros ficaram mais afastados. Ele deu um passo à frente.
Teteu: Teu pai tá aí?
Engoli seco, mas respondi.
Milena: Não. Ele saiu cedo. Ainda não voltou.
Ele apertou a mandíbula, respirou fundo. Olhou pra dentro da casa por cima do meu ombro.
Teteu: Ele fugiu?
Meu coração acelerou.
Milena: Não, eu não sei onde ele tá.
O olhar dele escureceu de vez.
Teteu: Aquele cuz@o.
Ele deu um meio sorriso torto, frio.
Teteu: Então vou levar é tu mesmo comigo.
Meu corpo inteiro travou.
O medo subiu de uma vez, pesado, sufocante. Eu senti que ali, naquele portão, minha vida tinha acabado de mudar.