Milena narrando
O mundo parou.
O ar sumiu.
Meu corpo inteiro começou a tremer antes mesmo da minha mente entender o que estava acontecendo.
Teteu: Vim buscar meu pagamento.
A voz dele era grossa, fria, como se estivesse falando de uma conta de luz atrasada. Não de mim.
Milena: Me solta! Eu gritei, tentando puxar o braço de volta. Eu não sou pagamento de ninguém!
Ele apertou mais forte, os dedos cravando na minha pele.
Teteu: Cala a boca.
O tom foi baixo, mas cheio de ameaça. A rua começou a se mover. Portas se abriram, cabeças surgiram nas janelas, gente se aproximando devagar, curiosa, desconfiada. Eu senti os olhares queimando minha pele, mas ninguém fazia nada. Ninguém nunca faz.
Milena: Me solta! Minha voz saiu mais fina, desesperada. Pelo amor de Deus.
Ele deu um sorriso torto, daqueles que não chegam nos olhos.
Teteu: Teu pai não te falou, não?
Meu estômago afundou.
Teteu: Faz meses que eu sustento ele. Tu acha que ele tava esbanjando o dinheiro de quem?
As palavras me atravessaram como facas.
Na mesma hora, a memória veio inteira, c***l, viva demais.
Meu pai chorando no hospital.
A cirurgia paga às pressas.
O enterro.
As flores caras.
O caixão de madeira maciça, pesado, bonito demais pra alguém que m@l tinha dinheiro pra comer.
Tudo aquilo…
Tudo aquilo foi com o dinheiro dele.
Minhas pernas fraquejaram.
Milena: Não eu sussurrei, sentindo o chão sumir sob meus pés. Não pode ser.
Teteu puxou meu braço com violência.
Teteu: Anda logo.
Milena: Não! Eu me joguei pra trás. Eu não vou com você!
O medo virou desespero puro. Eu me arrastei, me joguei no chão, segurei no portão da vizinha, senti a ferrugem cortando minha mão. Qualquer coisa pra não entrar naquele carro.
Milena: Me ajuda! Eu gritei pra rua inteira. Por favor!
Ninguém respondeu.
O silêncio foi pior que qualquer grito.
Teteu perdeu a paciência. O rosto dele endureceu, os olhos escureceram de raiva.
Teteu: Para de show.
Ele me puxou pelos cabelos dessa vez. Minha cabeça foi pra trás, o couro cabeludo queimando de dor. Um grito saiu de mim sem controle, rasgando a garganta.
Milena: Solta. Eu imploro! - Eu chorei.
Ele me arrastou até o carro como se eu não pesasse nada. Abriu a porta de trás e, num movimento bruto, me jogou no banco. Minhas costas bateram forte, o ar fugiu dos meus pulmões.
A porta bateu.
O som foi seco. Final.
Eu fiquei ali, encolhida, tremendo, sentindo o cheiro de couro velho, gasolina e perigo. Minhas lágrimas começaram a cair sem que eu conseguisse segurar. Era choro de pavor, de traição, de impotência.
O carro arrancou.
Ele dirigia como um louco. Curvas feitas sem frear, buracos ignorados, o motor rugindo alto. Meu corpo era jogado de um lado pro outro, mas eu m*l sentia. A dor maior estava dentro.
Milena: Pai. - eu sussurrei entre soluços. Como você pôde?
Cada quilômetro parecia me afastar de tudo que eu conhecia. Da minha casa. Da minha vida. De mim.
Eu me abracei, tentando desaparecer ali mesmo, desejando acordar daquele pesadelo. Mas o choro era real. O medo era real. O poder dele sobre mim era real demais.
Naquele banco de trás, eu entendi uma coisa com clareza c***l:
Eu não era mais filha.
Eu não era mais pessoa.
Eu era a dívida.
Chegamos na casa dele e o carro parou de um jeito seco, brusco, como tudo que vinha acontecendo desde que ele me arrancou da rua. Antes mesmo que ele abrisse a porta, meu corpo já estava em alerta, cada músculo rígido, esperando o pior.
A porta se abriu e eu desci rápido, antes que ele tivesse a chance de me puxar de novo, de machucar mais. Minhas pernas quase não obedeciam, tremiam tanto que parecia que iam dobrar a qualquer segundo. O chão parecia instável, como se eu estivesse pisando num lugar que não existia de verdade.
Teteu: Sobe.
Teu quarto é a segunda porta à esquerda.
Foi só isso. Frio. Seco. Como se estivesse dizendo onde ficava um banheiro, não onde eu ia passar sabe-se lá quanto tempo da minha vida.
Eu não respondi. Não tinha voz. Não tinha forças. Só obedeci.
Subi as escadas sentindo o corpo inteiro tremer. Cada degrau parecia mais pesado que o outro. Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza que dava pra ouvir do lado de fora. Minhas mãos estavam geladas, suadas, e a cabeça girava. Eu queria vomitar. Queria correr. Queria desaparecer.
Abri a porta indicada sem nem reparar direito no quarto. Não olhei móveis, não vi janela, não vi nada. Entrei e fechei a porta atrás de mim como se aquele gesto fosse o único resto de proteção que ainda existia. Caminhei até a cama e me joguei nela, sem cuidado, sem pensar. Me encolhi inteira, puxando as pernas contra o peito, abraçando a mim mesma com força.
Meu pai fugiu.
Me deixou sozinha aqui.
Pra pagar a dívida dele.
O pensamento veio pesado, esmagador.
Já não bastava ter perdido minha mãe. Já não bastava o vazio que ela deixou, a dor que nunca cicatrizou. Agora isso. Agora eu. Como moeda. Como coisa.
O choro veio forte, descontrolado. Meu corpo sacudia, o peito doía, a garganta ardia. Eu chorei de raiva, de medo, de abandono. Chorei até faltar ar. Chorei até a cabeça doer. Chorei até o corpo cansar tanto que nem força pra soluçar eu tinha mais.
Em algum momento, o cansaço venceu. O sono não veio como descanso, veio como fuga. A única possível.
Acordei no meio da madrugada com um arrepio. Demorei alguns segundos pra entender onde eu estava. O quarto estava escuro, silencioso demais. Quando me mexi, senti um peso leve sobre o corpo. Um cobertor.
O ar estava ligado. O quarto frio, o barulho constante do aparelho preenchendo o silêncio.
Ele deve ter entrado.
Ele deve ter me visto ali.
O pensamento fez meu estômago revirar, mas eu não tive reação. Não gritei. Não levantei. Não chorei de novo. Só fiquei parada, respirando baixo, tentando não pensar no que aquilo significava.
Virei pro lado devagar, abraçando o travesseiro como se fosse a única coisa firme no mundo. Fechei os olhos com força.
Dormir.
Dormir era tudo que me restava.
Porque acordada, a realidade doía demais.
Porque enquanto eu dormia, pelo menos por algumas horas, eu não era a dívida.
Eu só era alguém tentando sobreviver.