O coroa morreu

1195 Words
Teteu narrando Eu já sabia que a Milena ia me odiar. Na real, odiar é pouco, a mina deve tá me querendo morto agora. E eu até entendo. Do jeito que eu arranquei ela da casa dela, na frente de todo mundo, como se fosse cobrança de dívida mesmo, qualquer um ia sentir ódio. Mas na minha cabeça a parada já tá decidida. Ela vai me amar. Pode demorar, pode vir na base da raiva primeiro, mas uma hora vem. Eu sei como conquistar uma mulher. E não tô falando dessas p*****a de baile não, tô falando de mulher de verdade. E a Milena é diferente, isso eu saquei desde a primeira vez que vi ela vendendo doce lá na praça. Branquinha, cabelo ondulado caindo nas costas, aquele olhar doce, quieto, boca carnuda que dá até raiva de olhar muito. E o corpo, porr@, o corpo da mina é um absurdo. E o mais doido é que ela nunca deu confiança pra ninguém. Nem pros cria do morro. Nem pra mim. Isso que mexeu comigo. Todo mundo se abre quando eu chego, medo, interesse, respeito, qualquer coisa. Ela não. A mina abaixa a cabeça, passa direto e segue a vida dela. Mas agora ela tá aqui. Na minha casa. E uma hora vai entender que comigo ela vai viver melhor que qualquer lugar desse mundo. Vai ser a patroa dessa porr@ toda. Eu tava ainda lá embaixo pensando nisso quando um dos vapor chegou perto, meio sem jeito, coçando a cabeça. Vapor: Pô chefe, né assim não que trata a mina não. Eu virei o rosto devagar e encarei ele. Só o silêncio já fez o cara engolir seco. Teteu: Quem pediu tua opinião? Ele abriu a boca e fechou na mesma hora. Teteu: A mina é minha. E eu trato como eu quiser, sacou? Ele levantou as mãos num gesto de rendição. Vapor: Foi m@l, chefe, só falei porque… Teteu: Porque nada. Cortei ele na hora. O moleque saiu dali rapidinho, antes que eu perdesse a paciência de verdade. Mas enquanto ele se afastava eu fiquei pensando na parada. Porque no fundo, bem no fundo, eu sei que ele não tava totalmente errado. Não é assim que se trata uma mina, Ainda mais uma mina que eu quero pra ser minha fiel. Mas eu nunca vou dar o braço a torcer. Nunca. Aqui no morro quem manda sou eu. E chefe que começa a mostrar dúvida, fraqueza ou arrependimento perde respeito rápido. E respeito aqui vale mais que dinheiro. Fraqueza é uma coisa que eu não mostro nunca. Pra ninguém. Subi as escadas depois de um tempo, ainda com a cabeça cheia. Entrei no meu quarto, tirei a camisa e fui direto pro banheiro. A água do chuveiro caiu quente nas costas e eu fiquei ali parado um tempo, deixando o cansaço do dia escorrer junto. Quando saí do banho, passei pelo corredor e vi a porta do quarto dela fechada. Fiquei olhando alguns segundos. Mesmo assim eu fui lá. Abri devagar. O quarto tava escuro. A luz da rua entrava fraca pela janela e eu vi ela encolhida na cama, toda pequena, abraçando as pernas como se tivesse tentando se proteger de alguma coisa. Ou de alguém. Suspirei baixo. Fui até a janela e fechei. Depois liguei o ar-condicionado porque o calor tava absurdo. Peguei o cobertor no pé da cama e cobri ela devagar. Ela nem se mexeu. Devia tá morta de cansada de tanto chorar. Fiquei olhando ela mais uns segundos. Aquela mesma garota que vendia doce na praça agora tava dormindo dentro da minha casa. Minha mulher. Minha. Apaguei a luz, saí do quarto e puxei a porta devagar, tirando a chave logo depois. Desci. Na cozinha peguei um prato, comi qualquer coisa que tinha ali e depois fui pra varanda. Sentei na cadeira de sempre, acendi um beck e puxei fundo. A fumaça subiu devagar, misturando com o vento da madrugada. Fiquei ali, olhando o morro silencioso, curtindo a marola bater. E pensando que a vida da Milena a partir de hoje tava completamente ligada na minha. Eu tava sentado na varanda ainda, curtindo a marola do beck e olhando o morro quieto lá embaixo, quando o rádio preso no meu cinto começou a chiar. Aquele barulho já me fez fechar a cara. Quando rádio chama de madrugada quase nunca é coisa boa. Peguei ele na mão e apertei o botão. Teteu: Fala. Do outro lado veio a voz apressada de um dos cria. Vapor: Chefe, deu uma pendência aqui perto da subida da quadra, dois maluco tão discutindo por causa de dinheiro e já tá virando bagunça. Passei a mão no rosto, soltando a fumaça devagar. Nem uma noite de paz nesse morro. Teteu: Tô descendo. Segura eles aí. Levantei da cadeira, apaguei o resto do beck no cinzeiro e entrei pra dentro de casa. Antes de sair, chamei dois dos vapor que tavam na sala jogando conversa fora. Teteu: Vocês dois. Eles levantaram na hora. Teteu: Fica de olho na casa. Um deles franziu a testa. Vapor: De olho em quê, chefe? Olhei sério pra ele. Teteu: Na Milena. Os dois trocaram um olhar rápido. Teteu: Ela pode sair do quarto, andar pela casa, pelo quintal, não vou deixar a mina presa que nem bicho. Fiz uma pausa antes de continuar. Teteu: Mas do portão pra fora ela não sai sozinha. Se tentar, vocês seguram. Vapor: Pode deixar, chefe. Assenti e saí. A madrugada tava fresca, o morro meio silencioso, só alguns barulho de moto ao longe e música baixa vindo de alguma casa. Desci até onde os caras tavam discutindo. Era só treta de dinheiro mesmo. Dois cara quase saindo na porrada por causa de dívida de jogo. Resolvi rápido, dei uns esporro nos dois, deixei claro que ali ninguém ia fazer palhaçada no meu território. Quando voltei pra casa já era altas horas da madrugada. O cansaço bateu pesado. Entrei devagar pra não fazer barulho. A casa tava silenciosa. Os vapor que eu tinha deixado lá ainda tavam acordados. Vapor: Tudo certo, chefe. Teteu: Ela tentou sair? Vapor: Não. Nem vimos ela. Assenti. Subi as escadas e fui direto pro meu quarto. Nem tirei a roupa direito. Me joguei na cama e fechei os olhos. Apaguei rápido. Não sei quanto tempo passou. Acordei com o rádio chiando de novo. Aquele barulho irritante cortando o silêncio do quarto. Peguei o aparelho meio sonolento. Teteu: Fala. Do outro lado a voz veio mais baixa dessa vez. Vapor: Chefe… Só pelo tom eu já senti que vinha merda@ Teteu: Fala logo. Um pequeno silêncio veio antes da resposta. Vapor: Seu Alberto o pai da Milena. Meu corpo ficou mais atento na mesma hora. Teteu: O que tem ele? Mais um segundo de silêncio. Vapor: Ele se matou, chefe. Fiquei parado, olhando pro teto escuro do quarto. Por alguns segundos o mundo pareceu travar. Passei a mão no rosto devagar. Porr@… Desliguei o rádio sem falar mais nada. Agora o problema não era o coroa morto. O problema era outro. Soltei um suspiro pesado e encarei a porta do quarto. Teteu: Como diabos eu vou dizer isso pra Milena?
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