Milena

1383 Words
Milena narrando Meu nome é Milena, tenho 19 anos, sou branca, tenho os cabelos castanhos ondulados que caem até o meio das costas, olhos castanhos que sempre disseram enxergar além do que está na frente e lábios carnudos que muita gente já comentou, às vezes com admiração, às vezes com malícia. Nasci e cresci no Morro da Providência, e apesar de muita gente achar que isso define quem eu sou, eu sempre soube que não definia quem eu queria ser. Minha mãe, Maria Paula, sempre foi meu ponto fraco. Desde que me entendo por gente, ela vive doente. Idas e vindas de hospital, remédios que nunca acabam, noites m*l dormidas e aquele medo constante de perder quem mais ama a gente no mundo. Meu pai sempre foi um homem trabalhador, honesto, daqueles que acordam cedo e dormem cansados, mas nunca reclamam. Foi com eles que eu aprendi o valor do respeito e da dignidade. Eu comecei a trabalhar cedo. Muito cedo. Enquanto outras meninas da minha idade estavam preocupadas com roupa de festa ou com quem iam beijar no fim de semana, eu cuidava de criança pra ganhar um trocado, fazia lanche pra vender na porta da escola, bolo, doce, o que desse pra render algum dinheiro. À noite, eu ia pra praça vender doce, enfrentando o cansaço e o medo, mas sempre com a cabeça erguida. Nunca me faltou educação. Nunca me faltou postura. E isso não era porque eu me achava melhor do que ninguém, mas porque eu sabia exatamente quem eu era e quem eu não queria me tornar. Os meninos davam em cima de mim. Muitos. Alguns com respeito, outros nem tanto. Meninos do morro, do bonde, da boca. Eu sempre recusei. Sempre. Não era arrogância, era escolha. Milena: Eu nunca tive vontade de me envolver com coisa errada. Nunca me encantei com dinheiro fácil, com arma na cintura ou com fama de bandid0. Eu sempre soube que aquilo não era pra mim. Minhas amigas riam de mim, diziam que eu era boba, certinha demais, que eu precisava viver, aproveitar, ir pras festinhas. Amiga: Milena, tu é linda, os caras tudo querem tu. Vai viver, menina. Milena: Viver não é se perder. Eu sei o que eu quero. E eu sabia mesmo. Eu queria estudar. Trabalhar. Crescer. Sair do morro. Dar uma vida melhor pros meus pais, principalmente pra minha mãe. Eu não via meu futuro ali. Eu respeitava o lugar onde nasci, mas eu não queria morrer ali. A doença da minha mãe piorou de repente. Foi rápido demais. Um dia ela estava fraca, no outro não conseguia mais levantar da cama. As dores aumentaram, os exames vieram, e junto com eles, o medo. O médico foi direto. Cru.el até. Médico: Ou ela opera com urgência, ou não vai resistir. Eu senti o chão sumir. Meu coração disparou, minhas mãos começaram a tremer. Operação. Urgência. Dinheiro. Tudo virou um nó na minha cabeça. Quando veio o valor, parecia mentira. Quatorze mil reais. Eu nunca tinha visto aquele dinheiro junto na vida. Meu pai assinou os papéis com a mão firme, mas eu vi o olhar dele vacilar. Eu vi. Conheço meu pai melhor do que ninguém. Milena: Pai, como a gente vai arrumar esse dinheiro? Ele respirou fundo antes de responder. Pai: Isso não é coisa pra você se preocupar, minha filha. Eu vou dar um jeito. Eu fiquei em choque. Eu queria acreditar, mas alguma coisa dentro de mim gritava que aquilo não estava certo. Meu pai sempre foi honesto. Sempre. E ali, pela primeira vez, eu senti medo não só de perder minha mãe, mas de perder meu pai pra alguma coisa que eu não conseguia enxergar direito. Minha mãe foi internada. Tubos, aparelhos, aquele cheiro de hospital que parece sugar a esperança da gente. Eu segurava a mão dela e tentava ser forte, mas por dentro eu estava despedaçada. Maria Paula: Minha filha,você é tão forte. Milena: Sou porque a senhora me ensinou a ser. Ela sorriu fraco, e eu prometi ali, em silêncio, que faria qualquer coisa pra não perder ela. Qualquer coisa. Os dias passaram e, de repente, meu pai apareceu com a notícia. Pai: Consegui o dinheiro. Eu congelei. Milena: Como? Ele desviou o olhar. Um segundo apenas, mas foi o suficiente. Pai: Não importa, Milena. O importante é que sua mãe vai operar. Meu coração apertou. Eu senti. Senti que tinha algo errado. A cirurgia foi marcada. Minha mãe entrou no centro cirúrgico, e eu fiquei do lado de fora rezando como nunca rezei na vida. Quando o médico saiu e disse que tinha dado tudo certo, eu chorei. Chorei de alívio, de gratidão, de exaustão. De madrugada, quando o silêncio do morro é tão pesado que chega a doer, o telefone tocou. Eu estava deitada, mas não dormia. Desde a cirurgia, o sono não vinha fácil. Qualquer barulho me fazia pular da cama. Quando o toque do telefone ecoou pela casa, meu coração disparou de um jeito estranho, como se ele já soubesse antes da minha cabeça. Eu sentei na cama no mesmo instante. Meu pai atendeu rápido demais. A voz dele saiu baixa, tensa. Eu não conseguia ouvir o que diziam do outro lado, mas cada segundo daquela ligação parecia arrancar um pedaço de mim. Pai: Como assim? Silêncio. Pai: Mas, ela estava respondendo à medicação. Outro silêncio. Mais longo. Mais cru.el. Eu levantei devagar, as pernas bambas, e caminhei até a porta do quarto. Fiquei parada ali, observando meu pai com o telefone colado no ouvido e os olhos marejados. Ele levou a mão livre ao rosto, como se estivesse tentando segurar alguma coisa que estava escapando. Pai: Entendi. Quando ele desligou, o mundo parou. Eu não perguntei nada. Eu não precisei. O olhar dele me respondeu tudo antes que qualquer palavra fosse dita. Pai: Milena… A voz dele quebrou no meu nome. Eu senti o chão sumir. Meu corpo inteiro começou a tremer, como se eu estivesse passando frio por dentro. Milena: Não… não fala… não fala nada. Ele respirou fundo, mas não conseguiu segurar. Pai: Sua mãe, não resistiu. A frase entrou em mim como uma lâmina. Eu gritei. Um grito que eu nunca tinha dado na vida. Um som alto, desesperado, vindo do fundo da minha alma. Minhas pernas cederam e eu caí no chão, sentindo uma dor no peito tão forte que achei que meu coração fosse parar também. Milena: Não! Não, meu Deus! Não! Eu bati as mãos no chão, sem sentir dor nenhuma, só aquele vazio absurdo crescendo dentro de mim. Milena: Ela tava bem… ela tava melhorando… ela prometeu que ia voltar pra casa… Meu pai se ajoelhou ao meu lado e tentou me abraçar, mas eu me debati, sem força, sem controle. Milena: Não leva ela de mim, por favor… eu faço qualquer coisa… As lágrimas desciam sem parar, meu rosto ardia, minha garganta queimava. Eu puxava o ar, mas parecia que ele não chegava no pulmão. Meu pai me segurou com força, chorando junto comigo. Pai: Filha… eu tentei… eu juro que tentei… Aquela frase me destruiu. Eu chorei como uma criança perdida, como alguém que teve o mundo arrancado das mãos. Chorei até doer o corpo, até faltar voz, até não sobrar nada além de um cansaço profundo e uma dor que não tinha nome. A imagem da minha mãe sorrindo, fraca, na cama do hospital, não saía da minha cabeça. Maria Paula: Vai dar tudo certo, minha filha. Não deu. Eu me levantei de repente, como se lembrasse de algo importante demais pra ignorar. Milena: Eu preciso ver ela. Pai: Agora não, Milena, ainda não. Milena: Eu preciso! Minha voz saiu rouca, quase irreconhecível. Eu andava pela casa sem rumo, puxando o cabelo, apertando os braços, tentando acordar daquele pesadelo. Tudo parecia errado. A casa parecia vazia demais. Silenciosa demais. Eu sentei no sofá e abracei o travesseiro que ela costumava usar. O cheiro dela ainda estava ali, fraco, mas presente. Aquilo me fez chorar de novo, mais forte ainda. Milena: Mãe… eu não consegui… eu prometi que ia te dar uma vida melhor… O sol começou a nascer e eu não percebi. O tempo perdeu o sentido. Só existia a dor. Só existia a ausência. Naquele momento, junto com minha mãe, morreu uma parte de mim.
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