Teteu

1266 Words
Teteu Narrando Meu nome é Matheus Nobre, mas aqui ninguém me chama assim. Aqui no Morro da Providência eu sou o Teteu. Tenho 30 anos, sou moreno, olhos castanhos, o corpo fechado de tatuagem e a mente mais fechada ainda. Sou o dono do morro. O cara que manda, decide, protege e cobra. E antes que alguém pense besteira, deixa eu deixar claro: nada aqui caiu no meu colo de graça. Eu herdei o morro do meu padrasto. E quando eu digo herdei, não é papel passado nem conversa bonita, não. Foi no sangue, no respeito e na bala. Eu nunca conheci meu pai de sangue. Nunca. Minha mãe, Débora, nunca falou dele. Nunca contou história, nunca explicou ausência, nunca abriu esse assunto. Cresci sem nome, sem rosto, sem passado. Mas também nunca senti falta, porque quem me criou foi outro homem. Meu padrasto foi meu pai em tudo que importa. Ele nunca jogou na minha cara que eu não era filho dele. Nunca fez diferença. Nunca disse que eu não era família. Me ensinou a ser homem, a ter palavra, a sustentar o que fala. Foi ele que me mostrou como o jogo funciona de verdade, sem fantasia, sem mentira. Minha mãe sempre foi presente. Sempre. Mulher de casa, firme, cuidadosa, respeitada por todo mundo no morro. Minha mãe é daquelas que todo mundo gosta, que todo mundo protege. E eu faço qualquer coisa por ela. Qualquer coisa mesmo. Tenho uma irmã, Ana Vitória. Minha cria. Minha vidinha. Tudo que eu faço também é por ela. Faço questão que estude, que tenha futuro, que sonhe alto. Ela não tem culpa do mundo que eu vivo. Ana Vitória: Você não precisa ser tão duro assim, Matheus. Teteu: Preciso sim. Porque o mundo não é doce igual você acha. Eu aprendi cedo que o mundo engole quem vacila. Quando meu padrasto saiu pra uma missão e não voltou, foi ali que algo em mim morreu junto com ele. Não teve aviso, não teve despedida. Só a notícia… e depois o corpo. Eu lembro do caixão fechado. Da minha mãe em choque. Da Ana Vitória agarrada nela sem entender nada. E eu parado, sentindo um ódio subir que nunca mais desceu. Naquele dia eu prometi que ninguém nunca mais pisaria na minha família. Nem na minha moral. Depois disso, eu mudei. Quem me conhecia antes, não reconheceu depois. Eu fiquei impiedoso. Sem limite. Sem paciência pra erro. Aqui não tem segunda chance. Vacilou, paga. Assumi o morro porque alguém tinha que assumir. Se eu não pegasse, virava bagunça, guerra interna, polícia subindo, morador sofrendo. Eu trouxe ordem. Do meu jeito, mas trouxe. Aqui todo mundo sabe como funciona comigo. Eu não faço bondade pra ninguém sem esperar nada em troca. Nada. Pra mim tudo é via de mão dupla. Eu ajudo, resolvo, protejo, banco problema que não é meu. Mas ninguém pode dizer que não sabia do preço. A cobrança sempre chega. Teteu: Quem pega comigo, pega consciente. Depois não vem chorar. Tem gente que me chama de frio. Tem gente que me chama de cru.el. Eu não ligo. Aqui eu sou respeitado. Temido. E isso mantém o morro de pé. Minha mãe ainda tenta me puxar pra luz. Débora: Meu filho, não deixa esse ódio te consumir. Matheus: Já consumiu faz tempo, mãe. Agora ele só me mantém vivo. Ela suspira, balança a cabeça, mas nunca vira as costas pra mim. Nunca. E isso é uma das poucas coisas que ainda me seguram. Depois da morte do meu padrasto, confiança virou artigo raro. Bondade virou negócio. Sentimento virou fraqueza. Se eu não for duro, o mundo me quebra. E foi assim que eu virei o Teteu que todo mundo conhece hoje. Dono do morro. O cara que resolve. O cara que cobra. Aqui ninguém passa fome, mas ninguém passa por cima de mim. Aqui tem regra. Tem lei. E quem quebra, paga. Eu sei tudo que acontece na Providência. Quem deve, quem mente, quem se esconde. Informação é poder. E poder mantém tudo funcionando. Às vezes eu paro na laje, olho o morro inteiro e penso em como cheguei até aqui. Não foi sonho. Não foi escolha. Foi necessidade. Ou eu mandava, ou eu era mandado. E eu nunca fui feito pra obedecer. Eu não acredito em conto de fadas. Não acredito em amor que salva. O que eu acredito é em troca justa. Você precisa de mim? Beleza. Mas depois eu vou precisar de você. E quando eu precisar, não importa quem você seja. A cobrança vai bater na sua porta. Pode ser hoje. Pode ser amanhã. Pode ser quando você achar que já esqueceu. Mas ela vem. Aqui, tudo tem preço. Até o silêncio. Até a proteção. Até a vida. Eu sou Matheus Nobre. Sou o Teteu. E quem entra no meu jogo, aprende do jeito mais difícil. Aqui no morro tem uma garota que chama atenção sem fazer esforço nenhum. Todo mundo comenta. Todo mundo olha. Mas eu observo em silêncio. Ela vende doce na praça à noite, sempre com aquela caixa organizada, postura reta, cabeça erguida. Porr@, branquinha, olhar doce, boca carnuda, corpão no ponto certo. A mina é linda de um jeito que não é vulgar, não é forçado. É natural. Milena. Eu tô de olho nela já tem uma cota. Não é de agora. Desde a primeira vez que vi, senti que ela não era igual às outras. E não é mesmo. Ela não dá confiança pra ninguém. Nem pros caras do morro, nem pros mais cheios de marra, nem pra mim. E isso, ao invés de me afastar, só fez eu querer mais. Os caras falam dela direto. Chaguinha: Aquela menina da praça é linda demais, chefe. Teteu: Fica na tua. Eu fico na minha. Sempre. Porque quando eu quero algo, eu não entro em disputa. Eu espero. Quero ser o primeiro. O único. Não gosto de dividir nada que eu escolho. Milena anda pelo morro como quem não deve nada a ninguém. E não deve mesmo. Sempre educada, respeitosa, trabalha quieta, não se mistura. Não vai em festa, não ri alto, não provoca. E isso, pra mim, é perigo. Mulher assim não se dobra fácil. O pai dela veio até mim um dia. Chegou sem olhar direto nos meus olhos, voz baixa, mão tremendo. Homem quebrado. Pai da Milena: Chefe, eu tô precisando de ajuda. Eu já sabia. Aqui nada acontece sem eu saber. A mãe da Milena tava doente, internada, cirurgia cara. Ele precisava de 14 mil. Teteu: Eu resolvo. Sem drama. Sem pergunta. Dei o dinheiro. Anotei. Sempre anoto. Porque comigo não existe ajuda esquecida. Depois ele voltou. Precisava de mais 4 mil. Dei de novo. E anotei de novo. Teteu: Dívida comigo não some. Ela só cresce. Eu ajudo, sim. Sempre ajudo. Mas ajuda minha é investimento. E investimento tem retorno. Quando a mãe da Milena morreu, o morro sentiu. Mulher querida. A dor bateu forte naquela casa. Eu observei de longe. Não fui lá. Ainda não. Hora errada. Dor não se mistura com cobrança. Não ainda. Mas eu decidi uma coisa: até a hora certa, eu vou ser o suporte daquela família. Conta, comida, proteção. Ninguém encosta. Ninguém mexe. Ninguém falta com respeito. Quem ousar, se resolve comigo. Eu cuido agora, pra cobrar depois. Milena ainda não sabe. O pai dela sabe, mas finge que não. A dívida tá anotada, certinha. E quando eu for cobrar, vai ser do meu jeito. Sem grito. Sem confusão. Direto. Porque tudo na vida é via de mão dupla. E eu tô de olho e não é no dinheiro.
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