Milena narrando
Eu não tive forças pra me levantar. Não tive vontade. Não tive nada. Meu corpo continuava ali, mas parecia que minha alma tinha ido embora junto com a minha mãe. A casa amanheceu diferente, silenciosa de um jeito que doía. Não era um silêncio comum, era pesado, carregado de tristeza, daqueles que tomam conta de tudo e apertam o peito.
Eu fiquei deitada, olhando pro nada, sentindo o cheiro da casa misturado com a ausência dela. Cada canto parecia gritar que minha mãe não estava mais ali. O quarto, a sala, a cozinha, tudo vazio, mesmo cheio de coisas. O tempo passou e eu não percebi. Não sabia mais se era manhã, tarde ou noite. Só sabia que doía.
A porta do meu quarto abriu devagar. Era a Ana, minha vizinha. A gente tem a mesma idade e sempre conversa quando sobra tempo, quando a correria da vida deixa. Ela entrou em silêncio e acendeu a luz. Aquela claridade me incomodou tanto que eu puxei o lençol e cobri o rosto, como se pudesse me esconder do mundo.
Ana sentou na beira da cama e passou a mão devagar na minha cabeça, com cuidado, como se eu fosse de vidro.
Ana: Eu sinto muito, Milena, de verdade. Mas você precisa reagir.
Aquilo me atingiu errado. Eu não queria ser grossa, eu juro que não queria. A dor saiu pela boca antes que eu pudesse segurar.
Milena: É fácil falar isso quando a sua mãe tá viva e saudável.
Assim que as palavras saíram, eu me arrependi. Na hora.
Milena: Desculpa, eu não quis…
Mas já era. A culpa veio junto com o choro. Um choro desesperado, doído, sem controle. Meu peito ardia, minha garganta fechava, e eu não conseguia parar.
Ana não se afastou. Mesmo eu toda enrolada no lençol, ela me abraçou forte, daquele jeito que não pede permissão, só acolhe. Eu chorei no ombro dela como se estivesse desmoronando por inteiro.
Enquanto isso, ouvi a voz do meu pai do lado de fora do quarto. Cansada, quebrada.
Pai: Ela não come há três dias, não saiu do quarto, já fazem três dias.
Aquilo doeu mais ainda. Três dias. Três dias sem sentir fome, sem sentir vontade, sem sentir nada além da dor. Três dias desde que perdi o sentido da vida e mergulhei nesse vazio que parecia não ter fim.
Ana continuou ali comigo. Conversou baixo, falou de coisas simples, me puxou de volta pra realidade aos poucos. Ela levantou, puxou o lençol com cuidado e me encarou.
Ana: Você precisa tomar um banho. Só um. Depois a gente vê o resto.
Eu não respondi, mas deixei. Ela me levou até o banheiro, separou uma roupa limpa e ficou do lado de fora esperando. A água caiu sobre mim e, pela primeira vez em dias, eu senti alguma coisa além da dor. Chorei debaixo do chuveiro, em silêncio, deixando a água levar um pouco do peso.
Quando saí, ela me levou até a cozinha. Tinha feito um mingau. Simples, quente, com cheiro de cuidado.
Ana: Come só um pouco, por mim.
Eu comi devagar, poucas colheradas, mas comi. Meu estômago reclamou, meu corpo estranhou, mas eu engoli. Era como reaprender a existir.
Quando terminei, me levantei com a intenção de voltar pra cama. Tudo que eu queria era deitar de novo e desaparecer. Mas ela segurou minha mão antes que eu desse dois passos.
Ana: Vamos lá pra casa. Aqui você só fica lembrando, e isso só piora.
Eu hesitei, mas aceitei. A casa dela era logo ali. Ela ligou a televisão, colocou qualquer coisa passando, sentamos no sofá. A voz da TV preenchia o silêncio que me machucava tanto.
Eu fiquei assistindo sem prestar atenção de verdade. O cansaço bateu forte. O corpo finalmente cedeu.
E ali, no sofá da casa da minha amiga, longe do quarto onde tudo doía mais, eu acabei dormindo.
Acordei perdida no tempo, sem saber direito onde eu estava. Demorei alguns segundos pra entender que não era meu quarto, que não era minha cama. A televisão estava ligada baixo, e o cheiro de comida vinha da cozinha. Quando virei o rosto, vi a Ana sentada no sofá, me olhando com cuidado.
Ana: Já é quase três da tarde, Milena.
Meu coração apertou. Mais um pedaço do dia tinha passado sem que eu percebesse. Ela colocou um prato com um pouco de comida na minha frente e um copo de suco.
Ana: Come só um pouco, vai.
Eu balancei a cabeça em negativa.
Milena: Eu não tô com fome.
Ela não desistiu. Falou, insistiu, pediu. Falou do meu pai, falou da minha mãe, falou de mim. No fim, comi. Não porque queria, mas porque ela não me deixou escolha. Cada garfada parecia pesada, mas eu engoli.
Depois disso, agradeci e voltei pra casa. Entrei no meu quarto e fechei a porta. O silêncio voltou a me envolver, mas dessa vez não era tão sufocante quanto antes. Ainda doía, mas eu já conseguia respirar.
Não fiquei muito tempo deitada. Meu pai bateu na porta mais tarde, a voz baixa, respeitosa, como se tivesse medo de me quebrar.
Pai: Filha, tem gente querendo encomendar bolo.
Eu fechei os olhos por um segundo. Eu faço bolo de festa por encomenda, cobro no quilo. Sempre foi uma renda importante pra casa. Mesmo sem vontade nenhuma, eu sabia que precisava levantar.
Milena: Já vou.
Me levantei devagar e fui até a sala. Peguei o caderno, ouvi o que a cliente queria, anotei tudo. Sabor, tamanho, data. Fiz no automático, como se outra pessoa estivesse ali no meu lugar.
Quando escureceu, meu pai fez sopa. Sentamos à mesa em silêncio, mas não era um silêncio pesado. Era um silêncio cansado. Comemos devagar. Depois disso, voltei pro quarto e me deitei. O corpo pedia descanso, mas a mente insistia em lembrar.
Dormi.
Acordei às oito da manhã. Pela primeira vez em dias, consegui seguir uma rotina. Tomei café, me arrumei, respirei fundo. Precisava ir ao mercado comprar os ingredientes pro bolo. Peguei as sacolas e saí.
O morro estava acordado. Gente indo e vindo, criança brincando, música baixa em alguma casa. A vida continuava, mesmo que a minha tivesse parado por um tempo.
No caminho, eu vi.
Teteu. O dono do morro.
Ele estava com o bonde dele, parado mais à frente. Postura firme, olhar atento, presença que todo mundo sente mesmo sem querer. Eu reconheci na hora. Todo mundo conhece ele.
Meu coração acelerou, mas eu fiz de conta que não vi nada. Baixei a cabeça, apertei as alças das sacolas nas mãos e segui em frente. Não olhei. Não encarei. Só passei.
E o mais estranho de tudo, ninguém falou nada.
Nenhuma gracinha. Nenhum comentário. Nenhum assobio. Nada.
Aquilo nunca tinha acontecido antes.
Passei por eles com o coração batendo forte no peito, esperando alguma coisa que não veio. Só senti o olhar pesado nas minhas costas, como se estivesse sendo observada, medida.
Continuei andando até virar a esquina. Só então respirei aliviada.
Talvez seja só respeito, ou talvez seja outra coisa.
Cheguei ao mercado, comprei tudo o que precisava e voltei pra casa. Entrei na cozinha, larguei as sacolas na mesa e me sentei na cama por um instante.
Eu ainda estava de luto. Ainda estava quebrada. Mas, aos poucos, a vida começava a me puxar de volta. Mesmo que eu não estivesse pronta.
E, pela primeira vez desde que perdi minha mãe, eu senti que podia seguir, lado a lado com a dor.