Capítulo 7
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Violeta Harvey
Aquele cara que estava deitado aconchegadamente no sofá, alternando sua visão entre um celular e uma bebida, incendiou o meu lar e todas as pessoas que habitavam nele. E depois, essa é a parte mais sinistra e sem fundamento, ele me tirou do lugar em chamas. Como assim? Qual eram suas intenções? m***r-me aos pouquinhos? E porquê caramba?
De uma coisa eu tinha a absoluta certeza: Antes dele me m***r, eu já vou ter enlouquecido.
Distraída e vaga, queimei meu dedo indicador na panela fervente. Gemi baixinho, mas foi o suficiente para seus olhos me encararem violentamente.
Virei de costas. Seu olhar era assustador, e quase todas as vezes meu pânico crescia só de olhá-lo.
Tocar na faca de cortar carne me fez, por uma fração de segundo, pensar em suicídio. Um movimento brusco com o braço indo em direção ao meu peito esquerdo e toda minha vida acabaria. Esse simples ato e todo meu sofrimento, toda sensação r**m evaporaria. Mas eu ainda conseguia me imaginar livre, correndo, dançando. A brisa do vento beijando minha pele. O cheirinho de chuva adentrando em minhas narinas.
Estava mais do que óbvio que eu não conseguiria sair desse lugar tão cedo. O local onde sua casa situava-se também tentava acabar com minhas esperanças. E se eu me perdesse? E se encontrasse algum bicho? Joguei todos os medos para fora de mim e ergui a cabeça.
Eu não desistiria tão facilmente.
Após preparar sua refeição, eu não sabia exatamente o que ele queria, então preparei de tudo um pouco que estava em seu armário.
Peguei um prato e me servi, ele que se dane se pensa que vou ficar com fome. Comecei a comer, e quando ele limpou a garganta o vi parado na minha frente. Dei um pulo para trás de susto. Como ele conseguiu chegar tão perto sem que eu percebesse?
- Creio que já tenha preparado
- Sim
- Pode colocar o meu
- Sim
- Dá pra parar de dizer "sim"?!
- Sim.-o que eu tinha na cabeça? Desafiá-lo desse jeito? Minhas pernas ficaram bambas com o modo que ele franziu a testa, respirando fundo.
Ele começou a comer em silêncio. Então voltei para meu prato, apoiada na parede, longe dele o máximo possível.
- Sente-se aqui!-apontou para o assento vazio oposto ao seu.
Olha a situação, só eu e ele comendo. Um cara frio que acabou de m***r cinco garotas, comendo normalmente. Comendo comigo! Não vou surtar de novo. Não vou surtar de novo.
- Não está ruim.-argumentou.
Está péssimo, ah não.
- Como sabe meu nome?-em certo momento de coragem, ousei perguntar. Não estava suportando tantas perguntas sem respostas.
- Analise o seu passado com mais cuidado, acho que deve se lembrar de alguma coisa.-seus olhos cerraram-se e os punhos comprimiram-se.
Pensei, pensei e pensei. Vasculhei cada momento, das ruins até as mais boas. d***a de cérebro!
- Não lembro.-nenhuma lembrança de sua fisionomia. Nada.
- Não sei se você vai acreditar, mas já morei sob o mesmo teto que o seu.-ele parou, largando seu garfo. Talvez minha cara de espanto estivesse muito presente. Segundos passaram-se, e o mesmo continuou.
- Já comi daquelas comidas velhas e vencidas que serviam e já fui para o quartinho do castigo, aquele que você estava e que incendiei junto com o resto do orfanato.-meu rosto não demonstrava reação alguma. Por fora parecia bem, nem tanto, mas estava. Mas por dentro, meu espírito estava dançando em um tiroteio de policiais com bandidos. E lá estava eu bem no centro, usando uma fantasia ridícula de palhaço.
- Acho que eu tinha uns quatorze anos naquela época. E você oito. Quando cheguei para morar lá, minha alegria de criança tinha acabado. Minha infância havia sido destruída, estava completamente arruinado. Não é drama, aconteceram...coisas terríveis.-parou atônito, como se estivesse vivendo aquilo de novo. - Bem, não importa mais. Me lembro bem que um dia, eu estava tentando me enturmar com vocês. Era você, Violeta e mais dois garotos. Só que até hoje não consigo entender porquê fizeram aquilo comigo, sabe? Eu nunca tinha feito nada a vocês. Só queria uma companhia para brincar, desabafar sobre meus problemas, aprontar como toda criança faz.-quando terminou de contar bateu com força as mãos na mesa e falou alguns palavrões.. Quer dizer, muitos palavrões.
Então, me lembrei perfeitamente de tudo. Absolutamente tudo. Quando ele chegara no orfanato, sua pele estava marcada de traços vermelhos e roxos. Seu rosto cheio de espinhas. O que mais destacava eram seus olhos fundos e arroxeados aos arredores. E até dói em dizer, mas ninguém gostava dele. Eu mesma não queria sua companhia porque diziam que ele era...estranho.
Sem querer, parei no tempo voltando ao passado por alguns segundos.
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Flashback on
- Oi, você quer brincar comigo?-meus braços estavam cruzados na parede e meus olhos estavam fechados. Era aquela brincadeira em que uma pessoa "contava" e as outras escondiam-se. Quando o garoto novato disse isso, parei e o encarei.
- Já estou brincando.-ele baixou a cabeça, tristonho.
- Desculpe.-então eu voltei a contar mas ele interrompeu minha contagem, de novo.
- Eu posso brincar também?-fiquei pensando se deixava ou não, procurando uma boa desculpa, não queria magoá-lo. Quando Ethan e Nathan apareceram.
- Porquê você ainda não nos procurou?-Ethan perguntou com as sobrancelhas franzidas.
- Por nada.-cruzei os braços.
- E porquê tá falando com ele? Vamos sair daqui.-segurou minha mão.
- Ele quer brincar com a gente.-resisti a sua tentativa de me levar e apontei para o garoto de olhos esperançosos.
- Mas não vai. Vem!-Nathan disse e rodeou seu braço por meu pescoço. Já Ethan segurou minha mão. Saímos dali, ousei olhar para trás mas ele já se afastava na direção contrária.
Na noite do mesmo dia.
- Precisamos mostrar quem manda aqui. Temos que dar uma lição naquele novato.
- O quê?-era bem tarde da noite. Eu acabara de sair do banheiro e ia de volta ao quarto quando vi Ethan e Nathan conversando em um corredor mais afastado dos quartos.
- d***a, Violeta! Tá fazendo o quê aqui?-os dois tomaram um susto e eu não consegui evitar não rir da cara de idiotas que eles fizeram.
- Eu estava no banheiro e quando eu estava voltando ao quarto escutei a conversa de vocês dois. Aliás, não era pra vocês estarem dormindo? Se alguém pegar vocês...
- A gente sabe o que acontece. Agora volta pro quarto, está nos atrapalhando!-ralhou Nathan.
- Acho que não escutei direito. Tá mesmo mandando eu ir pro quarto?-fiz careta.
- Exatamente.-falou calmamente.
- Ah, pois eu não vou. Quero saber o que vão fazer com esse novato. E saibam também que não podem fazer isso com ele. Tá rolando uns boatos de que..
- Não interessa, garota! Vai logo, volta!-Ethan quase acordou o restante do orfanato. Olhou-me com um olhar de raiva e saiu junto com Nathan. Fiquei ali sem saber se ia atrás ou deixava pra lá. Os dois eram meus melhores amigos. Quando estavam por perto, sempre me defendiam da Molly e de suas amigas.
- Babacas.- cantarolei.
Flashback off
A realidade veio e com ela mais dores.
- Não acredito que aquele garoto era você! Eu não participei daquilo. À noite escutei o Ethan e o Nathan falando que iam dar uma lição no "novato", eu fui contra, disse para não fazerem aquilo, mas eles não me ouviram. Até pensei em denunciá-los mas eles sempre estavam brigando e...-meu fôlego estava pesado. O homem a minha frente xingou alto e se levantou.
- Deixa eu explicar..Foi tudo um m*l entendido. Me deixa concertar as coisas, por favor..-solucei me calando quando percebi que quanto mais eu falava, mas sua cara torcia.
- Você sabia o que eles pretendiam fazer. E não fez nada. Sabia como eu estava todo machucado. E não fez nada.-gritou, me fazendo estremecer e cair na realidade.
Eu não fiz nada para impedi-los. Se eu fizesse, nós três iríamos para o quartinho do castigo.
- Você não faz ideia do quanto eu gostaria de voltar ao passado e mudar esse dia.-linpei as lágrimas que escorriam. - Não importa o que eu diga ou faça, não vai fazer diferença não é?
- Não.-sorriu satisfeito. - Já está tudo acabado. Ou melhor, está acabando.-sentou-se novamente para terminar seu prato. Fiquei atordoada, pensando amargamente sobre sua última declaração.
- Pode voltar a comer, se quiser.
- Não.-quase não reconheci o meu tom de voz firme e ameaçador que saiu de minha boca.
Se eu soubesse, ah se eu soubesse que toda aquela treta infantil iria resultar em mortes, futuramente a minha, eu o teria abraçado quando me chamara para brincar. Teria virado sua amiga e, principalmente, teria obrigado Ethan e Nathan a pedirem desculpa.
- Quando fugi daquele inferno-me sobressaltei quando escutei sua voz. - prometi a mim mesmo me vingar de todos que me trataram m*l. Até aqueles que ousaram dizer um simples xingamento. Um por um. E você, Violeta, será a última.-recuei alguns passos para trás e cedi minhas costas à parede. Com as duas mãos segurei forte os cabelos e tentei conter as lágrimas, olhando para cima. Minha cabeça não ia aguentar. À tontura fez minha visão se embaçar.
- Última.-sussurrei, limpando o suor que descia do rosto. Umideci os lábios, sentindo-os cortados por conta de tanto ressecamento.
- Última.-sussurrou em meu ouvido. O hálito tão quente que minha barriga deu um nó de apreensão.
Minhas costas deslizaram devagar de encontro ao chão. Minha cabeça girava.
- Água.-consegui dizer.
- Hm...Ok.
Bebi e a vertigem foi cedendo. Me coloquei de pé, pronta para voltar para aquele lugar, qualquer lugar longe dele.