O som da tarde preenchia a casa silenciosa. Maria estava sentada no sofá, os joelhos abraçados ao peito, o olhar perdido na parede à frente. Bruno entrou devagar na sala, segurando duas xícaras de chá. Sentou-se ao lado dela, oferecendo uma das xícaras.
— Achei que você poderia querer isso — disse ele, a voz calma, tentando quebrar o gelo que se formara nos últimos dias.
Maria pegou a xícara, os dedos tremendo levemente. Não falou nada, apenas respirou fundo, sentindo o aroma do chá. Bruno observou o silêncio por alguns segundos, depois começou a falar:
— Princesa… eu sei que você anda carregando muitas perguntas. Sobre você, sobre a sua mãe, sobre o seu pai… — fez uma pausa, como escolhendo cada palavra com cuidado — E eu quero que você saiba que pode me perguntar tudo. Sempre.
Ela olhou para ele, a cabeça inclinada, os olhos cheios de dúvida e emoção.
— Pai… — começou, com a voz trêmula — Como seria a minha vida se o Fabio estivesse vivo? Se ele tivesse me conhecido, se… se a minha mãe tivesse feito outras escolhas?
Bruno suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos. Fechou os olhos por um instante antes de responder:
— Sabe, filha… essa é uma pergunta que eu também me faço às vezes. Mas a verdade é que não podemos viver “e se”. A vida que você tem é a sua realidade, e ela também é cheia de coisas boas. Eu sei que é difícil, que parece injusto, mas o que importa é como você escolhe lidar com tudo isso.
Maria virou-se para ele, os olhos marejados.
— Mas… eu sinto falta de algo que eu nem cheguei a ter. É estranho. Eu sinto que tem um pedaço de mim faltando, e não sei como preencher.
Bruno passou o braço por trás do ombro dela, puxando-a para perto.
— Eu entendo, princesa,e você tem todo o direito de sentir isso. Mas quer saber de uma coisa? Mesmo que o Fabio estivesse aqui, mesmo que as coisas tivessem sido diferentes… ele não seria capaz de te dar tudo o que você tem agora. Você tem pessoas que te amam, que te protegem. Eu sempre estive aqui, e sempre estarei. Sua mãe também, mesmo com o jeito duro que ela tem.
— Eu sei… — disse Maria, encostando a cabeça no ombro dele — Mas às vezes eu queria sentir que era diferente, que eu poderia ter algo que nem eu sei direito como é.
Bruno sorriu tristemente, apertando o ombro dela com carinho.
— E você vai descobrir, filha. Descobrir quem você é, e o que te faz feliz. O que passou não pode ser mudado, mas o que você faz agora pode definir tudo daqui pra frente. E eu vou estar sempre ao seu lado, não importa o que aconteça.
Maria suspirou, sentindo o peso diminuir um pouco. Um silêncio confortável se instalou entre os dois. Ela segurou a mão dele, sorrindo timidamente.
— Obrigada, pai. — disse, com a voz baixa, mas sincera — Por sempre estar aqui, mesmo quando eu não digo nada.
— Sempre, Mari. Sempre. — respondeu Bruno, com um sorriso terno. — Agora vamos tomar esse chá e tentar relaxar um pouco. Amanhã é outro dia, e a vida… bem, a vida continua.
Maria assentiu, sentindo que, por mais confuso e doloroso que fosse o passado, ter alguém para dividir a dor tornava tudo mais suportável. Pela primeira vez em dias, ela se permitiu respirar fundo e acreditar que, mesmo com todas as perdas e incertezas, não estava sozinha.
Após alguns minutos em silêncio, Maria afastou o olhar da xícara e encarou Bruno.
— Pai… tem outra coisa que eu não consigo entender — começou, a voz baixa, quase um sussurro — Minha mãe… Milena… às vezes parece que tudo que ela faz é pra me proteger, mas ao mesmo tempo me sufoca. Eu não sei se eu devo ficar grata, ou se quero fugir de tudo.
Bruno respirou fundo, entendendo a complexidade da situação.
— Eu sei, filha. Sua mãe vive um mundo muito diferente do nosso. Ela aprendeu a sobreviver em um lugar cheio de perigo, e acabou colocando toda essa experiência na forma como te cria. Mas isso não quer dizer que ela não te ama. — Ele passou a mão pelo cabelo dela — Só que… às vezes, o amor dela vem de um jeito duro, e isso confunde você.
Maria desviou o olhar, mexendo nas mãos.
— E Guilherme… — disse, hesitando, — Eu… eu não sei mais o que sentir. Ele voltou de repente, todo esse tempo longe, e agora está… perto. Mas ao mesmo tempo… ele tem essa regra, essa distância que ele precisa manter. Eu sinto tudo ao mesmo tempo: raiva, desejo, saudade… Eu não sei lidar com isso.
Bruno assentiu, compreendendo o peso das palavras dela.
— Maria… isso é normal. Você cresceu, mudou, se tornou uma mulher. E Guilherme… ele também mudou. O desejo, a intensidade, tudo que vocês sentiram… não é errado. O que você sente é humano. Mas você precisa entender que ele está preso a um código agora. Ele faz parte de um mundo perigoso, e qualquer passo errado pode machucar vocês dois — falou com firmeza, mas sem repreensão.
Maria respirou fundo, sentindo o nó no peito diminuir um pouco.
— Eu sei, pai… — respondeu — Mas é tão difícil! Eu quero me entregar, sentir tudo que a gente deixou passar. Mas ao mesmo tempo, eu tenho medo. Medo de me machucar, ou machucar ele.
Bruno passou os braços ao redor dela, abraçando-a com cuidado.
— Então respira, filha. Sinta, mas não se precipite. Deixa as coisas acontecerem no tempo certo. Não é preciso resolver tudo agora. E lembra: mesmo quando tudo parece confuso, você tem o direito de sentir e de se proteger. Você não precisa carregar esse peso sozinha.
Maria se aninhou no abraço dele, sentindo o calor e a segurança que só um pai de verdade podia oferecer.
— Obrigada, pai… por me escutar e me ajudar a pensar… — murmurou, a voz quase sumindo.
Bruno sorriu, passando a mão pelos cabelos dela.
— Sempre, Maria. Sempre estarei aqui. Agora, vamos tentar aproveitar o resto do dia, ok? Ainda há coisas boas esperando por você, mesmo nesse caos.
Maria assentiu, sentindo-se mais leve, e pela primeira vez em dias, acreditou que poderia equilibrar a intensidade de seus sentimentos por Guilherme, o amor de Milena, e a presença constante de Bruno, sem perder o controle de si mesma. Ela respirou fundo, fechou os olhos por um instante e se permitiu sorrir