Ecos do passado

680 Words
A tarde estava silenciosa, a casa parecia adormecida, exceto pelo som abafado de vozes vindo da sala. Maria, sentada em seu quarto com os fones de ouvido, tentava se concentrar em um desenho, mas um estrondo mais alto a fez levantar a cabeça. Algo estava errado. Curiosa, ela tirou os fones e abriu a porta lentamente, aproximando-se do corredor, tentando não fazer barulho. Pela fresta, percebeu Bruno e Milena discutindo com intensidade. As palavras eram afiadas, cada uma carregada de emoção e rancor. — Você acha que ela sabe de tudo? — Bruno exclamou, batendo a mão na mesa, a voz cheia de frustração. — Ela sente que você a sufoca, Milena! E não adianta colocar a vida dela em uma redoma pra “proteger”! Milena se levantou, os olhos faiscando de raiva, mas com aquele frio característico que sempre a tornava perigosa: — E você acha que ela está segura por acaso? Você acha que eu não sei o que o mundo lá fora pode fazer com minha filha? Bruno, ela é tudo que me resta, e eu não vou permitir que nada ou ninguém a toque! Maria sentiu um frio na espinha, mas continuou escondida, absorvendo cada palavra. A discussão agora parecia tocar em segredos antigos, coisas que Maria nunca imaginara. — Milena… você ainda carrega essa história do Fabio… você não consegue deixar isso pra trás! — Bruno disse, a voz entrecortada de dor. — Isso te consumiu, e você acaba nos envolvendo, você envolve a Maria! O nome dele fez Maria estremecer. Fabio. Ela já sabia vagamente de quem se tratava, mas nunca ouvira os detalhes. — Eu não posso simplesmente deixar pra trás! — Milena respondeu, a voz gelada. — Fabio… ele morreu por mim, Bruno! Tentou me proteger, e eu… eu perdi ele, perdi tudo. E depois… Solange… ela tentou me m***r! Você acha que eu poderia simplesmente ignorar isso e viver como se nada tivesse acontecido? Maria se encolheu levemente, processando a intensidade do que ouvia. A mãe que ela conhecia como forte e autoritária também era uma mulher marcada por perdas, traições e um passado que a moldou para o mundo em que vivia. — E a Maria? — Bruno interrompeu, a voz mais baixa, quase suplicante. — Você acha certo usar seu medo pra controlar ela? Ela precisa aprender a se proteger sozinha, Milena, não viver aprisionada! O silêncio pairou por alguns segundos, pesado, até que Milena respirou fundo e falou com um tom quase desesperado: — Eu fiz tudo isso por ela… Eu só queria dar a ela uma chance de não passar pelo que eu passei… Mas você não entende, Bruno. Você não entende o que é carregar a culpa de todos os mortos, a dor de um amor perdido, de um filho que nunca nasceu… Maria sentiu uma pontada no peito, lágrimas começando a se formar nos olhos. Ela recuou silenciosamente, mas agora entendia que a força da mãe vinha de algo mais profundo, de um passado que ninguém havia contado. Milena não era apenas a “Soberana” da comunidade; ela era uma mulher marcada, moldada pela perda de Fabio, pelos confrontos de sua vida e pelas traições de Solange. Enquanto Maria se afastava do corredor, sentindo-se pequena diante da intensidade daquele confronto, percebeu algo novo: a mãe, apesar de tudo, amava-a com uma força e obsessão que a assustava e fascinava ao mesmo tempo. E Bruno… estava ali, tentando ser a voz da razão, tentando proteger a filha e, ao mesmo tempo, lidar com o passado da mulher que ele ainda amava. Maria fechou a porta lentamente, voltando para seu quarto. Sentada na cama, os pensamentos giravam como um furacão. Ela agora entendia mais profundamente o peso da herança que carregava não apenas a do crime e da comunidade, mas a do amor, da dor e dos segredos de Milena. E algo dentro dela mudou: a curiosidade por esse passado, a necessidade de entender os mistérios de Fabio e Solange, e a percepção de que nada seria simples entre ela, sua mãe e Guilherme.
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