Era sábado e o calor castigava o Morro do Alemão. Maria e Letícia caminhavam pela rua principal, sorvete nas mãos, tentando aproveitar o fim de semana. Elas riam de coisas bobas da semana, tentando se distrair depois de dias cheios de escola e tensão.
Foi quando, no morro acima, Maria viu Guilherme subindo a ladeira acompanhado de outros meninos, carregando sacos pesados que pareciam cimento. Ele estava sem camisa, o sol batendo na pele destacava os músculos fortes e, de repente, Maria percebeu as cicatrizes espalhadas pelos braços e peito.
— Nossa… — murmurou Maria, sem conseguir desviar o olhar. — Letícia… ele… essas cicatrizes?
Letícia sorriu, percebendo a atenção da amiga.
— Ah, Maria… você realmente ainda não sabe tudo sobre o Guilherme, né? — disse, baixinho. — Ele teve uma vida complicada. O pai era alcoolatra e batia nele quando era criança. A mãe dele se afundou nas drogas depois que o pai morreu num confronto. Dois anos cuidando dela, e depois ela teve overdose. Ele ficou sozinho e mora com a avó agora.
Maria engoliu seco, olhando para o corpo forte de Guilherme. Cada cicatriz parecia contar uma história de dor e sobrevivência.
— E… ele tem namorada? — perguntou, quase sem perceber, sentindo um calor subir pelo rosto.
Letícia riu, debochada, mas com aquela risada cúmplice.
— Ele já namorou algumas meninas, sim. Rola boatos, mas ele é discreto. Nunca fica se exibindo, sabe? — piscou para Maria.
— O que você tá sentindo, hein?
Maria desviou o olhar por um instante, tentando organizar os pensamentos. Ela ainda tinha lembranças do seu namoro inocente com Matheus, em Curitiba, mas a presença de Guilherme despertava algo diferente. Algo mais intenso, carnal, que a deixava intrigada e ao mesmo tempo fascinada.
— É… — murmurou, sem conseguir esconder o fascínio. — Ele é… diferente.
Letícia apenas deu de ombros, saboreando o sorvete, enquanto Maria continuava a observar Guilherme subindo a ladeira, cada gesto mostrando força, resistência e uma presença silenciosa que dominava o ambiente. Ela percebeu, pela primeira vez, que a atração que sentia por ele ia além da curiosidade ,era algo que a deixava ansiosa, inquieta, e ao mesmo tempo hipnotizada.
Enquanto caminhavam, Maria sentiu que precisava aprender mais sobre ele, não apenas sobre o corpo forte ou os boatos, mas sobre o que ele carregava dentro de si. E, de algum jeito, sabia que a proximidade com Guilherme mudaria muitas coisas em sua vida, despertando sentimentos e desejos que ela ainda não sabia como controlar.