Maria abriu os olhos devagar, a cabeça latejando, a boca seca. O frio do chão de cimento queimava sua pele, a blusa encharcada de chuva ainda grudada ao corpo. Tudo estava escuro, só um filete de luz passava por uma janela alta, gradeada, deixando ver partículas de poeira dançando no ar.
Tentou se mexer, mas os pulsos estavam amarrados por uma corda grossa, áspera, que já machucava sua pele. O som da respiração acelerada ecoava dentro do espaço pequeno, abafado, que cheirava a mofo e ferrugem.
— Onde… onde eu tô? — murmurou, a voz embargada, quase um sussurro.
Ninguém respondeu. Só o pingar constante de água num balde metálico quebrava o silêncio.
Maria tentou forçar a memória: a ladeira, a chuva, as pessoas rindo dela, o carro preto que parou ao seu lado, portas se abrindo, mãos fortes a puxando para dentro. Depois, tudo escuro.
Seu coração disparou. A primeira ideia foi: mamãe descobriu… Mas não, Milena jamais a trancaria daquele jeito. Pelo menos não ali. Aquilo era diferente. Aquele não era o estilo da Soberana.
Um arrepio percorreu sua espinha. Se não era a mãe, quem a queria?
De repente, passos pesados ecoaram pelo corredor do lado de fora. O som de metal arrastando. A porta de ferro rangeu ao ser aberta, e uma silhueta surgiu na penumbra. Era alta, robusta, mas o rosto ficou escondido pelo contra-luz.
— Finalmente acordou — disse uma voz grave, rouca, com um tom de deboche.
Maria tentou recuar, mas não tinha para onde. O homem entrou, fechando a porta atrás de si. O coração dela parecia prestes a explodir.
— Quem é você? O que quer comigo? — a voz dela tremia, mas saía firme.
Ele não respondeu. Apenas se agachou diante dela, aproximando o rosto até que Maria sentisse o hálito quente contra sua pele. A luz fraca revelou um sorriso cínico, um olhar frio.
— Você não imagina o valor que tem, princesa…
Maria sentiu as lágrimas arderem nos olhos, mas não deixou cair. Estava assustada, perdida, mas algo dentro dela queimava de raiva.
Enquanto isso, do lado de fora, a favela estava sitiada. A Soberana enlouquecida, soldados revirando casas, e o nome de Maria ecoava em cada viela. Mas ninguém sabia que, em algum canto desconhecido, entre grades e sombras, a menina já não estava sob domínio da mãe.
Agora, ela estava nas mãos de alguém que jogava o jogo por conta própria
Bruno estava encostado na parede da mansão, o celular pressionado contra o ouvido, a mão suando frio. Lá fora, a comunidade fervilhava: tiros, gritos e o barulho dos capangas de Milena se espalhando pelo morro. Mas o que o deixava mais desesperado era a ausência de Maria. Ele não sabia onde ela estava, nem se estava viva. Cada segundo parecia eterno.
— Leco… — sua voz saiu rouca, quase inaudível pela chuva e pelo vento. — É sério, cara… a Maria sumiu. Não sei onde ela está! Milena enlouqueceu, mandou os caras vasculharem tudo… ela… ela não pode ser encontrada por ninguém!
Do outro lado da linha, Leco percebeu a gravidade do tom de Bruno. — Calma, respira. Como assim sumiu? Você não sabe onde ela está, nem quem pegou?
— Não… — Bruno apertou o celular com força. — Tudo aconteceu rápido. Ela foi levada… e ninguém viu pra onde. Os capangas de Milena estão espalhados, matando quem se aproxima, e eu… eu não consigo achar ela sozinho. Preciso de você e do Thiago. Temos que encontrá-la antes que seja tarde demais!
— Beleza, estou indo. — Leco falou firme — Mas me explica direito: onde você acha que eles podem ter levado ela?
— Não faço ideia! — Bruno respondeu, a voz cheia de desespero. — Só sei que foi pela comunidade… talvez a levem para algum lugar isolado. Temos que vasculhar cada beco, cada casa abandonada.
— Relaxa, a gente vai encontrá-la — disse Leco, tentando passar segurança a Bruno. — Não vamos deixar que Milena faça algo com ela.
Bruno desligou o telefone, sentindo um aperto no peito. Ele sabia que cada minuto contava. Maria estava nas mãos de alguém poderoso, e Milena não tinha limites. A chuva fria caía sobre ele, misturando-se ao suor e à ansiedade. A sensação de impotência era sufocante, mas Bruno não podia desistir. Precisava reunir Leco e Thiago, vasculhar o morro e salvar Maria antes que fosse tarde demais.