A comunidade já conhecia a rotina de Maria. Dia após dia, ela descia pelas vielas perguntando por Guilherme.
— Você viu ele? Me fala, por favor! — implorava, com os olhos avermelhados e a voz rouca de tanto gritar.
As respostas eram sempre as mesmas: risos debochados, comentários maldosos, ou um silêncio constrangedor. Alguns mais velhos tentavam aconselhá-la:
— Menina, volta pra casa, isso não vai te levar a nada… — mas Maria não ouvia. O coração dela já não obedecia à razão.
No quarto, os sinais de sua agonia eram ainda mais claros. Bandejas de comida intocadas apodreciam sobre a escrivaninha. As paredes estavam cobertas de desenhos improvisados: o rosto de Guilherme multiplicava-se em cada folha espalhada pelo chão. Ora sorrindo, ora ferido, ora apenas um rascunho borrado pelas lágrimas que caíam sobre o papel.
Maria já não comia há dias. Seu corpo emagrecido denunciava a fragilidade que tentava esconder. Os seguranças a seguiam de longe, sempre atentos, mas também impotentes diante do sofrimento dela. Milena havia ordenado que vigiassem, não que confortassem.
Naquela tarde, o céu desabou em chuva. A água escorria pelas vielas, formando rios improvisados de lama. Maria saiu de casa descalça, sem se importar. O vestido colava ao corpo, a maquiagem borrada escorria junto com as lágrimas. Ela caminhava tropeçando, os cabelos desgrenhados, as mãos tremendo.
— Gui… — murmurava, repetindo como um mantra. — Onde você tá?
A cada passo, a cena era mais triste. Crianças a olhavam com curiosidade, adultos cochichavam, alguns zombavam:
— A princesinha da Soberana ficou maluca…
Outros, com pena, desviavam o olhar.
Maria já não distinguia realidade de delírio. Falava frases desconexas, como se conversasse com ele ali mesmo:
— Você prometeu… não me deixa… eu tô aqui…
A chuva castigava, mas ela não parava. Descendo a ladeira, os pés mergulhados em poças de água suja, o corpo encharcado, o choro constante se confundia com o temporal. Era como se o mundo chorasse com ela.
Foi então que um carro preto freou ao seu lado. As portas se abriram em sincronia. Os seguranças que a seguiam se agitaram, mas estavam longe demais, presos pela multidão que observava a cena.
— Maria! — gritou um deles. Mas já era tarde.
Mãos fortes a puxaram para dentro do carro. O grito dela ecoou pela viela, misturado ao barulho da chuva. A porta bateu com força, o motor rugiu, e o veículo desapareceu ladeira acima.
Os seguranças correram, mas o asfalto molhado, a confusão da comunidade e a rapidez da emboscada tornaram impossível alcançar. Ficaram parados, encharcados, impotentes, enquanto a certeza c***l se espalhava: Maria havia desaparecido.
E, pela primeira vez, a comunidade inteira silenciou. Não havia riso, não havia conselho. Só o eco da chuva e o vazio que ela deixara para trás.
A notícia se espalhou como um raio pela comunidade: Maria sumiu. Uns diziam que foi levada de carro preto, outros juravam que ela mesma tinha fugido, mas ninguém tinha certeza de nada. A chuva ainda castigava os becos, o cheiro de barro misturado com pólvora pairava no ar, e a favela inteira parecia prender a respiração.
Na mansão, Milena explodia. O corpo tremia de ódio e desespero, os olhos vermelhos denunciavam as noites sem dormir. Os seguranças se encolhiam em silêncio, cada um torcendo para não ser o próximo alvo da ira da Soberana.
— Minha filha sumiu porque vocês são uns incompetentes! — gritou, a voz rasgando o silêncio da sala.
Dois homens tentaram se justificar, mas Milena não ouviu. Sacou a pistola da cintura e os arrastou até a praça central da comunidade. A chuva fina caía sobre todos, moradores se aglomeravam nos barrancos e janelas, assistindo sem poder intervir.
— Isso aqui é o que acontece quando falham comigo! — berrou, os cabelos grudados no rosto molhado, o dedo firme no gatilho.
O som dos tiros ecoou pelos becos. Dois corpos caíram na lama, e a praça foi tomada pelo silêncio absoluto. Crianças se esconderam atrás das saias das mães, velhos baixaram a cabeça. Ninguém ousava olhar diretamente para ela. Milena limpou o sangue do rosto com a manga da blusa, como se fosse chuva.
— A partir de agora, ninguém entra e ninguém sai dessa favela. Toque de recolher! — decretou, a voz firme, quase insana. — Quero cada beco, cada barraco, cada buraco revirado até encontrarem minha filha! Quem esconder informação, morre. Quem mentir, morre. Quem duvidar, morre!
Capangas armados começaram a se espalhar imediatamente, batendo de porta em porta, invadindo casas, revistando moradores. O barulho de portas sendo arrombadas e móveis virando ecoava pela noite. O medo já não era mais da chuva ou dos tiros: era dela, da Soberana.
Bruno tentava manter a calma, mas o rosto denunciava a preocupação. Ele se aproximou, num tom baixo, quase implorando:
— Milena, você vai acabar destruindo tudo. Vamos pensar com calma…
Ela virou para ele, os olhos ardendo de fúria.
— Se fosse sua filha, você estaria calmo, Bruno? Ela é a minha vida. E eu juro por tudo que vou encontrar Maria, nem que eu tenha que encher esse morro de cadáveres!
Enquanto isso, Letícia chorava na casa dela, sentindo um aperto no peito. Não sabia se Maria estava viva, se estava ferida, se um dia voltaria. A comunidade inteira estava refém do medo e do silêncio.
Lá fora, a chuva lavava o sangue que escorria pela praça. Mas nada lavava a marca do terror que a Soberana tinha cravado naquela noite.