Maria ainda sentia o couro cabeludo latejando. As mãos firmes da mãe a haviam arrastado morro acima como se fosse um objeto, não uma filha. O corpo nu, exposto sob o olhar curioso e m*****o da comunidade, queimava mais de vergonha do que de frio. O riso dos vizinhos, os cochichos, cada olhar de julgamento era uma navalha em sua pele.
Milena, a Soberana, não permitiu que Maria trocasse sequer uma palavra com Guilherme antes de levá-la dali. Nem deu tempo de ela se vestir. O orgulho da matriarca estava ferido, e em sua mente retorcida só havia espaço para uma ideia: proteger a filha de si mesma, custasse o que custasse.
Naquela noite, Maria foi trancada em casa. Sem telefone, sem acesso à rua, sem direito de abrir a janela. Sentia-se em uma prisão de luxo, mas ainda assim uma prisão. O eco dos gritos da mãe continuava em sua mente:
— Você nunca mais vai vê-lo! Nunca mais, Maria!
E a cada repetição, o coração dela se despedaçava.
Na manhã seguinte, Maria tentou arrancar alguma resposta da mãe:
— Onde ele está? O que você fez com ele? — os olhos marejados, a voz trêmula.
Milena, fria, respondeu sem sequer encará-la:
— Morto ou vivo não importa. Para você, ele não existe mais.
Essas palavras foram como um punhal cravado no peito da garota.
Bruno, que observava de longe a conversa, percebeu algo diferente na esposa. O tom era mais c***l do que de costume. Ele se aproximou, tentando apaziguar:
— Milena, a menina está sofrendo. Não precisa ser assim…
Mas a Soberana virou-se como uma tempestade:
— Você não entende! Se eu não for dura, ela acaba no mesmo buraco que eu caí. Prefere vê-la morta, Bruno? Prefere vê-la sendo enterrada ao lado dele? — a menção a Fabio, ainda que indireta, fez o ar da sala se tornar denso.
Bruno suspirou fundo, engolindo a raiva. Sabia que não adiantava enfrentar Milena de peito aberto, mas dentro dele crescia uma chama de desconfiança e indignação.
Enquanto isso, a comunidade fervilhava de boatos.
— Dizem que o moleque sumiu depois que a Soberana pegou ele com a filha…
— Sumiu nada, já deve tá comido pelos urubus no mato…
— Eu ouvi que foi levado pros homens dela, nunca mais volta.
Cada sussurro atravessava os ouvidos de Maria como facas invisíveis. Ela se sentia sufocada, aprisionada não só em casa, mas também em um silêncio que a matava por dentro.
Nas noites seguintes, Maria sonhava com o rosto de Guilherme: às vezes ensanguentado, às vezes sorrindo para ela, às vezes chamando por socorro. Acordava gritando, suada, e encontrava apenas o olhar severo da mãe.
— Ele era veneno, Maria. — Milena dizia, sem um pingo de emoção. — Um veneno que eu arranquei da sua vida.
Mas para Maria, aquele “veneno” era a única coisa que a fazia sentir-se viva.
Bruno, cada vez mais incomodado, decidiu confrontar Milena em particular.
— Milena, olha nos meus olhos e me diz: o que você fez com o rapaz?
Ela desviou o olhar, acendendo um cigarro com calma, como se a pergunta fosse banal.
— Não é da sua conta. Eu fiz o que precisava ser feito.
Bruno fechou os punhos, o sangue fervendo nas veias.
— “O que precisava ser feito”? Isso é coisa de assassina, Milena! Você esquece que é a vida da nossa filha que está no meio disso?
O silêncio dela foi mais revelador do que qualquer resposta. Bruno entendeu naquele instante: Milena havia cruzado uma linha que talvez não tivesse mais volta.
Para Maria, os dias se arrastavam como anos. A cada tentativa de falar com alguém, encontrava os olhares de desprezo da comunidade. Alguns a chamavam de “pivete inconsequente”, outros riam baixinho quando ela passava. A humilhação pública orquestrada pela mãe a transformara em motivo de piada.
Mas nada doía mais do que não saber: estaria Guilherme vivo? Estaria morto? Ou sofrendo em algum lugar, sozinho?
Essa incerteza era o castigo mais c***l.
E enquanto Maria chorava sozinha, abraçada a um travesseiro, Milena se deitava tranquila, convencida de que estava salvando a filha mesmo que para isso precisasse destruí-la por dentro.
O silêncio de Guilherme ecoava mais alto do que qualquer grito, e cada dia que passava tornava o morro um lugar mais perigoso, não só para ele, mas para todos que ousassem desafiar a Soberana.