Branca de Neves

961 Words
Nos últimos meses, aprendi que no Morro do Alemão, cada olhar carrega uma história, cada gesto pode ser um aviso, e cada palavra dita ou não dita tem peso. Mas nada havia me preparado para a forma como um único apelido poderia me marcar. Aquele jovem, o mesmo que me desafiara semanas atrás, agora parecia ter feito da minha presença uma espécie de entretenimento pessoal. Seu olhar, firme e sempre avaliando, tinha algo que me desconcertava não apenas respeito, mas curiosidade. — Ei, Branca de Neves! — chamou-me um dia enquanto eu atravessava o pátio da escola. Meu corpo parou por um instante, como se alguém tivesse puxado o chão debaixo dos meus pés. Branca de Neves? O apelido soava estranho, quase como uma provocação. Mas eu sabia exatamente por que ele havia escolhido aquelas palavras: meu tom de pele claro, olhos delicados e verdes, lábios rosados e carnudos,detalhes que inevitavelmente chamavam atenção em meio ao tom mais moreno da maioria ali. Fui até ele, passo a passo, tentando controlar o coração que disparava. Letícia me acompanhava, mas ficou atrás, observando em silêncio. — Quem te deu esse apelido? — perguntei, tentando que a voz não tremesse. Ele sorriu, aquela mistura de arrogância e diversão que fazia com que eu não soubesse se deveria sentir raiva ou curiosidade. — Eu mesmo — respondeu, encostando-se na parede. Combina contigo. Frágil, delicada, mas… sabe andar com os próprios pés. Aquelas palavras me deixaram em choque. A fragilidade que eu sempre quis esconder agora era exposta, transformada em algo que ele parecia admirar, de um jeito que misturava provocação e respeito. — Não sei se deveria gostar ou te odiar por isso — murmurei, cruzando os braços. Ele riu, e o som ecoou pelo pátio. Não era uma risada amigável, mas também não era hostil. Era uma risada de alguém que estava testando limites, jogando com a percepção de poder que ambos sabíamos existir. — Vai se acostumando, Branca de Neves. Aqui, todo mundo tem que mostrar que não é fraca — disse ele. — E você? Já provou que aguenta mais do que parece. Enquanto falava, percebi olhares discretos de outros jovens, curiosos com nossa interação. Eu sentia que aquele apelido me colocava sob um holofote ainda maior do que antes, mas, de algum jeito, também me dava força. Era como se, apesar de me destacar, eu pudesse usar isso a meu favor. Letícia, sempre prática, me cutucou discretamente. — Ele não é r**m, só… gosta de testar as pessoas. Presta atenção, Maria. Você vai aprender muito com isso. E estava certa. Ao longo dos dias, o apelido se espalhou discretamente entre os jovens. Alguns sorriam quando passavam por mim, outros trocavam olhares discretos. Eu comecei a perceber que, mesmo em meio à tensão constante do morro, as pequenas interações humanas tinham poder podiam intimidar, aproximar ou criar respeito. Um dia, durante uma caminhada pelas vielas, ele apareceu atrás de mim, e sua voz me pegou desprevenida: — Então, Branca de Neves… sabe que tem que aprender a andar no seu próprio ritmo por aqui, né? — Já estou aprendendo — respondi, tentando manter o tom firme, mesmo sentindo meu coração acelerar. — Não sou tão frágil quanto parece. Ele riu novamente, mais baixo dessa vez, e simplesmente me deixou seguir. Mas percebi que, naquele gesto simples, havia um teste de paciência, de coragem. Ele queria ver como eu reagia, se cedia ao medo ou se mantinha minha postura. Nos dias seguintes, comecei a notar mudanças em mim mesma. O apelido que inicialmente parecia um insulto transformou-se em algo que eu podia usar como lembrança de força. Branca de Neves — delicada, sim, mas resistente. Cada vez que ouvia, lembrava-me de que minha aparência podia enganar, mas minha força interior começava a se mostrar, mesmo em meio ao medo constante do morro. A convivência com ele era um constante jogo de provocações sutis. Algumas vezes, nos corredores da escola, ele passava ao meu lado, encostando-se na parede, e eu sentia o peso do olhar. Outras vezes, simplesmente comentava algo sobre meu jeito de andar ou minha postura, sempre em tom provocativo, mas sem crueldade. Aprendi que aquela relação uma mistura de tensão, respeito e curiosidade era mais uma lição sobre como o mundo funcionava ali. E, ao mesmo tempo, eu percebia a dualidade do Morro do Alemão: violência, medo, tensão, mas também aprendizado, amizade e pequenas vitórias. Cada interação, cada olhar, cada palavra trocada era parte do treinamento silencioso que o território me oferecia. E Branca de Neves, como passei a ser chamada, era mais do que um apelido era um lembrete de que, mesmo em um lugar perigoso, eu podia encontrar maneiras de me afirmar e crescer. Naquela noite, ao escrever em meu caderno, refleti sobre tudo o que estava acontecendo. Minha vida havia mudado radicalmente desde que deixei Curitiba. A escola, os jovens, o medo, a violência e, agora, o desafio diário que aquele garoto me apresentava — tudo me forçava a amadurecer rapidamente. E, de alguma forma, percebi que estava começando a aceitar que ser filha da patroa não era apenas um fardo; era uma oportunidade de aprender a me proteger, a observar, a crescer. No fim, apesar do medo e da tensão, algo dentro de mim começava a se fortalecer. Cada provocação, cada teste, cada palavra dita ou não dita servia para me preparar para o que estava por vir. E, enquanto olhava pela janela do meu quarto para as luzes da favela à noite, percebi que, mesmo no coração da violência, havia espaço para resistência, aprendizado e, talvez, para pequenas vitórias pessoais. Eu, Branca de Neves, estava começando a descobrir minha própria força mesmo que ainda delicada, ainda vulnerável, mas cada vez mais consciente do que podia enfrentar.
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