O Primeiro Desafio

893 Words
Depois de quase dois anos no Morro do Alemão, ainda existe uma sensação que me assombra todos os dias: a de que estou sempre sendo observada. Cada passo, cada gesto, cada olhar pode ser interpretado como fraqueza ou audácia. Até agora, consegui me manter discreta, navegar pelos becos e pela escola sem grandes problemas. Mas eu sabia, em algum lugar no fundo, que minha posição como filha da patroa nunca me deixaria em paz. Aquele dia começou como qualquer outro. Caminhei para a escola com Letícia ao meu lado, conversando sobre pequenos detalhes da vida no morro, tentando me sentir normal, tentando me convencer de que não havia nada de especial em mim, apesar de todos saberem quem eu era. Mas bastou entrar no pátio que a tensão apareceu, como uma sombra se aproximando sem que eu percebesse. Ele estava lá. Alto, braços cruzados, olhar firme. Um dos jovens mais antigos da comunidade, daqueles que não precisavam dizer muito para que todos soubessem quem comandava respeito. Meu coração acelerou. Ele caminhou até mim com passos lentos, medindo cada movimento, cada reação. — Então você é a filha da Milena, né? — disse ele, com um sorriso frio, sem cordialidade. Assenti, mantendo a postura firme. Não podia demonstrar medo, mas sentia o estômago embrulhar. — Dizem que a patroa é temida… e você? Vai ser igual ou só quer fingir que não manda nada aqui? Aquele era o teste que eu esperava, mas ainda assim, senti cada palavra como uma lâmina cortando minha confiança. Letícia se manteve ao meu lado, mas não disse nada, sabia que eu precisava responder. Respirei fundo, tentando controlar o medo. Aprendi que, naquele mundo, não basta existir; é preciso mostrar que você sabe seu lugar. Então, com a voz firme, respondi: — Não estou aqui para desafiar ninguém. Só quero estudar, aprender e… sobreviver. Ele me olhou de cima a baixo, avaliando cada detalhe. Por alguns segundos, fiquei tensa, esperando qualquer movimento brusco. Então, ele soltou uma risada curta, sem alegria, mais de ironia do que qualquer outra coisa. — Sobreviver, é? — ele repetiu, como se duvidasse da minha capacidade. — Aqui, só sobrevive quem entende que fraqueza é sinal de morte. A ameaça pairou no ar, e eu entendi que aquelas palavras não eram apenas conversa fiada. Cada jovem ali parecia absorver cada gesto, cada movimento meu, como se minha reação determinasse algo sobre eles também. — Eu entendo — disse, controlando o tom, tentando parecer mais segura do que realmente me sentia. — Sei que não posso me deixar levar pelo medo, e estou aprendendo a me proteger. Ele me estudou por mais alguns segundos e, finalmente, deu de ombros, como se minha resposta não fosse totalmente interessante, mas suficiente para evitar problemas imediatos. — Bom, vamos ver se você aguenta — murmurou, mais para si mesmo do que para mim. E foi embora, deixando um rastro de tensão que ainda fazia meu coração bater mais rápido. O resto do dia passou lentamente. Cada passo que eu dava parecia ecoar na memória do encontro, e eu sentia que todos, de algum jeito, haviam percebido o desafio que eu enfrentara. Letícia me segurou pelo braço, discretamente, e me disse: — Ele não gosta de ninguém que chegue aqui sem saber quem é. Mas você não fez errado. A forma como respondeu… mostrou que você não é fácil de intimidar Senti um misto de alívio e medo. Alívio por ter passado pelo teste, medo por saber que aquilo era apenas o começo. Aprendi naquele dia que, no morro, até o simples fato de ser filha da patroa podia ser um problema e que qualquer um podia tentar desafiar minha posição a qualquer momento. Quando voltei para casa, a sensação de tensão ainda me acompanhava. Minha mãe estava ocupada com assuntos da comunidade, mas me observou com aquele olhar que não deixa nada passar despercebido. Não precisei contar o que havia acontecido; ela sabia. Sempre sabia. Bruno me deu um abraço discreto, e eu percebi que ele também entendia o peso do que acontecera. O morro não era apenas ruas e becos; era regras, códigos e testes constantes. E aquele dia fora um deles. À noite, deitada no meu quarto, escrevi cada detalhe no meu caderno. Palavras se transformavam em refúgio, em forma de organizar meus pensamentos e emoções. Entendi que aquele tipo de desafio se repetiria muitas vezes, e que eu precisaria me fortalecer não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Apesar do medo e da tensão, havia algo dentro de mim que se recusava a ceder. Cada desafio, cada teste, cada ameaça, fazia parte do aprendizado. Aprendi que no morro, força e inteligência caminham juntas, e que eu precisaria usá-las de maneiras que ainda não conhecia. O desafio daquele jovem não foi apenas uma provação; foi um alerta. Eu precisava entender que minha presença no Morro do Alemão tinha implicações muito maiores do que estudar e sobreviver. Minha mãe comandava aquele território, e eu, mesmo sendo apenas uma adolescente, precisava aprender a navegar nele com cuidado, observação e coragem. E, apesar de tudo, percebi algo importante: eu não seria quebrada facilmente. A tensão do desafio apenas me fez perceber que, para crescer naquele lugar, eu precisaria ser mais do que filha da Soberana. Precisaria ser Maria, observadora, cautelosa e, acima de tudo, forte de maneiras que ainda estava descobrindo.
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