Ainda estou aprendendo a andar pelas ruas do Morro do Alemão sem me sentir totalmente exposta. Cada dia é um teste: quem olha, quem observa, quem esconde segredos atrás de um sorriso ou de um olhar desafiador. Aos poucos, percebi que não basta apenas existir ali é preciso ser vista, mas do jeito certo.
No colégio, comecei a notar rostos que antes pareciam invisíveis para mim. Uns me avaliavam com curiosidade, outros com desconfiança. Tentei manter distância, mas, inevitavelmente, alguém veio falar comigo. Uma menina de cabelos crespos e sorriso fácil se aproximou:
— Ei, você é a filha da Soberana, né?
Assenti com a cabeça, sem saber muito o que dizer. O jeito dela era diferente de todos os outros: direto, mas sem arrogância.
— Relaxa, não vim te intimidar. Só… não precisa fingir que não tá vendo que todo mundo aqui fala de você.
Fiquei parada por um instante, sentindo um misto de vergonha e alívio. Alguém me reconhecia, mas sem hostilidade. A partir daquele dia, começamos a nos aproximar. Seu nome era Letícia, moradora do morro desde sempre, inteligente, sagaz e com um senso de observação que eu admirava.
Letícia começou a me mostrar detalhes do lugar: quais ruas evitar, quais olhares significavam aviso, quem podia ser confiável e quem não. Era como se me desse um mapa invisível para sobreviver ali. Ainda assim, cada passo fora da escola era uma mistura de medo e curiosidade. Os tiros distantes, os gritos, os homens armados nas esquinas tudo fazia parte do cotidiano, mas ainda assim me assustava.
Um dia, caminhando pelo beco atrás da escola, encontrei um grupo de adolescentes jogando futebol em uma viela estreita. Eles me olharam por alguns segundos, medindo minha presença. Um deles, mais alto, de cabelos curtos e olhar penetrante, se aproximou:
— Tá perdida ou só quer ver o jogo?
Sorri timidamente, sem saber o que responder. Letícia, sempre rápida, me apresentou:
— Essa é Maria, gente. Ela acabou de chegar.
A partir dali, fui sendo incluída, de forma cautelosa. Aprendi rapidamente que amizade naquele lugar também exigia regras invisíveis. Não bastava querer se aproximar era preciso observar, respeitar, entender limites. Os jovens me aceitaram aos poucos, mas sempre com testes sutis, olhares desafiadores e pequenas provocações.
Não demorou para que eu testemunhasse o lado mais c***l do morro. Durante uma tarde de futebol, uma discussão entre dois jovens sobre dinheiro e território acabou em gritos e empurrões. Um deles sacou uma arma, e o grupo inteiro parou, congelado. O som metálico da arma foi como um aviso: aqui, qualquer erro podia ser fatal. Eu me encolhi, sentindo o medo me dominar, mas também uma estranha curiosidade pelo mundo que estava aprendendo a conhecer.
A violência não se limitava aos confrontos armados. Havia também o medo constante de quem poderia estar observando, bisbilhotando, esperando qualquer deslize. Cada passo que eu dava era medido. Aprendi a andar com postura firme, olhar atento, mas sem provocar atenção desnecessária. Ainda assim, minha aparência inevitavelmente chamava olhares — alguns de admiração, outros de inveja.
Letícia tornou-se meu guia, mas também meu apoio. Conversávamos sobre sonhos, sobre a vida que eu deixei em Curitiba, sobre os medos que eu ainda carregava. Ela me contava histórias do morro, de amigos perdidos, de dias bons e ruins, e eu aprendia, aos poucos, a entender o território que agora era meu lar.
Havia também rivalidades silenciosas. Alguns jovens observavam cada passo meu com desconfiança, questionando meu lugar ali. Em um incidente, ouvi comentários maliciosos sobre minha mãe e minha família. O sangue subiu ao meu rosto, mas aprendi a controlar a raiva, a responder apenas com silêncio e olhar firme. Demonstrar fragilidade naquele mundo podia ser fatal.
Bruno, meu pai de criação, me lembrava constantemente:
— Maria, você precisa conhecer, mas não se envolver demais. Aqui, cada amigo pode ser aliado ou inimigo.
Essas palavras martelavam na minha mente enquanto eu navegava entre os olhares, as pequenas disputas e a tensão constante que permeava cada esquina. A vida no morro exigia vigilância, e eu precisava aprender rápido a decifrar cada gesto, cada sussurro, cada sombra.
Com o tempo, comecei a perceber pequenas vitórias. Consegui atravessar ruas antes temidas sem sentir o coração disparar, percebi que podia ajudar Letícia a resolver pequenos conflitos, e até encontrei momentos de riso genuíno, jogando futebol, contando histórias, sonhando por alguns minutos. Esses pequenos momentos de normalidade me davam força.
Mas sempre havia o perigo à espreita. Um dia, enquanto voltava para casa, ouvi o estampido de tiros próximos. Corri, escondendo-me atrás de muros, sentindo o coração disparado, lembrando das palavras de Bruno. Aquela sensação de vulnerabilidade era constante, mas, aos poucos, comecei a transformá-la em vigilância. Cada perigo observado me ensinava a ser mais cautelosa, mais estratégica, mais consciente da realidade em que vivia.
Mesmo assim, a amizade e a conexão com alguns jovens me mostravam que, mesmo em um lugar marcado pela violência, ainda havia humanidade, lealdade e momentos de alegria. Descobri que era possível sobreviver sem perder completamente quem eu era, mesmo que cada dia fosse um teste de resistência emocional e física.
E assim segui, entre olhares atentos, passos calculados e primeiros sorrisos de amizade. Aprendi que viver no morro exigia coragem que eu ainda estava descobrindo ter, e que, apesar do medo constante, ainda era possível encontrar momentos de pertencimento, mesmo em meio à violência. Eu, Maria, estava começando a entender o que significava crescer ali não apenas como filha da Soberana, mas como alguém que precisava se encontrar e sobreviver nesse território sem perder a própria essência.