Cheguei à comunidade ainda com os olhos cheios de lágrimas e o coração pesado. A rua estreita à nossa frente parecia um labirinto de becos, muros pichados, fios elétricos cruzando o céu emaranhado. O cheiro de comida, de lixo e de fumaça misturava-se de um jeito que me fazia engolir seco. Cada passo que dava me lembrava de que eu estava em um lugar onde regras invisíveis comandavam a vida das pessoas.
Minha mãe, como sempre, seguia à frente, passos firmes, olhos atentos. Ao meu lado, Bruno, meu pai de criação, mantinha a postura protetora. Mas eu podia sentir que a p******o deles tinha limites; naquele território, todos precisavam aprender rápido a se virar.
Nos primeiros dias, percebi que não bastava andar de cabeça baixa para passar despercebida. Já no segundo dia na escola, ouvi o som seco de tiros ao longe. Meu corpo gelou, e um arrepio percorreu minha espinha. Alunos pararam por um instante, olhando pela janela. Alguns sussurravam, outros apenas fingiam que nada acontecia. Um garoto comentou baixinho:
— Não se assusta não… isso é normal por aqui.
A normalidade das coisas que eu jamais poderia imaginar me deixou assustada. Eu sentia o medo misturado à curiosidade queria entender como aquele mundo funcionava, mas a cada esquina podia surgir perigo real.
Fui aprendendo, com cautela, a reconhecer os sinais. Olhares rápidos, passos apressados, portas trancadas, muros pintados com símbolos que eu ainda não compreendia. Havia tensão no ar, uma espécie de eletricidade invisível que me mantinha alerta o tempo todo. Até mesmo os cachorros que corriam soltos pelos becos pareciam medir o território antes de qualquer aproximação.
Em casa, minha mãe não falava muito sobre o que acontecia fora dos muros da sua casa, mas sua presença imponente me ensinava mais do que palavras poderiam. Uma vez, vi um homem subir a rua discutindo com outro e, em segundos, a discussão terminou com sangue no chão. Milena apareceu em seguida, firme, fazendo com que todos se afastassem. Eu só pude observar, sem entender totalmente, mas sentindo o peso do poder da minha mãe.
Apesar disso, a escola se tornou meu refúgio. Eu me sentava sempre no canto da sala, tentando ler, escrever, ignorar os olhares curiosos. Mas a violência não ficava só fora; brigas entre colegas aconteciam, alguns carregando ferimentos leves, outros marcas mais visíveis, lembranças de que qualquer descuido poderia ter consequências. Uma vez, um colega me puxou pelo braço, tentando me intimidar, e a sensação de vulnerabilidade me fez tremer. Aprendi a manter distância, a não provocar, a medir cada gesto com cuidado.
Nos finais de semana, eu passeava pelos becos próximos, às vezes acompanhada por Bruno, tentando entender o morro. Vi grupos de jovens com armas, discutindo com vozes tensas; carros com som alto, pessoas gritando; o vai e vem de moradores e visitantes, tudo acontecendo como se fosse uma coreografia caótica que só eles conheciam. Aprendi a reconhecer os sinais de perigo: um olhar, um movimento brusco, o som de passos apressados. Cada vez que ouvia tiros, meu coração disparava, mas eu respirava fundo e seguia, tentando me acostumar com aquele mundo que não me pertencia.
Mesmo em meio a tudo isso, havia beleza escondida. O pôr do sol visto do alto do morro pintava o céu com cores que eu jamais tinha visto em Curitiba; crianças jogando bola nas vielas, sorrindo sem medo, me faziam lembrar que a vida continuava, mesmo ali. Pequenos momentos de humanidade me davam esperança, lembrando que, apesar da violência, ainda existia vida, alegria e aprendizado.
Comecei a perceber que, para sobreviver, precisava aprender rapidamente a me adaptar. Não bastava ser filha da patroa; eu precisava entender códigos, respeitar limites, observar sem ser notada demais. Cada passo no morro exigia atenção, cada encontro era um teste. Eu estava crescendo rápido, mais rápido do que gostaria, mas a situação não permitia demora.
Certa tarde, enquanto voltava da escola, vi uma briga explodir entre dois homens na esquina. Um deles sacou uma arma, e tudo aconteceu em segundos: gritos, tiros, sangue no chão. Pessoas corriam para dentro de casa, trancando portas, e eu fiquei ali, escondida atrás de um muro, o coração disparado. Bruno chegou correndo, me puxou para dentro, e apenas disse:
— Aqui, Maria, você aprende rápido a valorizar cada segundo.
Aquelas palavras ficaram ecoando em minha mente. Eu estava em um mundo onde a vida podia mudar em um instante, e não havia espaço para ingenuidade. A sensação de fragilidade se misturava à necessidade de força. Eu precisava me proteger, precisava entender aquele território, precisava sobreviver.
As noites eram ainda mais tensas. O barulho de sirenes, tiros distantes e gritos se misturava ao vento que passava pelos becos. Dormir não significava descanso, mas apenas um momento para recarregar forças. Eu escrevia, anotava meus medos, minhas lembranças de Curitiba, tentava me manter conectada a quem eu era antes de chegar ali. Cada palavra escrita era um pequeno refúgio em meio à violência constante.
Mas aos poucos, percebi que a vida no morro me transformava. Cada desafio, cada perigo, cada observação sobre como as pessoas sobreviviam me ensinava a ser mais cautelosa, mais atenta, mais estratégica. Eu ainda era frágil, ainda sentia medo, mas estava aprendendo que, naquele mundo, até a fragilidade podia se tornar uma forma de força.
E assim segui, dia após dia, entre becos e olhares atentos, aprendendo a me adaptar à favela, ao medo, à vida que agora era minha. Crescer ali significava estar sempre alerta, mas também descobrir que, mesmo em meio à violência, a esperança e a força podiam surgir onde menos se espera. Eu, Maria, estava começando a entender que ser filha da patroa era mais do que um título; era uma sentença, um aprendizado e, talvez, uma chance de descobrir quem eu realmente poderia ser.