Me chama Maria. Tenho quinze anos e, se fosse para me descrever, diria que sou uma mistura de contraste: pele clara como neve, olhos verdes que sempre acabam chamando atenção, e cabelos negros que caem sobre meus ombros em um escuro profundo, quase como a noite sem lua. Meu corpo ainda está se transformando, mas já percebe-se que não passo despercebida: s***s médios, quadris largos, cintura fina características que, mesmo sem querer, atraem olhares, muitos deles indesejados.
Sou do tipo de pessoa que prefere passar despercebida, ficar na minha, ler, ouvir música, escrever meus pensamentos em cadernos que ninguém mais vê. Gosto de silêncio, de histórias que me levem para longe, de sentir que posso ser apenas eu mesma, sem o peso do mundo observando cada passo. Antes, em Curitiba, minha vida era assim: escola, amigos, tardes no parque, conversas intermináveis com Renata, minha melhor amiga, e momentos felizes com Matheus, meu primeiro amor. Uma vida que eu acreditava ser só minha.
Mas nada disso dura para sempre. Há dois anos, tudo mudou. Minha mãe, Milena, assumiu a liderança de uma comunidade no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Ela, com sua presença imponente, seus olhos de comando e sua aura de autoridade, não apenas influencia todos ao redor, como intimida os mais corajosos. Desde que assumiu os negócios da família, nada mais foi igual para mim.
Cheguei ao Rio no dia do velório do bisavô. Lembro-me de cada detalhe: o céu carregado, a umidade que grudava na pele, a sensação de estar sendo observada por milhares de olhos invisíveis. No enterro, quando a terra cobriu o caixão, minha mãe olhou para mim e disse: “A partir de hoje, aqui é a nossa casa. Curitiba ficou para trás.” Aquelas palavras caíram como uma sentença. Meu coração apertou, e a saudade esmagadora dos meus amigos, de Renata e de Matheus, invadiu cada canto do meu peito. Eu queria protestar, chorar, pedir para voltar, mas diante da presença imponente da minha mãe, permaneci calada.
Nos primeiros dias, a sensação de estranheza era constante. Cada rua do Alemão parecia esconder histórias que eu não deveria conhecer, rostos que avaliavam cada gesto meu, cada movimento. Minha escola era um espaço novo, os colegas, desconhecidos e desconfiados. Eu tentava me manter invisível, indo direto de casa para a escola e vice-versa, evitando conversas desnecessárias. Mas não é fácil passar despercebida quando se é filha de Milena. A aura da minha mãe me precedia e me tornava um alvo de curiosidade constante.
Apesar do medo, comecei a observar. Cada pessoa ali tinha um papel, um histórico, um jeito de se proteger. Aprendi rapidamente que o silêncio era mais seguro que a fala, que a atenção aos detalhes era mais importante do que qualquer sorriso. Mas, no meio dessa rotina tensa, senti também a beleza da cidade: o contraste entre o verde do morro e o cinza da favela, o barulho da vida pulsando em cada esquina, a vida intensa que parecia nunca parar.
Dentro de casa, minha mãe mantinha sua autoridade absoluta. Eu a admirava e, ao mesmo tempo, sentia um medo silencioso dela. Sempre sabia quando tinha cometido um deslize, mesmo sem falar uma palavra. A convivência com Bruno, meu pai de criação, também era estranha. Ele tentava me proteger, me guiar, mas era parte de um mundo que eu ainda não compreendia completamente.
O que mais me doía era a distância de tudo que eu conhecia. Renata e eu ainda mantínhamos contato, mas a saudade de Curitiba e da minha antiga vida me fazia sentir um vazio constante. Lembranças de tardes de risadas com Matheus, conversas sobre sonhos, segredos e planos me perseguiam nos momentos de silêncio. Era difícil encontrar alegria em meio ao peso do novo mundo que se abria à minha frente.
Com o tempo, percebi que precisava me adaptar, de alguma forma. Comecei a prestar atenção às regras não ditas, a linguagem dos olhares, aos caminhos mais seguros para atravessar o morro. Cada passo que dava era medido, cada atitude avaliada. Comecei a compreender que, para sobreviver ali, a fragilidade que sempre me caracterizou precisava se transformar em observação e cuidado.
A escola, que antes parecia apenas um lugar de aprendizado, tornou-se um microcosmo de desafios sociais. Alguns colegas me olhavam com inveja, outros com admiração silenciosa. Alguns poucos tentaram se aproximar, mas mantive distância. A sensação de que eu estava sempre sendo julgada, analisada e avaliada era constante. Minha vida se transformou em um equilíbrio delicado entre a tentativa de passar despercebida e a inevitabilidade de ser notada.
No entanto, nem tudo era medo ou solidão. Comecei a descobrir pequenas coisas que me davam força: as tardes em que podia sentar no terraço e observar a cidade, ouvir o vento passando pelos becos, sentir o cheiro do mar distante. Pequenos momentos de liberdade dentro de um espaço que parecia me engolir. Descobri que podia escrever meus pensamentos, registrar minhas memórias, e através disso, me manter conectada à essência que sempre fui,Maria, a menina que ama o silêncio, que deseja ser apenas ela mesma, mesmo em meio ao caos.
Mas, mesmo assim, sabia que não seria fácil. Crescer no território da minha mãe significava enfrentar dilemas que iam muito além da minha idade. A violência, o medo, o respeito forçado, tudo isso fazia parte da rotina e, de certa forma, me moldava a cada dia. Ainda assim, havia um fio de esperança em mim: o desejo de manter minha humanidade, de preservar meus sonhos e minha inocência, mesmo que isso parecesse impossível em um lugar onde o poder e a força eram as moedas mais valiosas.
E assim, entre o silêncio das minhas caminhadas e a intensidade da vida à minha volta, fui aprendendo a me adaptar. Cada dia era um teste, cada pessoa, um desafio. E, no meio de tudo isso, eu percebi algo importante: embora minha vida tivesse mudado para sempre, eu ainda podia ser eu mesma, Maria. Só que agora, ser eu mesma exigia coragem que eu ainda estava aprendendo a ter