Clara
Cheguei à escola me sentindo como se não tivesse dormido nem uma hora sequer.
Na verdade, talvez eu realmente não tivesse.
Passei a noite inteira me revirando na cama, encarando o teto do quarto e tentando convencer a mim mesma de que aquilo não tinha acontecido.
Porque não fazia sentido.
Lobos não falavam.
Simplesmente não falavam.
E, mesmo assim, eu conseguia ouvir aquela voz perfeitamente na minha cabeça.
“Não gosto do cheiro dele em você.”
A frase ecoava sem parar.
Toda vez que eu começava a pegar no sono, lembrava daqueles olhos dourados me encarando na floresta.
Então eu despertava de novo.
Quando finalmente amanheceu, eu já estava exausta.
Enquanto caminhava pelos corredores da escola, sentia meus olhos pesados e minha cabeça latejando.
Eu só queria que aquele dia terminasse logo.
Estava parada diante do meu armário quando Ana apareceu.
Ela me observou por alguns segundos.
Depois franziu a testa.
— Meu Deus.
— O quê?
— Você parece um zumbi.
— Obrigada.
— Estou falando sério.
— E eu também.
Ana deu um passo para trás e cruzou os braços.
— Clara, você está horrível.
— Nossa, você realmente sabe como levantar a autoestima de alguém.
— Não muda de assunto.
Ela apontou para meu rosto.
— Olhe para você. Essas olheiras parecem ter vida própria.
Soltei uma risada cansada.
— Eu só não dormi bem.
— Só isso?
— Só isso.
Ana estreitou os olhos.
Aquele era o olhar que ela fazia quando sabia que alguém estava mentindo.
— Clara…
— O quê?
— Eu te conheço.
— Faz duas semanas.
— Tempo suficiente.
Revirei os olhos.
— Não aconteceu nada.
Ela continuou me encarando.
Por um instante, quase contei.
Quase falei sobre o lobo.
Sobre a voz.
Sobre o medo que senti.
Mas a ideia parecia tão absurda quando formulada em palavras que fiquei calada.
Nem eu acreditava totalmente no que tinha visto.
Como esperava que outra pessoa acreditasse?
— Só estou cansada — falei por fim.
Ana suspirou.
— Tudo bem. Vou fingir que acredito.
— Obrigada pela confiança.
— Disponha.
Foi nesse momento que um movimento no corredor chamou minha atenção.
Meu coração acelerou imediatamente.
Noah.
Ele estava vindo na nossa direção.
Instintivamente, meus olhos procuraram os dele.
Mas antes que pudesse sorrir ou pensar em qualquer coisa, percebi que ele não estava sozinho.
Lara caminhava ao seu lado.
Os dedos dos dois estavam entrelaçados.
Ela usava o uniforme das líderes de torcida e parecia ter saído diretamente de uma propaganda de perfeição.
O cabelo impecável.
O sorriso impecável.
A postura impecável.
Tudo nela parecia perfeito.
Ela falava animadamente enquanto Noah escutava.
Os dois passaram por nós.
E ele nem sequer olhou para mim.
Nem um segundo.
Nem um simples “oi”.
Nada.
Continuei observando enquanto eles se afastavam pelo corredor.
Uma sensação estranha apertou meu peito.
Uma mistura desagradável de decepção e desconforto.
— Ah, não.
A voz de Ana me trouxe de volta.
— O quê?
Ela apontou discretamente para mim.
— Essa cara.
— Que cara?
— A cara que você acabou de fazer.
— Não fiz cara nenhuma.
— Fez sim.
— Não fiz.
— Fez.
— Não fiz.
— Clara.
— Ana.
Ela soltou uma gargalhada.
— Você ficou chateada.
— Não fiquei.
— Ficou.
— Não.
— Ficou.
— Para.
— Você está com ciúmes.
— Não estou!
Minha resposta saiu rápida demais.
O sorriso dela aumentou.
— Ah, então eu acertei.
— Você é insuportável.
— E você está apaixonada.
— Não estou apaixonada.
— Ainda não.
Balancei a cabeça.
— Ele tem namorada.
— Eu sei.
— E eu nem gosto dele desse jeito.
— Claro.
— Estou falando sério.
— Claro.
— Ana!
Ela começou a rir.
— Tudo bem, tudo bem.
Depois colocou uma mão no meu ombro.
— Escuta. Ele vai estudar com você hoje, não vai?
— Vai.
— Então qual é o problema?
— Nenhum.
— Vocês vão passar a tarde inteira juntos.
— Estudando.
— Conversando também.
— Talvez.
— Viu?
Dei de ombros.
— Não significa nada.
— Talvez não.
Ela sorriu.
— Mas acho que você gostaria que significasse.
Antes que eu pudesse responder, o sinal tocou.
Felizmente.
Porque aquela conversa estava ficando perigosa.
⸻
As aulas passaram lentamente.
Eu tentava prestar atenção na matéria.
Tentava resolver os exercícios.
Tentava ignorar o cansaço.
Mas minha mente insistia em voltar para dois assuntos.
O lobo.
E Noah.
Nenhum dos dois fazia sentido.
Quando o último período estava quase terminando, ouvi alguém chamar meu nome.
Levantei a cabeça.
Noah estava parado ao lado da minha carteira.
Um sorriso preguiçoso brincava em seus lábios.
— Ei, professora particular.
Sorri sem querer.
— Ei.
— Preparada para me impedir de repetir de ano?
— Acho que nem milagres resolvem seu caso.
Ele colocou a mão no peito dramaticamente.
— Isso foi c***l.
— Foi sincero.
— Você acabou de destruir minha autoestima.
— Sua autoestima parece ótima.
— É porque escondo minha dor.
Acabei rindo.
E ele sorriu ao perceber.
— Viu? Já estou melhor.
Fechei meu caderno.
— Então vamos antes que eu mude de ideia.
— Sabia que você gosta de mim.
— Não exagera.
— Tarde demais.
⸻
A viagem até a casa dele foi tranquila.
Quando chegamos, seguimos direto para a sala de estudos.
Dessa vez eu estava mais confortável ali.
Menos nervosa.
Menos impressionada com o tamanho da casa.
Ou pelo menos era o que eu tentava dizer para mim mesma.
Passamos boa parte da tarde estudando.
Ou tentando.
Porque Noah tinha uma capacidade impressionante de se distrair.
— Concentre-se — falei.
— Estou concentrado.
— Você acabou de desenhar um jogador de futebol no canto da folha.
— Isso também é arte.
— Isso não vai cair na prova.
— Você não sabe.
— Eu sei.
— Talvez a professora queira avaliar minha criatividade.
— Ela quer avaliar matemática.
— Detalhes.
Balancei a cabeça, rindo.
— Você é impossível.
— Você já disse isso.
— Porque é verdade.
Em determinado momento, ele finalmente conseguiu resolver uma questão sozinho.
Ergueu os braços como se tivesse vencido uma guerra.
— Eu consegui!
— Parabéns.
— Você parece pouco impressionada.
— Porque a questão era fácil.
— Para você.
— Talvez.
— Clara.
— O quê?
— Você é assustadoramente inteligente.
— E você é assustadoramente dramático.
— Isso é um elogio?
— Não.
— Que pena.
Nós dois começamos a rir.
E foi naquele momento que percebi algo perigoso.
Eu estava me divertindo.
Muito.
Mais do que deveria.
Mais do que era seguro.
Porque, enquanto Noah sorria para mim do outro lado da mesa, eu me lembrava constantemente de Lara.
Da mão dele segurando a dela no corredor.
Do jeito que caminhavam juntos.
Do fato de que ela era sua namorada.
E eu era apenas uma colega de estudos.
Nada mais.
Mesmo assim, às vezes eu me pegava observando seu sorriso.
Ou escutando sua risada.
Ou esperando que ele continuasse falando só para ouvir sua voz.
E aquilo me fazia sentir culpada.
Quando o sol começou a se pôr, fechamos os livros.
— Acho que sobrevivi a mais uma sessão de estudos — ele disse.
— Ainda não saiu a nota da prova.
— Deixa eu sonhar.
Sorri.
Mas, por dentro, meu coração estava pesado.
Porque eu gostava daqueles momentos.
Gostava da companhia dele.
Gostava da forma como ele me fazia rir.
E isso era exatamente o problema.
Enquanto caminhava para casa naquela tarde, uma pergunta continuava martelando minha cabeça.
Eu estava me aproximando demais de alguém que já pertencia a outra pessoa?
E se estivesse…
Por que meu coração insistia em ignorar esse fato?