Clara
Quando cheguei à escola na manhã seguinte, Ana e Marcus já estavam me esperando perto dos armários. Assim que me viram, os dois perceberam que eu estava diferente.
— Tá bom, Clara, desembucha! — Ana cruzou os braços. — O que aconteceu ontem?
Olhei para os lados para ter certeza de que ninguém estava ouvindo e contei tudo. Desde o momento em que Noah apareceu na minha porta até a tarde que passamos estudando juntos na casa dele. Também falei sobre a conversa que tivemos, sobre a família dele e sobre como ele parecia muito diferente do garoto popular que todos conheciam.
Quando terminei, Marcus praticamente explodiu.
— Eu sabia! Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo!
— Marcus! — reclamei, sentindo minhas bochechas esquentarem.
— O quê? — ele ergueu as mãos. — Eu não te julgo nem um pouco. Se eu tivesse a oportunidade de passar a tarde inteira na casa do Noah, também iria!
Ana começou a rir.
— Você não está ajudando.
Marcus deu de ombros.
— Estou sendo sincero.
Eu balancei a cabeça, sorrindo.
— Às vezes eu esqueço como você é estranho.
— Estranho nada. Apenas honesto.
Ele fez uma pausa e me encarou.
— Espera… você sabe que eu sou gay, né?
Eu ri.
— Eu já desconfiava.
— Desconfiava?
— Marcus, você usa mais produtos para o cabelo do que todas as meninas da escola juntas.
Ana gargalhou.
— Ela tem razão.
Marcus fingiu estar ofendido.
— Isso se chama autocuidado.
Continuamos rindo por vários minutos, e pela primeira vez desde que me mudei para aquela cidade eu senti que realmente pertencia a algum lugar.
Antes do sinal tocar, Ana teve uma ideia.
— Sexta-feira à noite. Filme na minha casa.
— Gostei! — Marcus respondeu imediatamente.
— Eu topo — falei.
— Perfeito. Então está combinado.
Passamos o resto do intervalo conversando sobre qual filme assistir e discutindo qual seria a melhor quantidade de pipoca para três pessoas.
Pela primeira vez em semanas, o dia passou rápido.
⸻
Quando as aulas terminaram, comecei o caminho para casa.
O sol já estava descendo atrás das árvores, pintando o céu com tons alaranjados. A floresta parecia mais silenciosa do que o normal.
Talvez silenciosa demais.
Apertei os livros contra o peito e acelerei o passo.
Então ouvi um ruído entre os arbustos.
Meu coração disparou.
Parei imediatamente.
As folhas se moveram.
E ele apareceu.
O lobo.
Dessa vez não havia dúvidas.
Não era sombra.
Não era imaginação.
Não era fruto do estresse.
Era real.
O enorme animal saiu lentamente entre as árvores.
Seu pelo escuro brilhava sob a luz do fim da tarde.
Eu não conseguia me mover.
O medo prendia meus pés ao chão.
O lobo caminhou na minha direção.
Um passo.
Depois outro.
E mais outro.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.
Quando chegou perto, ele abaixou a cabeça e farejou o ar ao meu redor.
Por um instante, pensei que fosse me atacar.
Mas não atacou.
Os olhos dourados se fixaram nos meus.
Então ele falou.
— Não gosto do cheiro dele em você.
Meu sangue gelou.
Eu m*l conseguia respirar.
O lobo me observou por mais alguns segundos.
Depois virou as costas.
E simplesmente foi embora.
Desapareceu entre as árvores como se nunca tivesse estado ali.
Foi nesse momento que minhas pernas finalmente voltaram a funcionar.
Saí correndo.
Corri o mais rápido que pude.
Não olhei para trás nenhuma vez.
Quando alcancei a mansão, entrei às pressas e tranquei a porta.
Meu peito subia e descia rapidamente enquanto eu tentava recuperar o fôlego.
A casa estava silenciosa.
Subi as escadas quase correndo.
Passei pelo quarto da minha mãe e encontrei a porta entreaberta.
Ela estava dormindo profundamente.
As olheiras e a expressão cansada deixavam claro que tinha passado o dia inteiro trabalhando.
Por um instante pensei em acordá-la para contar tudo.
Mas parei.
Ela já tinha preocupações demais.
Fechei a porta devagar para não fazer barulho.
Em seguida fui para meu quarto.
Tranquei a porta.
Fechei a janela.
Conferi o trinco duas vezes.
Depois três.
Somente quando tive certeza de que tudo estava fechado me deitei.
Mas o sono demorou a chegar.
Toda vez que fechava os olhos, via os olhos dourados do lobo.
E ouvia sua voz ecoando na minha cabeça.
“Não gosto do cheiro dele em você.”
O que aquilo significava?
E mais importante…
Quem era ele?
Com essas perguntas girando em minha mente, acabei adormecendo, ainda assustada, sem perceber que a floresta lá fora permanecia acordada.