Sete

761 Words
Clara Quando cheguei à escola na manhã seguinte, Ana e Marcus já estavam me esperando perto dos armários. Assim que me viram, os dois perceberam que eu estava diferente. — Tá bom, Clara, desembucha! — Ana cruzou os braços. — O que aconteceu ontem? Olhei para os lados para ter certeza de que ninguém estava ouvindo e contei tudo. Desde o momento em que Noah apareceu na minha porta até a tarde que passamos estudando juntos na casa dele. Também falei sobre a conversa que tivemos, sobre a família dele e sobre como ele parecia muito diferente do garoto popular que todos conheciam. Quando terminei, Marcus praticamente explodiu. — Eu sabia! Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo! — Marcus! — reclamei, sentindo minhas bochechas esquentarem. — O quê? — ele ergueu as mãos. — Eu não te julgo nem um pouco. Se eu tivesse a oportunidade de passar a tarde inteira na casa do Noah, também iria! Ana começou a rir. — Você não está ajudando. Marcus deu de ombros. — Estou sendo sincero. Eu balancei a cabeça, sorrindo. — Às vezes eu esqueço como você é estranho. — Estranho nada. Apenas honesto. Ele fez uma pausa e me encarou. — Espera… você sabe que eu sou gay, né? Eu ri. — Eu já desconfiava. — Desconfiava? — Marcus, você usa mais produtos para o cabelo do que todas as meninas da escola juntas. Ana gargalhou. — Ela tem razão. Marcus fingiu estar ofendido. — Isso se chama autocuidado. Continuamos rindo por vários minutos, e pela primeira vez desde que me mudei para aquela cidade eu senti que realmente pertencia a algum lugar. Antes do sinal tocar, Ana teve uma ideia. — Sexta-feira à noite. Filme na minha casa. — Gostei! — Marcus respondeu imediatamente. — Eu topo — falei. — Perfeito. Então está combinado. Passamos o resto do intervalo conversando sobre qual filme assistir e discutindo qual seria a melhor quantidade de pipoca para três pessoas. Pela primeira vez em semanas, o dia passou rápido. ⸻ Quando as aulas terminaram, comecei o caminho para casa. O sol já estava descendo atrás das árvores, pintando o céu com tons alaranjados. A floresta parecia mais silenciosa do que o normal. Talvez silenciosa demais. Apertei os livros contra o peito e acelerei o passo. Então ouvi um ruído entre os arbustos. Meu coração disparou. Parei imediatamente. As folhas se moveram. E ele apareceu. O lobo. Dessa vez não havia dúvidas. Não era sombra. Não era imaginação. Não era fruto do estresse. Era real. O enorme animal saiu lentamente entre as árvores. Seu pelo escuro brilhava sob a luz do fim da tarde. Eu não conseguia me mover. O medo prendia meus pés ao chão. O lobo caminhou na minha direção. Um passo. Depois outro. E mais outro. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. Quando chegou perto, ele abaixou a cabeça e farejou o ar ao meu redor. Por um instante, pensei que fosse me atacar. Mas não atacou. Os olhos dourados se fixaram nos meus. Então ele falou. — Não gosto do cheiro dele em você. Meu sangue gelou. Eu m*l conseguia respirar. O lobo me observou por mais alguns segundos. Depois virou as costas. E simplesmente foi embora. Desapareceu entre as árvores como se nunca tivesse estado ali. Foi nesse momento que minhas pernas finalmente voltaram a funcionar. Saí correndo. Corri o mais rápido que pude. Não olhei para trás nenhuma vez. Quando alcancei a mansão, entrei às pressas e tranquei a porta. Meu peito subia e descia rapidamente enquanto eu tentava recuperar o fôlego. A casa estava silenciosa. Subi as escadas quase correndo. Passei pelo quarto da minha mãe e encontrei a porta entreaberta. Ela estava dormindo profundamente. As olheiras e a expressão cansada deixavam claro que tinha passado o dia inteiro trabalhando. Por um instante pensei em acordá-la para contar tudo. Mas parei. Ela já tinha preocupações demais. Fechei a porta devagar para não fazer barulho. Em seguida fui para meu quarto. Tranquei a porta. Fechei a janela. Conferi o trinco duas vezes. Depois três. Somente quando tive certeza de que tudo estava fechado me deitei. Mas o sono demorou a chegar. Toda vez que fechava os olhos, via os olhos dourados do lobo. E ouvia sua voz ecoando na minha cabeça. “Não gosto do cheiro dele em você.” O que aquilo significava? E mais importante… Quem era ele? Com essas perguntas girando em minha mente, acabei adormecendo, ainda assustada, sem perceber que a floresta lá fora permanecia acordada.
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