Clara
Quando o último sinal da escola tocou, senti meu coração acelerar sem motivo aparente.
Ou talvez eu soubesse exatamente o motivo.
Desde que aceitei ajudar Noah com matemática, alguma coisa tinha mudado entre nós.
Algo pequeno.
Sutil.
Mas impossível de ignorar.
Assim que atravessei os portões da escola, encontrei Noah me esperando ao lado da moto.
Ele sorriu quando me viu.
E eu odiei perceber que aquele sorriso tinha começado a afetar meu humor.
— Você veio mesmo — ele disse.
— Eu dei minha palavra.
— A maioria das pessoas foge quando descobre quantas dúvidas eu tenho.
— Agora estou começando a entender por quê.
Ele colocou a mão sobre o peito.
— Nossa, isso foi c***l.
— Foi sincero.
— Pior ainda.
Acabei rindo.
Uma risada verdadeira.
Daquelas que eu não dava fazia muito tempo.
Durante o caminho até a casa dele, fiquei observando as ruas passarem enquanto tentava entender por que me sentia tão confortável perto dele.
Eu deveria estar desconfiada.
Ele era popular.
Capitão do time.
Namorado da garota mais influente da escola.
Exatamente o tipo de pessoa que normalmente ignorava garotas como eu.
Mas Noah não parecia agir como os outros.
Quando chegamos à casa dele, fomos para a sala de estudos.
Passei quase uma hora explicando equações, funções e exercícios que ele havia errado na prova.
Para minha surpresa, ele realmente prestava atenção.
Às vezes fazia perguntas inteligentes.
Outras vezes dizia coisas absurdas só para me fazer rir.
— Então o “x” não aparece magicamente porque quer?
— Não.
— Que decepção.
— Você esperava magia na matemática?
— Eu esperava qualquer coisa que evitasse estudar.
— Infelizmente vou acabar com seus sonhos.
— Você destrói todas as minhas ilusões.
Quando terminamos a lista de exercícios, Noah largou o lápis e se recostou na cadeira.
— Obrigado.
— Por explicar?
— Por ter paciência.
— Você não é tão r**m quanto pensa.
— Não estou falando da matéria.
Aquilo me fez levantar os olhos.
Ele me observava.
De verdade.
Como se estivesse tentando me entender.
— Então do que está falando?
— De você ter vindo.
Meu coração vacilou.
Desviei o olhar para o caderno.
— Não foi nada demais.
— Foi para mim.
O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado.
Mas não de um jeito r**m.
— Posso fazer uma pergunta? — ele disse.
— Outra?
— Essa é importante.
Suspirei dramaticamente.
— Tudo bem.
Noah apoiou os braços na mesa.
— Você sente falta da sua antiga vida?
A pergunta me atingiu em cheio.
Por alguns segundos fiquei olhando para as páginas do caderno.
— Todos os dias.
Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
— Dos seus amigos?
— Deles também.
Engoli em seco.
— Principalmente do meu pai.
O ambiente ficou silencioso.
— Você era muito próxima dele?
Sorri tristemente.
— Ele era meu melhor amigo.
Noah não interrompeu.
Não tentou mudar de assunto.
Então continuei.
— Meu pai me levava para tomar sorvete quando eu estava triste.
— Mesmo sem motivo?
— Principalmente sem motivo.
Ele sorriu.
— Parece o tipo de pai legal.
— Ele era.
Meu peito apertou.
— Às vezes ainda pego o celular querendo mandar mensagem para ele.
Minha voz falhou.
— E aí lembro que não posso.
Os olhos de Noah se suavizaram.
— Clara…
— A pior parte não foi perder a casa ou mudar de cidade.
Ele continuou ouvindo.
— Foi perceber que o mundo continua igual para todo mundo.
Uma lágrima quase escapou, mas consegui segurar.
— As pessoas continuam indo para a escola, trabalhando, sorrindo… enquanto você sente que seu mundo acabou.
Noah ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou:
— Eu entendo isso.
Levantei os olhos.
— Entende?
Ele assentiu.
— Não da mesma forma.
Passou a mão pelos cabelos.
— Mas entendo a sensação de estar carregando alguma coisa sozinho.
Foi a primeira vez que vi tristeza em seus olhos.
Uma tristeza real.
Não algo passageiro.
Algo antigo.
— O que você quer dizer?
Ele soltou uma risada amarga.
— Todo mundo acha que minha vida é perfeita.
— Porque você é popular.
— Porque jogo futebol.
— Porque é bonito.
Ele arqueou uma sobrancelha.
Senti minhas bochechas queimarem.
— Você entendeu.
Um sorriso apareceu em seu rosto.
Mas desapareceu rapidamente.
— Ninguém percebe que eu vivo sendo cobrado.
— Por quem?
— Todo mundo.
Ele suspirou.
— Meu pai quer que eu seja o melhor atleta.
— Minha mãe quer que eu tire as melhores notas.
— Os treinadores querem que eu vença.
— Os professores esperam mais porque sou o capitão do time.
Ele abaixou o olhar.
— Às vezes parece que ninguém se importa comigo.
Só com o que eu faço.
Meu coração apertou.
— Isso deve ser horrível.
— É cansativo.
Sua voz saiu baixa.
— Muito cansativo.
Pela primeira vez ele não parecia o garoto confiante da escola.
Parecia apenas um garoto.
Um garoto cansado.
Machucado.
Tentando agradar pessoas que nunca estavam satisfeitas.
— E a Lara? — perguntei.
Ele demorou para responder.
Tempo demais.
— Ela gosta da versão de mim que todo mundo vê.
Meu coração apertou ainda mais.
— E a versão verdadeira?
— Essa não é tão interessante.
Balancei a cabeça imediatamente.
— Não fala isso.
Ele me encarou.
— Por quê?
— Porque não é verdade.
Noah ficou me olhando.
Como se estivesse esperando que eu explicasse.
Respirei fundo.
— A versão verdadeira é a que está aqui agora.
— A que estuda matemática reclamando?
Acabei rindo.
— Também.
Seu sorriso apareceu.
— Mas essa versão é gentil.
Meu coração acelerou.
— É engraçada.
Ele continuou me observando.
— E se preocupa com os outros mais do que admite.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
Então estendi a mão sobre a mesa.
E toquei a dele.
— Você não precisa ser perfeito o tempo todo, Noah.
Sua respiração pareceu falhar.
— Clara…
— Você pode simplesmente ser você.
Os olhos dele permaneceram presos aos meus.
E naquele momento tive certeza de que havia alguma coisa acontecendo entre nós.
Algo que nenhum dos dois estava conseguindo ignorar.
Sua mão apertou a minha suavemente.
Meu coração disparou.
O mundo pareceu desaparecer.
A sala.
Os livros.
Os exercícios.
Tudo.
Restaram apenas aqueles olhos azuis me encarando como se eu fosse a única pessoa no mundo.
Então Noah se aproximou lentamente.
Tão devagar que eu podia sentir minha respiração falhando.
Meu coração batia tão forte que parecia impossível que ele não ouvisse.
E quando seus lábios encontraram os meus, foi como se o tempo inteiro tivesse parado.