Cinco

812 Words
Clara Acordei assustada. Por alguns segundos fiquei encarando o teto escuro do meu quarto, completamente confusa. Meu coração batia rápido e uma sensação estranha apertava meu peito. Como eu tinha ido parar ali? Sentei na cama imediatamente. Ainda estava usando as roupas da escola. A mesma calça jeans. A mesma blusa. Até meus tênis continuavam nos pés. Franzi a testa. A última coisa de que me lembrava era de correr pela floresta. Depois… aqueles olhos vermelhos. O lobo. Meu estômago se revirou. Olhei para minhas roupas e percebi um cheiro adocicado. Refrigerante. Na mesma hora a lembrança de Lara jogando o copo na minha cabeça voltou como um soco. — Que ótimo… — murmurei. Passei a mão pelos cabelos, que ainda estavam levemente grudados. Então uma corrente fria atravessou o quarto. Meu corpo inteiro congelou. A janela. A porta de vidro da varanda estava aberta. Escancarada. Meu coração disparou. Levantei tão rápido que quase tropecei. A imagem daqueles olhos vermelhos voltou à minha mente. Os olhos observando entre as árvores. Os olhos me seguindo. Os olhos que pareciam me enxergar mesmo na escuridão. Corri até a varanda e segurei a maçaneta. Antes de fechar, porém, olhei para fora. A floresta estava lá. Escura. Silenciosa. Imensa. As árvores balançavam suavemente com o vento da madrugada. Era como se a escuridão estivesse me observando de volta. Um arrepio percorreu minha espinha. E então uma percepção horrível me atingiu. Seja lá o que fosse aquela criatura… Ela sabia onde eu morava. Sabia onde eu dormia. Meu peito apertou. Fechei a porta com força e tranquei tudo. Depois conferi a fechadura duas vezes. Três. Quatro. Mesmo assim não me senti segura. Voltei para a cama e puxei as cobertas até o pescoço. Mas dormir era impossível. Cada estalo da casa me fazia prender a respiração. Cada movimento do vento me fazia imaginar aqueles olhos vermelhos me observando do lado de fora. Quando o sol finalmente nasceu, eu já estava acordada havia horas. ⸻ No dia seguinte cheguei à escola parecendo um zumbi. Ana percebeu imediatamente. — Clara, você está horrível. — Obrigada pelo carinho — respondi. — Foi um elogio. — Não foi. Marcos riu. Estávamos sentados em nossa mesa habitual durante o intervalo. Contei sobre a noite m*l dormida, mas omiti a parte dos olhos vermelhos. Eu já parecia louca o suficiente. Foi então que vi Lara atravessando o corredor. Ela passou por nós cercada pelas outras líderes de torcida. Quando seus olhos encontraram os meus, ela lançou um olhar mortal. Daqueles capazes de congelar qualquer pessoa. — Nossa… — Marcos comentou. — Ela ainda está brava. — Ainda? — falei. — Parece que ela quer me enterrar viva. Ana cruzou os braços. — Sinceramente? Se eu fosse você, daria o troco. — Como? — Aceitando dar reforço para o Noah. Quase engasguei. — O quê? — Ela morre de ciúmes dele. — Ana! — Estou falando sério. Marcos apontou para mim. — Pela primeira vez na vida eu concordo com ela. — Vocês dois são péssimas influências. — Somos excelentes influências — Ana corrigiu. — E você ainda ajuda alguém a passar em matemática. Balancei a cabeça. Mas a verdade era que eu já tinha tomado minha decisão. Noah realmente precisava de ajuda. E, apesar de tudo, ele tinha sido gentil comigo. Mais gentil do que a maioria das pessoas naquela escola. ⸻ A aula de matemática começou logo depois do intervalo. Eu estava organizando meus materiais quando alguém puxou a cadeira ao meu lado. Nem precisei olhar para saber quem era. O perfume familiar confirmou. Noah. — Então? — ele perguntou, sentando-se. — Já decidiu? Levantei os olhos do caderno. Os dele estavam cheios de expectativa. Respirei fundo. — Decidi. — E? — Vou te dar aulas de reforço. Um sorriso enorme surgiu em seu rosto. E por um instante fiquei surpresa com o quanto aquele sorriso o deixava bonito. — Sério? — Sério. — Você acabou de salvar minha carreira esportiva. Soltei uma risada. — Não exagera. — Não estou exagerando. Se eu reprovar, fico fora do time. — Então é melhor estudar. — Sim, professora. Revirei os olhos. — Não me chama assim. — Tudo bem, professora Clara. — Noah. Ele riu. Aquele sorriso divertido voltou a aparecer. — Então nos encontramos depois da aula? Assenti. — Depois da aula. — Perfeito. Ele parecia genuinamente feliz. E, por algum motivo, aquilo fez meu coração acelerar um pouco. Talvez porque fosse a primeira vez desde que cheguei àquela cidade que alguém parecia realmente feliz por passar tempo comigo. Mas enquanto Noah voltava sua atenção para a professora, não consegui evitar olhar pela janela. Lá longe. Além dos prédios da escola. Além das ruas da cidade. A floresta podia ser vista no horizonte. Escura. Silenciosa. Esperando. E uma sensação estranha me disse que aquela história com os olhos vermelhos estava longe de terminar.
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