Clara
Acordei assustada.
Por alguns segundos fiquei encarando o teto escuro do meu quarto, completamente confusa. Meu coração batia rápido e uma sensação estranha apertava meu peito.
Como eu tinha ido parar ali?
Sentei na cama imediatamente.
Ainda estava usando as roupas da escola.
A mesma calça jeans.
A mesma blusa.
Até meus tênis continuavam nos pés.
Franzi a testa.
A última coisa de que me lembrava era de correr pela floresta. Depois… aqueles olhos vermelhos.
O lobo.
Meu estômago se revirou.
Olhei para minhas roupas e percebi um cheiro adocicado.
Refrigerante.
Na mesma hora a lembrança de Lara jogando o copo na minha cabeça voltou como um soco.
— Que ótimo… — murmurei.
Passei a mão pelos cabelos, que ainda estavam levemente grudados.
Então uma corrente fria atravessou o quarto.
Meu corpo inteiro congelou.
A janela.
A porta de vidro da varanda estava aberta.
Escancarada.
Meu coração disparou.
Levantei tão rápido que quase tropecei.
A imagem daqueles olhos vermelhos voltou à minha mente.
Os olhos observando entre as árvores.
Os olhos me seguindo.
Os olhos que pareciam me enxergar mesmo na escuridão.
Corri até a varanda e segurei a maçaneta.
Antes de fechar, porém, olhei para fora.
A floresta estava lá.
Escura.
Silenciosa.
Imensa.
As árvores balançavam suavemente com o vento da madrugada.
Era como se a escuridão estivesse me observando de volta.
Um arrepio percorreu minha espinha.
E então uma percepção horrível me atingiu.
Seja lá o que fosse aquela criatura…
Ela sabia onde eu morava.
Sabia onde eu dormia.
Meu peito apertou.
Fechei a porta com força e tranquei tudo.
Depois conferi a fechadura duas vezes.
Três.
Quatro.
Mesmo assim não me senti segura.
Voltei para a cama e puxei as cobertas até o pescoço.
Mas dormir era impossível.
Cada estalo da casa me fazia prender a respiração.
Cada movimento do vento me fazia imaginar aqueles olhos vermelhos me observando do lado de fora.
Quando o sol finalmente nasceu, eu já estava acordada havia horas.
⸻
No dia seguinte cheguei à escola parecendo um zumbi.
Ana percebeu imediatamente.
— Clara, você está horrível.
— Obrigada pelo carinho — respondi.
— Foi um elogio.
— Não foi.
Marcos riu.
Estávamos sentados em nossa mesa habitual durante o intervalo.
Contei sobre a noite m*l dormida, mas omiti a parte dos olhos vermelhos.
Eu já parecia louca o suficiente.
Foi então que vi Lara atravessando o corredor.
Ela passou por nós cercada pelas outras líderes de torcida.
Quando seus olhos encontraram os meus, ela lançou um olhar mortal.
Daqueles capazes de congelar qualquer pessoa.
— Nossa… — Marcos comentou. — Ela ainda está brava.
— Ainda? — falei. — Parece que ela quer me enterrar viva.
Ana cruzou os braços.
— Sinceramente? Se eu fosse você, daria o troco.
— Como?
— Aceitando dar reforço para o Noah.
Quase engasguei.
— O quê?
— Ela morre de ciúmes dele.
— Ana!
— Estou falando sério.
Marcos apontou para mim.
— Pela primeira vez na vida eu concordo com ela.
— Vocês dois são péssimas influências.
— Somos excelentes influências — Ana corrigiu. — E você ainda ajuda alguém a passar em matemática.
Balancei a cabeça.
Mas a verdade era que eu já tinha tomado minha decisão.
Noah realmente precisava de ajuda.
E, apesar de tudo, ele tinha sido gentil comigo.
Mais gentil do que a maioria das pessoas naquela escola.
⸻
A aula de matemática começou logo depois do intervalo.
Eu estava organizando meus materiais quando alguém puxou a cadeira ao meu lado.
Nem precisei olhar para saber quem era.
O perfume familiar confirmou.
Noah.
— Então? — ele perguntou, sentando-se. — Já decidiu?
Levantei os olhos do caderno.
Os dele estavam cheios de expectativa.
Respirei fundo.
— Decidi.
— E?
— Vou te dar aulas de reforço.
Um sorriso enorme surgiu em seu rosto.
E por um instante fiquei surpresa com o quanto aquele sorriso o deixava bonito.
— Sério?
— Sério.
— Você acabou de salvar minha carreira esportiva.
Soltei uma risada.
— Não exagera.
— Não estou exagerando. Se eu reprovar, fico fora do time.
— Então é melhor estudar.
— Sim, professora.
Revirei os olhos.
— Não me chama assim.
— Tudo bem, professora Clara.
— Noah.
Ele riu.
Aquele sorriso divertido voltou a aparecer.
— Então nos encontramos depois da aula?
Assenti.
— Depois da aula.
— Perfeito.
Ele parecia genuinamente feliz.
E, por algum motivo, aquilo fez meu coração acelerar um pouco.
Talvez porque fosse a primeira vez desde que cheguei àquela cidade que alguém parecia realmente feliz por passar tempo comigo.
Mas enquanto Noah voltava sua atenção para a professora, não consegui evitar olhar pela janela.
Lá longe.
Além dos prédios da escola.
Além das ruas da cidade.
A floresta podia ser vista no horizonte.
Escura.
Silenciosa.
Esperando.
E uma sensação estranha me disse que aquela história com os olhos vermelhos estava longe de terminar.