Clara
Eu já estava colocando meus livros dentro da mochila quando senti duas mãos me puxando pelos braços.
— Nem pensar! — Ana declarou.
— Você vai ao jogo com a gente. — Marcos completou.
— Não vou, não.
— Vai sim.
— Não.
— Vai.
— Não.
— Vai.
Revirei os olhos.
— Vocês são insuportáveis.
Ana abriu um sorriso vitorioso.
— Obrigada.
Antes que eu pudesse inventar outra desculpa, os dois já estavam me arrastando pelo corredor da escola.
Eu não gostava de jogos de futebol americano.
Não gostava da multidão.
Não gostava das líderes de torcida.
E definitivamente não gostava da possibilidade de encontrar Noah.
Mas meus amigos pareciam determinados a me fazer sair um pouco da minha rotina.
Pouco tempo depois, estávamos sentados nas arquibancadas do estádio da escola.
As luzes enormes iluminavam o campo.
A banda tocava músicas agitadas.
Os estudantes gritavam.
As líderes de torcida faziam apresentações perfeitamente sincronizadas na lateral do gramado.
Os uniformes vermelhos e dourados brilhavam sob os refletores.
Pareciam ter saído de uma propaganda.
Lara estava entre elas.
Bonita.
Popular.
Perfeita.
Exatamente o tipo de garota que me fazia querer desaparecer no meio da multidão.
Meu olhar foi involuntariamente para o campo.
E lá estava Noah.
Seu uniforme azul escuro parecia feito sob medida.
Ele corria de um lado para outro dando instruções ao time.
Os garotos o ouviam imediatamente.
Era impossível não perceber que ele era o líder.
Quando o jogo começou, a torcida explodiu.
Os jogadores colidiam uns contra os outros.
A bola voava.
As arquibancadas tremiam com os gritos.
Mesmo sem querer admitir, eu comecei a prestar atenção.
Noah era rápido.
Muito rápido.
Em uma das jogadas ele atravessou quase metade do campo carregando a bola.
O estádio inteiro se levantou.
Quando ele marcou o touchdown decisivo, a multidão foi à loucura.
As líderes de torcida começaram a comemorar.
A banda tocou ainda mais alto.
Ana e Marcos gritavam ao meu lado.
E eu…
Eu simplesmente observava.
Talvez porque fosse difícil ignorar alguém que parecia atrair toda a atenção do lugar.
Depois que o jogo terminou, comecei a recolher minhas coisas.
— Vamos esperar a multidão diminuir — disse Marcos.
Suspirei.
Era o que faltava.
Alguns minutos depois, Ana e Marcos foram procurar algo para comer.
Eu fiquei sozinha perto das arquibancadas.
Grande erro.
— Então você veio.
Meu coração quase saiu pela boca.
Virei imediatamente.
Noah.
Ainda usando o uniforme.
Algumas gotas de suor escorriam pelo rosto.
Os cabelos estavam bagunçados.
E aquele sorriso arrogante continuava exatamente igual.
— Oi.
— Você veio me ver jogar, né?
Quase engasguei.
— Claro que não.
Ele riu.
— Então por que estava me olhando o tempo inteiro?
— Eu não estava olhando você.
— Estava sim.
— Não estava.
— Estava.
Cruzei os braços.
— Você é impossível.
— E você é péssima mentirosa.
Antes que eu pudesse responder, uma voz cortou o ar.
— Noah!
Meu estômago afundou.
Lara.
Ela caminhava em nossa direção com expressão furiosa.
Os olhos dela foram de Noah para mim.
E então para Noah novamente.
— O que está acontecendo aqui?
— Nada — Noah respondeu.
— Nada?
Ela segurava um copo enorme de refrigerante.
E antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo…
Ela jogou tudo em mim.
O líquido gelado atingiu meu rosto, meu cabelo e minha roupa.
As pessoas ao redor ficaram em silêncio.
Por um segundo, ninguém se moveu.
Eu também não.
Fiquei parada.
Congelada.
Humilhada.
Sentindo o refrigerante escorrer pela minha testa.
Pelo meu pescoço.
Pelas minhas roupas.
— Lara! — Noah gritou.
Mas eu já não conseguia ouvir direito.
Meu rosto queimava.
As lágrimas ameaçavam aparecer.
E eu me recusava a chorar ali.
Na frente de todo mundo.
Na frente dele.
Então simplesmente virei as costas e saí correndo.
Ouvi vozes atrás de mim.
Ouvi Noah discutindo com Lara.
Ouvi gritos.
Mas não parei.
Continuei correndo.
Correndo.
Correndo.
Até deixar a escola para trás.
Quando percebi, já estava na trilha da floresta.
A mesma floresta que separava a mansão da cidade.
O céu estava completamente escuro.
As árvores pareciam gigantes observando cada passo meu.
O vento balançava os galhos.
E tudo que eu conseguia pensar era na humilhação que tinha acabado de sofrer.
As lágrimas finalmente começaram a cair.
— i****a… — murmurei para mim mesma.
Não sabia se estava falando de Lara.
De Noah.
Ou de mim.
Eu corria sem prestar atenção no caminho.
Até que meu pé prendeu em uma raiz.
Tudo aconteceu rápido.
Caí com força no chão.
A dor atravessou meu joelho.
Minha lanterna escapou da mão e rolou para longe.
— Droga…
Levantei a cabeça.
Foi então que vi.
Dois pontos vermelhos.
Brilhando entre as árvores.
Meu corpo inteiro congelou.
Os olhos.
Os mesmos olhos.
Os olhos que eu tinha visto uma semana atrás.
Meu coração começou a disparar.
Os pontos vermelhos se moveram.
Lentamente.
Aproximando-se.
Uma sombra enorme surgiu entre os troncos.
Meu ar desapareceu.
A criatura avançou mais um passo.
E mais outro.
Até que a luz fraca da lua revelou sua forma.
Um lobo.
Mas não um lobo comum.
Era gigantesco.
Muito maior do que qualquer animal que eu já tinha visto.
Sua pelagem era n***a como a noite.
Os músculos se moviam sob o pelo escuro.
E aqueles olhos vermelhos permaneciam fixos em mim.
Observando.
Analisando.
Esperando.
Eu não conseguia respirar.
Não conseguia me mover.
Não conseguia sequer gritar.
Porque, naquele instante, eu tinha certeza de uma coisa.
A criatura que estava diante de mim não era um animal comum.
E ela tinha me encontrado.