Três

1013 Words
Clara Eu estava tão concentrada na atividade de matemática que nem percebi quando a professora começou a caminhar entre as fileiras com uma pilha de provas nas mãos. Meu lápis corria pelo caderno enquanto eu resolvia os últimos exercícios. Aquela era uma das poucas coisas que me faziam esquecer dos problemas por alguns minutos. Quando eu estudava, o resto do mundo parecia desaparecer. — Clara. Levantei a cabeça. A professora sorriu para mim e colocou a prova sobre a minha mesa. — Mais uma vez, nota dez. Parabéns. Alguns alunos se viraram para olhar. Meu rosto ficou quente imediatamente. — Obrigada, professora. Ela continuou distribuindo as provas enquanto eu observava o enorme número vermelho no topo da folha. Pelo menos em alguma coisa eu estava conseguindo acertar. Desde que me mudara para aquela cidade, tudo parecia estar dando errado. Eu sentia falta de Seattle. Sentia falta dos meus antigos amigos. Sentia falta da minha antiga casa. Sentia falta do meu pai. Engoli o aperto que surgiu no peito e voltei a olhar para o caderno. Foi então que uma cadeira arrastou ao meu lado. Meu corpo inteiro ficou tenso. Eu nem precisava olhar para saber quem era. Noah. Meu coração decidiu bater mais rápido por conta própria. Mantive os olhos fixos no caderno. Talvez, se eu fingisse estar muito ocupada, ele fosse embora. — Então é verdade. Sua voz tinha aquele tom divertido que sempre me deixava nervosa. Continuei escrevendo. — O quê? — Você é um gênio. Revirei os olhos. — Tirar dez numa prova não me transforma em um gênio. — Pra mim transforma. Tentei ignorá-lo. Sem sucesso. — O que você quer, Noah? — Ajuda. Aquilo me fez erguer a cabeça. — Ajuda? Ele colocou a própria prova sobre minha mesa. A nota era tão baixa que quase me fez rir. — Nossa. — Eu sei. — Isso é péssimo. — Eu sei duas vezes. Acabei soltando uma risada. Ele sorriu imediatamente, como se tivesse acabado de vencer alguma competição. — Preciso passar nessa matéria. — Então estude. — É exatamente por isso que estou aqui. — Tem livros para isso. — Livros não explicam tão bem quanto você. Cruzei os braços. — E por que sua namorada não ajuda? A pergunta saiu antes que eu pudesse impedir. Noah soltou uma gargalhada. — Porque ela é pior que eu. — Sério? — Muito pior. Ele apoiou o queixo na mão. — Vai, Clara. Me ajuda. — Não sei. — Por favor. — Você consegue encontrar outra pessoa. — Não quero outra pessoa. Meu coração deu um salto. Ele continuou: — Você é a melhor da turma. Respirei aliviada. Claro. Era isso que ele queria dizer. — Preciso continuar jogando — explicou. — Se minhas notas continuarem assim, vou ser suspenso do time. Aquilo chamou minha atenção. Eu já tinha ouvido metade da escola falar sobre Noah e futebol americano. — Então isso é tão importante assim? — Muito. Ele fez uma expressão dramática. — Minha vida depende disso. — Exagerado. — Talvez. Sorri sem querer. Ele apontou para mim imediatamente. — Você sorriu. — E daí? — Isso significa que está considerando me ajudar. — Eu disse que vou pensar. — Ótimo. Vou considerar isso um sim. — Não considere. — Tarde demais. Balancei a cabeça. Era impossível conversar com Noah sem acabar sorrindo. — Já que você vai ser minha professora particular… — Eu não disse isso. — Você deveria vir ao jogo hoje. Pisquei. — Ao jogo? — Sim. — Eu não gosto de futebol. — Isso porque nunca me viu jogar. — Convencido. — Apenas sincero. Revirei os olhos novamente. Mas, para minha surpresa, acabei concordando. Talvez por curiosidade. Talvez porque Noah parecia genuinamente animado com a ideia. Ou talvez porque eu gostasse mais da companhia dele do que deveria. O sorriso dele aumentou. — Então você vai? — Talvez. — Isso também é um sim. — Não é. — É sim. Antes que eu pudesse responder, um movimento na porta da sala chamou minha atenção. Meu sorriso desapareceu. A namorada dele estava parada ali. Loira. Bonita. Perfeita. E me encarando como se eu tivesse cometido algum crime. Se olhares pudessem matar, eu provavelmente cairia morta ali mesmo. Ela observava Noah inclinado sobre minha mesa. Observava nós dois conversando. Observava meu sorriso. E claramente não estava gostando de nada daquilo. Meu estômago afundou. Levantei tão rápido que a cadeira quase caiu. — Eu preciso ir. Noah franziu a testa. — Mas a aula ainda não acabou. — Eu… tenho coisas para fazer. Peguei meus materiais às pressas. Quando passei pela porta, senti o olhar daquela garota me acompanhando. Meu coração continuou acelerado pelo resto do dia. ⸻ Quando as aulas terminaram, comecei o caminho de volta para casa. A floresta parecia mais silenciosa do que de costume. O vento balançava os galhos acima da minha cabeça. As sombras dançavam entre as árvores. E, pela primeira vez em uma semana, eu me peguei procurando alguma coisa. Ou alguém. Meus olhos vasculharam o meio da mata. Entre os troncos. Entre os arbustos. Entre os espaços escuros onde eu tinha visto aqueles olhos vermelhos. Nada. Absolutamente nada. Continuei andando. Tentando ignorar a sensação estranha dentro de mim. Durante dias eu tinha tido medo. Medo de encontrar aqueles olhos novamente. Medo de descobrir que eram reais. Medo de descobrir que não eram. Mas agora… Agora que eles não estavam lá… Uma sensação inesperada surgiu. Decepção. Parei por um instante. Isso era ridículo. Eu deveria estar feliz. Deveria sentir alívio. Afinal, aqueles olhos tinham me assustado até perder o sono. Então por que parecia que algo estava faltando? Por que eu continuava olhando para trás? Por que uma parte de mim esperava vê-los surgindo da escuridão? Balancei a cabeça. Talvez eu estivesse ficando maluca. Talvez fosse apenas curiosidade. Ou talvez aquela floresta guardasse segredos demais para alguém simplesmente esquecer. Apertei o casaco contra o corpo e continuei caminhando. Sem perceber que, muito longe dali, escondido entre as árvores mais profundas da floresta… Algo observava. Esperando o momento certo para voltar a aparecer.
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