Dois

1078 Words
O caminho até a escola parecia ainda mais longo naquela manhã. Enquanto caminhava pela calçada, apertando as alças da mochila contra os ombros, eu observava as ruas tranquilas daquela cidade que ainda não conseguia chamar de lar. Fazia algumas semanas que eu e minha mãe tínhamos nos mudado para ali, mas tudo continuava parecendo estranho. As pessoas, as casas, a escola… nada se encaixava. Às vezes eu sentia tanta falta de Seattle que chegava a doer. Lá eu tinha amigos, tinha lembranças felizes e, principalmente, tinha meu pai. Engoli o nó que se formou na garganta. Ainda era difícil acreditar que ele realmente tinha partido. Meu pai era o tipo de pessoa que iluminava qualquer lugar. Ele sempre sabia o que dizer quando eu estava triste, sempre me fazia rir quando tudo parecia dar errado. Agora, sem ele, o mundo parecia muito mais cinza. Ao chegar à escola, tentei passar despercebida pelos corredores, mas isso era praticamente impossível. — Olha só quem chegou… a garota da floresta assombrada. Reconheci a voz imediatamente. Lara. A capitã das líderes de torcida. Ela estava encostada em um armário cercada pelas amigas, todas impecavelmente arrumadas e usando aqueles sorrisos falsos que eu já tinha aprendido a odiar. — Será que ela tomou banho hoje? — uma delas perguntou. As outras começaram a rir. — Cuidado para ela não trazer algum fantasma da floresta para dentro da escola — disse outra. Mais gargalhadas. Senti meu rosto esquentar. Eu queria responder. Queria dizer que elas não me conheciam. Queria dizer que eu não tinha feito nada para merecer aquilo. Mas permaneci em silêncio. Era mais fácil assim. Abaixei a cabeça e continuei andando. — Ei, Clara! A voz familiar me fez parar. Ana surgiu correndo pelo corredor com vários livros nos braços. Atrás dela vinha Marcos, carregando uma mochila tão cheia que parecia pesar mais do que ele. — Espera a gente! — Ana reclamou. Um sorriso surgiu no meu rosto pela primeira vez naquele dia. Ana e Marcos eram os únicos amigos que eu tinha conseguido fazer naquela escola. Eles eram inteligentes, engraçados e não pareciam se importar com a opinião dos populares. — As hienas atacaram de novo? — Marcos perguntou olhando para o grupo de líderes de torcida. — Como sempre — respondi. — Um dia elas vão perceber que o ensino médio não é um reality show — ele resmungou. Ana revirou os olhos. — Não vão, Marcos. Eu ri baixinho. Por alguns segundos, me senti um pouco melhor. Mas a sensação desapareceu rapidamente. Enquanto caminhávamos para a sala, minha mente voltou para minha antiga escola. Eu me lembrava dos corredores cheios de rostos conhecidos. Dos almoços com meus amigos. Das brincadeiras. Das tardes em que meu pai me buscava e perguntava como tinha sido meu dia. Naquela época eu era feliz. Agora parecia que aquela garota tinha ficado presa em outra vida. E eu jamais contaria isso para minha mãe. Ela já sofria demais. Todas as noites eu a escutava chorando baixinho no quarto. Às vezes eu a encontrava olhando fotografias antigas dela e do meu pai. Eu sabia que ela estava tentando ser forte por mim. Então eu também precisava ser forte por ela. Mesmo que isso significasse guardar toda a minha dor para mim. As aulas passaram lentamente. Entre exercícios de matemática, trabalhos em grupo e explicações intermináveis dos professores, meus pensamentos voltavam constantemente para a floresta. Já fazia uma semana desde aquela noite. Uma semana desde que eu tinha visto aqueles olhos vermelhos brilhando entre as árvores. Talvez eu realmente estivesse imaginando coisas. Talvez o estresse da mudança estivesse mexendo comigo. Talvez fosse apenas algum animal. Quanto mais os dias passavam sem que nada estranho acontecesse, mais eu começava a acreditar nisso. Quando o sinal finalmente anunciou o fim das aulas, peguei minhas coisas rapidamente. Eu queria sair dali antes que Lara encontrasse um novo motivo para me atormentar. Enfiei os livros na mochila e corri para o corredor. Foi quando esbarrei em alguém. Os livros escaparam dos meus braços e se espalharam pelo chão. — Ah, não! Ajoelhei imediatamente. — Desculpa, eu não vi você. — A culpa foi minha. A voz masculina fez meu coração acelerar sem motivo. Levantei os olhos. E quase esqueci como respirar. Era Noah. O quarterback do time da escola. O garoto mais popular do colégio. E, sem dúvida, o mais bonito. Os cabelos castanhos caíam levemente sobre a testa e os olhos claros brilhavam enquanto ele recolhia meus livros. — Aqui. Ele me entregou um deles. — Obrigada. — Você está bem? — Estou. Na verdade, não estava. Mas consegui responder mesmo assim. Por um segundo, nossos olhares se encontraram. Então uma voz aguda ecoou pelo corredor. — Noah! Lara. Claro que era Lara. Ela surgiu praticamente do nada e passou um braço pelo dele. Seu olhar caiu sobre mim. E imediatamente seu rosto se transformou em uma expressão de puro desgosto. Como se eu fosse algo nojento preso na sola do sapato dela. — Vamos? — ela perguntou para Noah. Ele pareceu desconfortável. — Sim. Antes de ir embora, ele me lançou um pequeno sorriso. Mas Lara continuou me encarando. Fria. Hostil. Ciumenta. Então ela virou as costas e saiu puxando Noah pelo corredor. Fiquei observando os dois se afastarem. — Bem… Virei-me e encontrei Ana parada atrás de mim. Ela tinha um sorriso divertido estampado no rosto. — Agora é oficial. — O quê? Ana cruzou os braços. — A Lara te odeia. — Ela já me odiava antes. — Não assim. — Como assim? Ana apontou discretamente para o corredor. — Porque antes você era só a garota nova. Ela fez uma pausa dramática. — Agora você é a garota nova que chamou a atenção do namorado dela. Meu rosto ficou vermelho instantaneamente. — O quê? Não chamou! Marcos apareceu ao lado dela. — Chamou sim. — Não chamou! — Chamou. — Não chamou! Ana começou a rir. — Clara, ele literalmente parou o corredor inteiro para ajudar você. — Porque foi educado! — E isso já é mais atenção do que ele dá para noventa por cento da escola — respondeu Marcos. Eu balancei a cabeça e comecei a andar. Mas, pela primeira vez desde que cheguei naquela cidade, uma pequena parte de mim não conseguia parar de pensar no sorriso que Noah tinha me dado. E eu não fazia ideia de que aquele simples encontro mudaria muito mais do que apenas minha vida escolar.
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