Onze

1249 Words
Clara. Eu não sabia exatamente quando aquilo tinha acontecido. Talvez tivesse sido aos poucos, como uma corda sendo puxada até arrebentar. Talvez tivesse sido no dia em que Lara jogou refrigerante na minha cabeça. Ou quando espalhou boatos sobre mim pela escola inteira. Ou quando suas amigas começaram a esconder meus materiais, rasgar minhas anotações e rir toda vez que eu passava pelos corredores. O fato era que eu estava cansada. Cansada de abaixar a cabeça. Cansada de fingir que não me importava. Cansada de me sentir sozinha. Naquela manhã, eu já acordei com um peso estranho no peito. Minha mãe havia saído cedo para resolver algumas coisas da mudança, e eu fui para a escola caminhando pela floresta como fazia todos os dias. O céu estava cinzento. Parecia combinar perfeitamente com meu humor. Quando cheguei à escola, ouvi algumas risadas antes mesmo de entrar. — Olha quem chegou. — A garota esquisita. — Cuidado, ela pode começar a falar com árvores. Mais risadas. Ignorei. Pelo menos tentei. Passei por elas sem responder. Eu costumava ser mais forte. Ou pelo menos achava que era. Mas existia uma diferença enorme entre sofrer uma brincadeira ocasional e ser humilhada todos os dias. Entrei na sala e sentei no meu lugar. Ana e Marcos chegaram alguns minutos depois. — Você está bem? — Ana perguntou. — Estou. Ela arqueou uma sobrancelha. — Mentira. Forcei um sorriso. — Só estou cansada. Porque era mais fácil dizer isso do que admitir que eu estava começando a odiar vir para a escola. As aulas passaram devagar. No intervalo, fiquei na biblioteca. Era o único lugar onde eu conseguia respirar. Ou pelo menos deveria ser. Eu estava guardando alguns livros quando ouvi uma voz atrás de mim. — Clara. Meu corpo inteiro ficou tenso. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Noah. Fechei os olhos por um segundo. Quando me virei, ele estava parado perto da estante. As mãos nos bolsos. O uniforme perfeitamente alinhado. O sorriso que costumava fazer metade das garotas da escola suspirarem. Mas não eu. Não mais. — O que você quer? — perguntei. Ele pareceu incomodado com meu tom. — Conversar. — Não temos nada para conversar. — Clara… — Não. Tentei passar por ele. Mas Noah deu um passo para o lado, bloqueando meu caminho. Meu estômago revirou. — Por que você continua fazendo isso? — Fazendo o quê? — Me evitando. Eu ri. Uma risada amarga. — Você está falando sério? — Estou. — Sua namorada transforma minha vida num inferno. — Lara exagera às vezes. — Exagera? Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Ela me humilha todos os dias. Ele desviou os olhos. E aquilo me irritou ainda mais. — Então faz alguma coisa. — Não é tão simples. — É exatamente simples. Meu coração acelerava. Toda a raiva que eu vinha guardando começou a sair. — Se afasta de mim. Ele me encarou. — O quê? — Você ouviu. — Clara… — Se afasta de mim e pede para sua namorada fazer o mesmo. Por um momento, o silêncio tomou conta da biblioteca. Os olhos dele escureceram. E algo em sua expressão mudou. Algo que eu não gostei nem um pouco. — Não. Fiquei surpresa. — Não? — Eu não vou me afastar de você. Meu sangue gelou. — Você não decide isso. — Decido sim. — Não, Noah. Dei outro passo para trás. — Eu não quero sua amizade. Ele apertou a mandíbula. — Você está dizendo isso porque está brava. — Estou dizendo porque é verdade. O olhar dele ficou duro. Muito duro. Como se estivesse acostumado a conseguir tudo o que queria. Como se nunca tivesse ouvido um não. — Você vai mudar de ideia. — Não vou. — Vai. — Não. A tensão entre nós aumentou. Então ele segurou meu braço. Foi rápido. Mas foi suficiente. Meu coração disparou. Eu puxei imediatamente. — Me solta. Ele apertou por um segundo. — Escuta… — Me solta! Consegui me desvencilhar. Meu braço ardia. Noah pareceu irritado. Não arrependido. Irritado. — Você está tornando isso mais difícil do que precisa ser. — Você enlouqueceu? — Eu só quero que você pense. — Pensar no quê? — Em mim. Aquilo foi a gota d’água. — Você tem namorada. — Isso não importa. — Importa para mim. Ele respirou fundo. Os olhos fixos nos meus. E então falou numa voz fria que eu nunca tinha ouvido antes. — Vou te dar um tempo. Um arrepio percorreu minha espinha. — O quê? — Você vai pensar. — Não. — E quando decidir parar de fugir de mim, conversamos. — Eu já decidi. — Então decide de novo. Senti um nó se formar na garganta. Aquilo estava errado. Muito errado. — Se afasta de mim. Ele ficou em silêncio. Depois sorriu. Mas não era um sorriso gentil. — Você tem um tempo para pensar, Clara. Meu coração disparou ainda mais. — E se eu não aceitar? A resposta veio sem hesitação. — Vai ser pior. O mundo pareceu parar. Por um segundo, eu não consegui acreditar no que estava ouvindo. Aquele era o Noah? O garoto que todos admiravam? O garoto perfeito da escola? Porque o rapaz parado na minha frente parecia um completo estranho. Eu o encarei. E pela primeira vez senti medo dele. Não respondi. Apenas virei as costas e fui embora. ⸻ Mais tarde, durante o almoço, o pátio estava lotado. Centenas de alunos conversavam. Riam. Viviam suas vidas normalmente. Como se meu mundo não estivesse desmoronando. Eu estava passando perto das mesas quando ouvi a voz de Lara. — Ei, esquisita! Fechei os olhos. Não. Não hoje. Por favor. Não hoje. Continuei andando. — Estou falando com você! As amigas dela começaram a rir. Eu parei. Lentamente. Lara estava cercada pelas líderes de torcida. E ao lado dela… Noah. Meu estômago afundou. Lara cruzou os braços. — Você realmente acha que alguém gosta de você aqui? Mais risadas. — Coitada. — Deve ser triste ser tão patética. — Talvez seja por isso que ninguém suporta ficar perto dela. Meu rosto queimava. Eu queria desaparecer. Queria correr. Queria voltar para minha antiga escola. Para minha antiga vida. Para quando meu pai ainda estava vivo. Lara continuava falando. Cada palavra era uma facada. E eu olhei para Noah. Esperando. Esperando que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Esperando que ele a mandasse parar. Esperando que ele mostrasse que ainda existia algum traço de humanidade dentro dele. Mas ele não fez nada. Absolutamente nada. Ficou apenas observando. Então eu percebi. O canto da boca dele estava erguido. Ele estava sorrindo. Não um sorriso grande. Não uma gargalhada. Mas um sorriso. Como se estivesse gostando daquilo. Como se estivesse satisfeito. Como se estivesse me vendo sofrer e não se importasse. Meu coração se partiu naquele instante. Porque finalmente eu entendi. Noah não era diferente de Lara. Talvez nunca tivesse sido. Talvez eu tivesse sido ingênua. Talvez tivesse enxergado algo que nunca existiu. Eu senti as lágrimas queimarem meus olhos. Mas me recusei a chorar na frente deles. Então ergui a cabeça. Olhei diretamente para Noah. E vi seu sorriso desaparecer por um segundo. Como se ele não esperasse aquilo. Como se não esperasse que eu continuasse de pé. Sem dizer uma única palavra, virei as costas. E fui embora. Mas enquanto me afastava, uma certeza crescia dentro de mim. Eu estava cansada de ser a vítima. E mais cedo ou mais tarde… Eles iriam descobrir isso.
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