Acordei antes mesmo do despertador tocar.
Por alguns segundos, fiquei olhando para o teto do meu quarto, tentando reunir coragem para enfrentar mais um dia naquela escola.
Mais um dia de olhares tortos.
Mais um dia de risadas pelas minhas costas.
Mais um dia fingindo que nada me machucava.
Soltei um suspiro longo e me sentei na cama.
A imagem de Lara e das líderes de torcida voltou imediatamente à minha mente. As provocações estavam ficando cada vez piores. Não era mais apenas uma piada aqui e outra ali. Parecia que elas tinham transformado a minha existência em um passatempo.
Eu estava cansada.
Muito cansada.
Talvez cansada demais.
Troquei de roupa lentamente e desci as escadas.
O cheiro de café fresco tomou conta das minhas narinas.
Estranhei.
Normalmente minha mãe saía cedo para trabalhar e o café era algo simples, preparado às pressas.
Quando entrei na cozinha, encontrei uma mulher que eu nunca tinha visto antes organizando a mesa.
Ela colocou frutas em uma bandeja e ajeitou algumas torradas.
Pisquei algumas vezes.
— Ah… bom dia?
A mulher sorriu.
— Bom dia, Clara.
Antes que eu pudesse perguntar quem ela era, minha mãe apareceu.
— Ela é a dona Marta. Vai me ajudar com algumas coisas da casa.
— Você contratou alguém?
— Contratei.
Minha mãe parecia cansada.
Os últimos meses tinham sido difíceis para nós duas.
Desde a morte do meu pai, ela vinha trabalhando mais do que deveria.
Talvez aquilo fosse uma tentativa de aliviar um pouco o próprio peso que carregava.
Sentei-me à mesa.
Ela percebeu imediatamente que eu não estava bem.
— Dormiu m*l de novo?
Baixei os olhos para minha caneca.
— Mãe…
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Sim?
Respirei fundo.
— Eu queria mudar de escola.
O silêncio que veio depois foi quase doloroso.
Minha mãe apoiou a xícara na mesa.
— Clara…
— Eu estou falando sério.
Ela me observou por alguns segundos.
— Aconteceu alguma coisa?
Eu quase contei.
Quase.
Quase falei das humilhações.
Das mensagens anônimas.
Dos apelidos.
Das gargalhadas.
Das pessoas filmando quando eu passava.
Mas eu não consegui.
Porque eu sabia que aquilo só faria minha mãe sofrer.
Ela já carregava dor demais.
— Eu só não gosto de lá — menti.
Minha mãe suspirou.
— Filha… se eu pudesse, eu te transferiria hoje mesmo.
Meu coração se encheu de esperança.
Mas durou apenas alguns segundos.
— Só que isso é impossível.
Olhei para ela.
— Por quê?
— Porque a Academia Manhattan é a única escola de ensino médio da cidade.
Meu estômago afundou.
Era verdade.
Eu sabia disso.
Mas ouvir em voz alta fez tudo parecer ainda mais sem saída.
— Não existe outra opção?
Ela balançou a cabeça.
— Não.
Desviei o olhar.
— Entendi.
Minha mãe segurou minha mão.
— Vai melhorar.
Eu forcei um sorriso.
— Tudo bem.
Mas não estava tudo bem.
E nós duas sabíamos disso.
⸻
Pouco tempo depois, eu estava caminhando em direção à escola.
O enorme prédio da Academia Manhattan surgiu diante de mim.
Bonito.
Imponente.
E, para mim, um pesadelo.
Olhei para a entrada principal.
Já havia vários alunos reunidos ali.
Alguns atletas.
Algumas líderes de torcida.
Pessoas populares.
Meu coração acelerou imediatamente.
Não.
Hoje não.
Mudei de direção e segui pelos fundos.
Se eu conseguisse entrar sem ser notada, talvez tivesse uma manhã tranquila.
Talvez.
Passei por uma entrada lateral e caminhei rapidamente pelos corredores.
Meu plano estava funcionando.
Ninguém estava me olhando.
Ninguém estava rindo.
Ninguém estava apontando.
Pela primeira vez em semanas, senti um pequeno alívio.
Então aconteceu.
Eu virei uma esquina distraída.
E bati com tudo em alguém.
— Ai!
Perdi o equilíbrio.
Meu material escapou das minhas mãos.
Os cadernos voaram pelo chão.
Antes que eu pudesse cair completamente, uma mão forte segurou meu braço.
Meu coração disparou.
Levantei os olhos.
E simplesmente esqueci como respirar.
O garoto à minha frente era provavelmente o mais bonito que eu já tinha visto.
Era alto.
Muito alto.
Os ombros largos pareciam preencher o corredor inteiro.
O cabelo era loiro, levemente bagunçado.
Os olhos azuis tinham um brilho estranho, quase hipnotizante.
E havia alguma coisa nele…
Alguma coisa difícil de explicar.
Como se sua presença chamasse atenção sem esforço.
Como se ele não precisasse fazer nada para ser notado.
— Desculpa — disse ele.
Sua voz era grave e gentil.
— Eu te assustei?
Fiquei alguns segundos olhando para ele sem responder.
Provavelmente parecendo uma completa i****a.
Ele sorriu.
E isso piorou tudo.
Porque aquele sorriso era absurdo.
— Você está bem?
— E-eu estou.
Ele se abaixou rapidamente e recolheu meus cadernos.
Depois me entregou.
— Aqui.
— Obrigada.
Ele continuou me olhando.
E aquilo começou a me deixar nervosa.
Muito nervosa.
— Então… — ele disse. — Você não vai me dizer seu nome?
Pisguei.
— Meu nome é Clara.
O sorriso dele aumentou.
— Clara.
Era estranho ouvir meu nome na voz dele.
Estranho e agradável ao mesmo tempo.
— Prazer — continuou. — Meu nome é Cloud.
Cloud.
Nunca tinha ouvido aquele nome antes.
Mas de alguma forma combinava com ele.
— Prazer.
Por um instante, nenhum dos dois falou nada.
Então o sinal tocou.
O som ecoou pelos corredores.
Cloud deu um pequeno passo para trás.
— Acho que você vai se atrasar.
— Acho que sim.
— Então nos vemos por aí, Clara.
Meu coração fez uma coisa estranha dentro do peito.
— Nos vemos.
Afastei-me rapidamente antes que ele percebesse o quanto eu estava corada.
Mas mesmo depois de virar o corredor, continuei sentindo o olhar dele nas minhas costas.
⸻
Quando finalmente entrei na sala de aula, encontrei Marcos e Ana sentados nos lugares de sempre.
Ana foi a primeira a me notar.
— Nossa.
Ela estreitou os olhos.
— O que aconteceu com você?
— Como assim?
Marcos levantou a cabeça do livro.
— Você está sorrindo.
Instantaneamente toquei os próprios lábios.
Eu estava mesmo.
Ana arregalou os olhos.
— Meu Deus.
— O quê?
— Você viu um garoto.
— O quê? Não!
— Viu sim.
— Não vi.
— Viu.
— Não vi.
— Viu.
Marcos fechou o livro.
— Ela viu.
— Até você?
— Até eu.
Cruzei os braços.
— Vocês são impossíveis.
Ana abriu um sorriso enorme.
— Como ele era?
— Ninguém.
— Clara.
— Sério.
— Clara.
Suspirei.
— Tá bom.
Os dois se inclinaram para frente ao mesmo tempo.
— Ele era alto.
Ana sorriu.
— Continue.
— Loiro.
— Continue.
— Olhos azuis.
— Continue.
— Muito bonito.
Ana bateu na mesa.
— EU SABIA!
Alguns alunos olharam para nós.
Eu escondi o rosto entre as mãos.
Enquanto meus amigos continuavam me provocando, uma imagem voltou à minha mente.
Cabelos loiros.
Olhos azuis.
Aquele sorriso.
Cloud.
E, pela primeira vez em muito tempo, o pensamento de ir para a escola não parecia tão r**m assim.