CAPÍTULO 2: O PANTREÃO DO MEDO
UM ANO DEPOIS
O silêncio na mansão do topo do morro não era o de um lar; era o silêncio de um necrotério. Eu estava sentado na poltrona de couro que Samantha escolhera, mas o cheiro dela havia sido substituído pelo odor acre de pólvora e pelo cheiro metálico de sangue que parecia ter impregnado meus poros. Eu não era mais Arthur. Eu era o General.
Atrás de mim, em um canto da sala, um terrário enorme de vidro abrigava minha única companhia: uma sucuri de quase quatro metros que eu batizara de "Vingança". Ela era como eu. Fria, silenciosa, e mortal. Eu a observava deslizar sobre os galhos secos enquanto eu limpava meu fuzil, o único ritual que ainda me dava algum senso de ordem.
— General... o "Alemão" está lá embaixo. — Rato entrou na sala, mantendo a cabeça baixa. Ele sabia que um olhar errado para mim agora era sentença de morte.
— Ele trouxe o que eu pedi? — perguntei, sem desviar os olhos do fuzil. Minha voz não tinha mais alma, era apenas um sopro gélido.
— Não, chefe. Ele disse que a carga de fuzis foi apreendida na divisa. Disse que foi azar.
Dei um sorriso que não chegou aos olhos. Azar. Uma palavra que não existia no meu dicionário desde que o sol morreu naquele galpão.
— Traga-o aqui. E traga o cachorro dele. Aquele pitbull que ele se orgulha tanto.
Minutos depois, o Alemão entrou, tremendo. Ele era um dos meus gerentes mais antigos, um homem que cresceu comigo, mas que agora cheirava a medo. O cão, um animal imenso e agressivo, rosnava na coleira curta.
— General, eu juro por tudo que é mais sagrado... — ele começou, caindo de joelhos no mármore caro da sala.
— Sagrado? — Levantei-me devagar, cada músculo do meu corpo tenso como uma corda de piano. — Você sabe o que acontece com quem usa essa palavra na minha frente, Alemão? Deus não mora aqui. E a "sorte" se mudou daqui faz tempo.
Caminhei até ele. Eu não estava com raiva. O ódio em mim era tão profundo que se tornara calmo. Peguei uma faca de caça sobre a mesa e, com um movimento súbito e brutal, cravei-a na pata dianteira do cachorro.
O animal soltou um ganido lancinante, um som que faria qualquer homem normal recuar, mas eu apenas observei o sangue esguichar no meu tapete persa. O cão, tomado pela dor e pelo instinto, avançou contra o próprio dono, o braço do Alemão foi abocanhado em um segundo.
— GENERAL! ME AJUDA! ELE VAI ME MATAR! — o Alemão berrava, enquanto o pitbull, enlouquecido pela dor da facada, rasgava a carne de seu braço.
Eu não me movi. Apenas assisti à carnificina com uma curiosidade mórbida. Peguei um copo de uísque e bebi um gole, sentindo o líquido queimar a garganta.
— Onde está o seu Deus agora, Alemão? — sibilei por cima dos gritos de agonia e dos rosnados do bicho. — Por que Ele não acalma a fera? Por que Ele não cura o seu braço?
O Alemão soluçava, o sangue jorrando no chão enquanto o cachorro continuava o ataque. Quando o homem já não tinha mais forças para gritar, saquei a pistola e dei um único tiro na cabeça do animal. O silêncio que se seguiu foi quase poético.
Aproximei-me do Alemão, que segurava o braço destroçado, os olhos revirando de dor.
— Você achou que eu era mole como antes? — perguntei, chutando o corpo do cachorro morto para o lado. — Você achou que podia desviar dinheiro para a milícia e me dar uma desculpa sobre a polícia?
— Eu... eu tenho... filhos... — ele gaguejou, a voz sumindo.
Inclinei-me sobre ele, agarrando-o pelo pescoço. O cheiro de sangue dele era o único perfume que me satisfazia.
— Filhos morrem, Alemão. Filhos são enterrados em caixões brancos enquanto o sol brilha lá fora. Você não tem nada. Nem eu.
Com uma frieza que assustaria o próprio d***o, arrastei o homem pelo chão até o terrário da "Vingança". Abri a trava de vidro. A sucuri sentiu o calor do sangue fresco e começou a se desenrolar, a língua bífida provando o ar.
— Se você sobreviver até amanhã, eu te dou o Jacaré — menti, empurrando o corpo ferido dele para dentro do vidro.
Fechei a trava. Os gritos abafados do Alemão enquanto a serpente começava a se enroscar no seu corpo quebrado eram a única música que eu queria ouvir. Saí da sala sem olhar para trás, limpando o sangue das minhas mãos em um pano de prato.
— Rato — chamei, minha voz saindo como o barulho de pedras se chocando.
— Sim, General? — o subordinado respondeu, pálido como um fantasma.
— Limpe essa bagunça quando acabar. E se alguém perguntar pelo Alemão, diga que ele foi fazer uma visita ao Criador. Mas avise que o Criador não atende chamadas do Jacaré.
Saí para a varanda. O sol ainda estava lá. O maldito sol que me lembrava de tudo.
Fiquei parado ali na varanda, sentindo o calor do sol queimar meu rosto, mas por dentro eu era puro gelo. Tirei um charuto do bolso, acendi e dei a primeira tragada, deixando a fumaça densa e cinza se misturar com o ar do morro. O Jacaré estava aos meus pés, pulsando como uma ferida aberta, e eu saboreava o controle absoluto que o terror me dava.
— Alguma notícia do Vitor? — perguntei, sem me virar. Minha voz era um sussurro letal, carregado de uma paciência que beirava a insanidade.
— Nada ainda, chefe... — Rato respondeu, a voz tremendo tanto que m*l dava para entender. — Os informantes da baixada dizem que ele sumiu no mapa. Ninguém viu a cor daquele rastro de esgoto.
Soltei a fumaça devagar, observando-a se dissipar no céu azul. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Eu não estava com pressa. A vingança é um prato que eu preferia comer frio, congelado, até que queimasse a garganta do meu inimigo. Mas o silêncio dos meus subordinados tinha um preço. A incompetência deles era uma dívida que precisava ser quitada com juros de sangue.
Virei-me devagar, o charuto no canto da boca. Olhei para a fila de cinco vapores que estavam postados na entrada da varanda. Eles eram os responsáveis pela busca no setor norte, o setor onde Vitor supostamente fora visto pela última vez.
— Nada? — repeti, caminhando na direção deles. Minhas botas de couro faziam um som seco contra o piso. — Trezentos e sessenta e cinco dias. Um ano inteiro. E vocês me dizem "nada"?
— General, nós rodamos tudo, nós... — um dos vapores começou a falar, tentando desesperadamente salvar a própria pele.
Parei na frente dele. Retirei o charuto da boca e observei a brasa incandescente. Sem dizer uma palavra, encostei a ponta acesa diretamente no olho dele. O grito dele rasgou o ar, um som agudo e desesperado, mas eu não mudei a expressão. Segurei sua cabeça com a outra mão, forçando-o a sentir cada segundo da carne queimando.
— Onde estavas Tu, Deus, quando o Vitor apertou o gatilho? — murmurei para o nada, enquanto o vapor caía de joelhos, segurando o rosto destruído. — Já que Ele não responde, eu respondo por Ele.
Saquei minha pistola banhada a ouro, um troféu de guerra que eu usava para as execuções mais importantes. Encostei o cano no topo da cabeça do homem que ainda gemia no chão.
— Um dia sem notícia do Vitor significa um de vocês a menos — anunciei, olhando para os outros quatro que assistiam à cena, paralisados pelo horror. — A conta é simples. Se amanhã o relatório for o mesmo, a fila diminui.
Pá.
O corpo desabou para o lado, sujando as botas do vapor ao lado com massa encefálica e sangue. Os outros três nem ousaram piscar. O medo era tanto que o suor deles escorria pelo chão, misturando-se à poça vermelha que se espalhava.
— Limpem isso — ordenei, voltando para a mureta da varanda. — E Rato... mande o aviso para todos os setores. A cada hora de silêncio sobre o paradeiro do Vitor, um vapor morre. Vamos ver quanto tempo a lealdade de vocês dura antes de começarem a realmente trabalhar.
Traguei o charuto novamente, sentindo o gosto forte do tabaco. O sol continuava brilhando, mas agora ele parecia mais fraco. Ou talvez fosse apenas a minha escuridão que estava ficando grande demais, engolindo tudo ao redor.
Eu era o General. E se eu tivesse que matar cada homem deste morro para encontrar o traidor que me tirou a vida, eu o faria. No Jacaré, as orações foram substituídas pelos meus disparos, e hoje, o céu ia ouvir mais um.
— Papo reto, General... o senhor nunca vai superar isso, né? — a voz do Rato saiu quase em um fio, carregada de um receio que ele tentava camuflar. Ele estava ali do meu lado, olhando fixo pro corpo estirado que os outros vapores já começavam a arrastar, deixando um rastro de sangue fresco no piso.
Traguei o charuto com força, sentindo a nicotina arranhar minha garganta, e soltei a fumaça bem na cara dele. Olhei pro horizonte, pro lugar onde o sol parecia mais agressivo.
— Superar? — dei uma risada rouca, um som que não tinha alegria nenhuma, só o eco de um abismo. — Tu tá de deboche, Rato? Como é que supera o sangue da tua única filha manchando a tua camisa? Como é que tu tira da mente o último suspiro da tua mulher, falando de um Deus que permitiu que ela fosse abatida como um bicho?
Apertei o parapeito da varanda até meus nós dos dedos ficarem brancos. Minha mente era um filme de terror em looping, e cada frame queimava mais que a ponta desse charuto.
— Tu não entende nada da vida, moleque. Tu acha que isso aqui é só sobre comando e poder? O buraco é mais embaixo — sibilei, virando pra ele. — O Vitor não queria só o meu morro. Ele queria a minha essência. A inveja é uma parada doentia, mermão. O cara comeu na minha mesa, riu das minhas piadas, viu minha filha nascer... e o tempo todo o verme tava ali, nutrindo um ódio silencioso porque eu tinha o que ele nunca ia ter: luz.
Parei por um segundo, sentindo o gosto de ferro na boca. O ódio por aquele aquele traidor maldito era a única coisa que me mantinha de pé.
— A inveja faz o cara virar um monstro. O invejoso não quer o que tu tem; ele quer que tu não tenha. Ele quis apagar o meu sol pra eu ter que viver no escuro junto com ele. E ele conseguiu. Mas ele esqueceu de um detalhe: no escuro, quem manda sou eu. Eu virei o próprio pesadelo dele.
Rato engoliu em seco, sem saber onde enfiar a cara. Eu cheguei mais perto, invadindo o espaço dele, sentindo o cheiro do medo que ele exalava.
— Superação é papo de quem tem alma, e a minha foi enterrada faz um ano. Agora, o que sobra é o foco. Eu não quero superar, eu quero retribuir. Quero que o Vitor sinta o cheiro da morte chegando e perceba que não tem reza, não tem igreja e não tem santo que tire ele da minha mira.
Joguei a bituca do charuto no chão e esmaguei com a bota, fazendo pressão como se fosse a cabeça do traidor.
— Avisa pros moleques na contenção: se eu pegar alguém de fofoca sobre "superação" ou pena de mim, vai fazer companhia pro bicho ali no terrário. O General não supera. O General cobra. E a conta do Vitor tá ficando alta demais pra ele pagar.
Virei as costas e entrei pra sala escura, onde a Vingança se mexia lentamente no vidro. O mundo lá fora podia estar pegando fogo, mas aqui dentro, o gelo da minha alma era o que ditava as regras.