Capítulo 05

2207 Words
Cecília Blackwood Aquilo tudo, definitivamente, me pegou de surpresa, mesmo já estando acostumada a clientes indo e vindo, essa foi a primeira vez que um cliente havia me deixado tão… absorta em sua conversa, mas assim que ele se foi, tive que voltar à realidade. — Cecilia — ouvi a voz da Pietra me chamando, tirando-me do meu devaneio —, era um dos McNight? — Sim, Steffano McNight — respondi, pigarreando enquanto arrumava as peças de volta ao lugar de origem. — Deus, como ele pode ser melhor do que nas revistas? — Pietra perguntou, suspirando pelos cantos, e eu me lembrei bem do que as revistas e tabloides diziam sobre Steffano McNight, um completo canalha. Pietra trabalhava há mais tempo na joalheria, seu horário era mais flexível devido à faculdade e por ser sobrinha da dona, talvez apenas por isso, ela sempre foi mais intima com os clientes, e se fosse ela a atendê-lo… talvez tivesse uma chance de parar na próxima polêmica envolvendo o sr. McNight. — É, ele é bonito, também é carismático — admiti. — Será que ele tem namorada ou é casado? — questionou, debruçando-se em cima da gôndola e apoiando o queixo em uma das mãos. — Como queria ter a sorte de ter um boy igual a esse, rico, bem-sucedido… — De que vale tudo isso, sem amor? Ele se envolve em um escândalo por semana… — Cecí, o amor pode vir depois — Pietra disse suspirando. — Casamento é um contrato, o amor é algo que surge com o tempo e, depois de te amar… um homem como ele certamente deve esquecer de todo o resto, como nos livros de romance. — Você disse certo, livros de romance, e nesse momento, a nossa realidade está longe disso — lembrei a ela, terminando de guardar todas aquelas peças e fechando o mostruário. — Eu não me importaria de ter um romance aventureiro com ele — disse sorrindo —, se a fama que ele possui for tão real quanto a beleza, te garanto, ele deve ser incrível na cama — completou abanando o rosto. — Pietra! — Ah! Cecilia! Me poupe! Você age assim, porque ainda é virgem. — Revirou os olhos. — Quando sentar num p*u gostoso, mudará de ideia! — falou toda risonha, com aqueles lábios arqueados de forma maliciosa. — Aliás, nem sei por que continua com o Hector. Ele não parece ser tudo isso. Pietra era realmente um caso sério! E um do qual eu havia desistido, então, apenas revirei os olhos enquanto ouvia a porta se abrir e um novo cliente surgir, fazendo com que ela se afastasse para atender e me deixasse em paz por uns segundos. Ela nunca gostou de Héctor, e eu sabia disso. Ela sempre fez questão de dizer que ele nunca se esforça, pois nos dois anos que estávamos juntos, fomos apenas três vezes jantar fora e eu podia contar nos dedos as vezes que fomos ao cinema. Por um lado, entendia o Héctor, pois a faculdade era bem puxada e não achava justo que ele saísse e pagasse tudo para nós, mas, ao mesmo tempo, era fato que eu queria um pouco mais de atenção. Aceitaria apenas um pouco de carinho, sem que necessariamente tivéssemos que sair, mas isso não vinha ao caso e não era da conta de Pietra. (...) Os dias estavam passando rapidamente, com o dinheiro da minha comissão tinha conseguido comprar remédio e os alimentos para a dieta do Brandon, e o mais importante, pagar seus exames que estavam atrasados. Mas o que mais me preocupava era o fato de não ter nenhum retorno referente aos currículos que entreguei pessoalmente ou por e-mail. — Cecí, o café já está na mesa — ouvi a voz do Brandon e, quando me virei, ele estava na soleira da porta, segurando um envelope em uma das mãos. — A mamãe fez bolo de chocolate —disse todo sorridente. — Ela disse que posso comer um pedaço pequeno — completou e eu consegui ver o brilho em seus olhos. — Huuum, verdade? — Olhei em sua direção, o meu corpo fazendo o mesmo. — Vejo que ficou muito feliz com isso — disse e o meu irmãozinho sorriu ao assentir, aproximando-se de mim na penteadeira onde eu estava prestes a terminar a minha maquiagem. — Você está linda, Ceci — soltou de forma sincera, com uma expressão cheia de encantamento pairando em seu semblante.  — Não mais do que você — eu disse e comecei a fazer cócegas nele, porque eu precisava descarregar de alguma forma o ataque de fofura que eu tive.  — Para Ceci… Ceci… — pediu entre um riso e outro — Ceci, por favor… trouxe… trouxe… isso aqui para você… — disse erguendo o envelope que se encontrava em sua mão desde o início — pega! E para de… fazer cócegas em mim! — Eu parei com a sessão de cócegas por conta de seu pedido, para encarar o papel.  Peguei o envelope na cor parda da sua mão, observei os dois lados e não tinha nenhuma etiqueta ou remetente, aquilo era estranho e o medo de que fosse outra dívida do meu pai quase me consumiu. — Quem entregou? —perguntei, olhando meu irmãozinho enquanto tentava me manter calma, ao menos na frente dele. — Não sei. — Ele deu de ombros, como uma boa criança que não precisava ter preocupações. — Mamãe disse que jogaram por baixo da porta — explicou, o que, de certo modo, me deixou ainda mais ansiosa, porém… intrigada ao mesmo tempo. — Ceci, vamos! Estou com fome. — Certo, vamos. — Peguei minha bolsa e coloquei o envelope dentro dela, segurei uma das mãos do Brandon e descemos até a sala.  — Ceci, o papai ainda não chegou. Senti um aperto no peito com suas palavras, já tinha alguns dias que saía de casa para trabalhar e nosso pai havia passado a noite fora, sem dar qualquer notícia.  Eu não sabia o que tinha na cabeça do meu pai para ele continuar, noite após noite, não voltando para casa, mas, noção? Com toda certeza, não era uma delas.  — Logo ele chega. — Tentei confortá-lo junto de um suspiro, um que era completamente cansado.  — Ontem, ele chegou com o olho roxo — espirei fundo, porque Brandon era apenas uma criança, uma que não merecia passar por isso, ter qualquer preocupação que fosse —, mas ele me pediu segredo. — Segredo? — Arqueei uma das minhas sobrancelhas.  — Sim, ele disse que vai me dar uma bicicleta se você não ficar sabendo — disse empolgado, pulando o último degrau da escada. — Promete guardar segredo? Comecei a massagear as minhas têmporas naquele momento, porque a falta de responsabilidade do meu pai parecia não ter limites. — Claro. — Sorri para disfarçar a minha insatisfação. Afinal, eu não queria ser a pessoa que acabaria com a pequena felicidade que Brandon havia conseguido.  — Jura de dedinho? — Ergueu uma das suas mãos e me mostrou seu dedinho, para fazermos o juramento. — Eu juro. — Selamos nosso acordo e ele correu para a sala, praticamente saltitando. Não havia mais dúvidas de que o meu pai havia voltado a se meter com apostas, porque aquele seria o único jeito – considerando a nossa situação atual – que ele conseguiria prometer algo como uma bicicleta nova para Brandon.  Ele realmente achava que algum milagre iria acontecer? Um que apagaria todas as memórias ruins? Ele estava enganado se achava que esse seria o caso.  — Ceci! Vem logo! — A voz de Brandon me tirou dos meus pensamentos, o cheiro do bolo de cenoura finalmente chegando até as minhas narinas conforme eu me aproximava da cozinha.  — Bom dia, minha menina. — Minha mãe se virou em minha direção e conseguia ver o cansaço e as olheiras estampadas em seu rosto. Isso queria dizer apenas uma coisa, ela estava passando noites em claro, mais uma vez, para ter certeza de que o meu pai chegaria em casa inteiro, vivo.  — Bom dia, mamãe. — Tentei disfarçar minha cara de decepção. — O cheiro está maravilhoso. — Graças às compras que você fez, consegui fazer o bolo que o Brandon tanto pediu. — Um brilho singelo brotou em seus olhos. — Agora, sente-se, vamos tomar café.  Fiz como ela havia me dito, porém, eu não conseguia parar de prestar atenção em como o clima daquela mesa estava mórbido, até mesmo… sombrio.  Ninguém ali queria admitir, contudo… era difícil ter uma refeição pacífica naquele momento, ainda mais quando a minha mãe claramente não conseguia parar de ficar preocupada com o meu pai, e Brandon? Muito menos.  Porém, eu não pude ficar pensando muito sobre isso, porque, logo depois do café da manhã, tive que seguir para a loja.  Eu não podia ficar com a cabeça nos problemas em que eu me encontrava, mas ter noção disso não me impediu de me passar a manhã de forma arrastada, pelo meu corpo só ter feito tudo no automático. Tanto que o único momento do qual eu realmente me recordava, era o das meninas comentando sobre um e-mail, um que informava sobre os novos funcionários e o encerramento dos nossos contratos.  Encarei o relógio na parede clara em dado momento, e isso fez eu me assustar, porque já estava no horário do meu almoço, então fui até a sala dos funcionários para pegar as minhas coisas e o caminho me fez lembrar do envelope que Brandon havia me entregado mais cedo, já que passei o olhar pela minha bolsa.  — O que houve, Cecí? — Claire perguntou quando me viu. — Nenhuma entrevista? — Não… — falei frustrada — minhas economias estão chegando ao fim, e o meu irmão não pode ficar sem sua medicação, seus exames. — Senti um nó na garganta ao falar da situação na qual eu me encontrava.  — Seu pai ainda está na mesma?  — Não passou a noite em casa. — Respirei fundo. — Meu medo é que ele deva a alguém que tenha influência… — Certo desespero começou a pairar pelo meu peito, uma situação r**m atrás da outra se passando pela minha cabeça.  — Fica calma, Ceci, ele disse que ia se comportar. — Ela suspirou, como se nem mesmo ela acreditasse em suas palavras. — Ele precisa cumprir com sua palavra, da última vez, fiquei com medo de te perder… — Eu também espero que ele cumpra. — Tentei segurar as minhas emoções, porém uma lágrima rebelde caiu sem o meu consentimento, o que fez Claire me abraçar.  Era decepcionante lembrar do passado, era frustrante pensar que o mesmo homem que vivia me falando como era importante manter as suas promessas e me dizia que nunca quebraria uma… fazendo isso.  De qualquer modo, eu não podia ficar ali parada, sem tentar pelo menos comer alguma coisa, o que me fez sair da sala dos funcionários, deparando-me com aqueles olhos verdes. — Cecilia? — Saí do abraço da Claire quando ouvi a voz rouca de Steffano me chamando. — Senhor McNigth. — Tentei discretamente secar a lágrima e dar o meu melhor sorriso ao perceber quem era o dono daquela voz.  — Steffano, por favor. — Ele me olhou com um semblante repleto de preocupação. — Aconteceu algo? — Não é nada. — Neguei com a cabeça. — Você mente muito m*l, sabia disso? — respondeu, um suspiro pesado saindo pelos seus lábios. — Que tal tomar um pouco de ar? Vai te fazer bem.  — Também concordo. — Claire me olhou com um leve arquear. Ela nitidamente estava se divertindo com aquela situação — porque eu havia contado como tinha sido quando o senhor McNight veio até à loja, além de ter dado uma descrição um tanto detalhada de como ela era educado, bonito — mas, mesmo assim, eu não podia deixar que ela praticamente me empurrasse para os braços daquele homem, afinal, eu ainda estava comprometida.  — Claire — tentei reprimi-la de imediato.  — Está no horário do seu almoço — ela me lembrou com um sorriso travesso, como se fosse uma adolescente no ensino médio, tentando conseguir um namorado para a sua amiga.  — Bom, então é o momento perfeito. — Steffano pareceu feliz com a notícia. — Vamos? Claire me empurrou para fora do balcão e Steffano estendeu uma de suas mãos, encarei por uma fração de segundos e percebi que estava usando um terno elegante na cor azul marinho, então reparei nos seus olhos verdes, no nariz fino, nos lábios bem desenhados, e em seu cabelo dourado estava penteado para trás. Quando encostei em sua mão, senti uma eletricidade percorrer por todo o meu corpo, fazendo meu rosto se esquentar; quando Steffano pareceu perceber meu desconforto, ele sorriu antes de beijar o dorso da minha mão, como um verdadeiro cavalheiro.  — Bom almoço! — Claire disse acenando pra mim, com um arquear de sobrancelhas satisfeito. Céus… eu sabia que ela não gostava de Hector — como, aparentemente, todas as pessoas à minha volta — mas isso? Eu me perguntava se não era um pouco demais.  Porém, para ser bem honesta... Eu também tinha que admitir, não estava achando de todo o m*l.
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