Steffano McNight
Eu não tinha o costume de fazer coisas assim, sinceramente, não me agradava em nada a possibilidade de ter que usar a fraqueza de alguém para ter sucesso em uma negociação.
Claro, dentro do submundo, em especial da máfia, era simples e natural que se usasse a dor ou a fraqueza de outrem a seu favor, mas esse não era o meu modus operandi . Eu preferia simplesmente esmagar a esperança e tornar a minha opção a única viável.
Porém, algo em mim estava imbuído de pena e preocupação com aquela coisinha de olhos claros e vida conturbada. Algo que não pareceu disposto a me deixar em paz, nem mesmo quando abri meu celular para checar as informações que Thomas havia enviado para meu e-mail.
Havia um relatório completo de seus horários, amizades, contatos. Havia fotos de Cecília com seu suposto namorado e, claro, logo em seguida, fotos desse tal namorado aos beijos com uma mulher mais velha do que ele.
Héctor Esposito, era o filho de um dos maiores políticos corruptos da Itália e, por algum motivo, estava relacionado a Cecília Blackwood. Tinha boatos por toda parte, dizendo que o pai de Héctor era um desgraçado sem causa, que estava falido depois de usar grande parte do seu patrimônio pessoal, para se eleger. Ele era um político corrupto, mas estava na merda desde que foi descoberto em esquemas de lavagem de dinheiro.
Com o caixa dois comprometido, eu me perguntava como eles conseguiam manter a vida que andavam levando, e foi ai que vi o link que Thomas havia anexado ao meu e-mail.
Um link que me levava direto para um perfil. Eu rolei o feed e me deparei com um site de garotos de programa. Héctor era a estrela daquele site, e obviamente, o favorito das senhoras casadas e influentes.
Deus.
Onde aquela garota estava metida?
Eu considerava o que estava prestes a fazer como algo não muito digno, mas vendo o quão ferrada Cecília estava, ao ser envolta de tanto lixo, comecei a questionar se, no fim, eu não era a melhor opção para sua vida, e logo cheguei à conclusão de que sim. Eu era.
— Sr. McNight? Chegamos — ouvi o motorista me avisar e, pigarreando, desliguei a tela do meu celular para descer. O carro estava parado em frente a uma joalheria, a fachada preta com o letreiro dourado dizia: Caccini, e eu suspirei por saber que esse era o lugar certo.
No fim, seria útil ir até ali, de qualquer forma.
Assim que passei pela porta de vidro, meus olhos se encontraram com aquele par de olhos azuis que sustentava um belo sorriso social. Por um momento me senti como um garoto na pré-adolescência, apaixonado por alguém que viu pela primeira vez e podia assegurar, com toda certeza, que a foto de Cecilia, não fazia jus à sua beleza. Ela estava ali, com aquela saia e camisa preta, com a logo da joalheria em detalhes dourados bordada em seu peito. E essa roupa tão simples parecia apenas ressaltar os seus pontos fortes.
Como conseguia?
— Bom dia! Em que posso ajudá-lo? — ela me perguntou, com aquele tom aveludado que fez meu peito errar uma batida.
— Quero presentear a minha mãe.
Menti.
— Qual é a ocasião?
— Nenhuma.
— Certo, sua mãe tem alguma preferência? Esmeraldas? Rubis? Se não souber ao certo, sempre temos diamantes… toda mulher gosta de diamantes — disse e colocou em cima do balcão um expositor com um colar de diamantes em formato de pequenas gotas acompanhado de um par de brincos do mesmo modelo.
— Você gosta?
Cecilia me encarou, parecendo desconcertada com a minha pergunta.
— Como?
— Quero dizer… você usaria?
— Não — sorriu —, usaria essa pulseira — disse me mostrando uma peça delicada de ouro branco.
— Por qual motivo?
— Ela é delicada… é bonita, mas não é algo que qualquer um reconheceria o valor.
Sorri.
— Ótimo, vou levá-la.
— Tem certeza? — perguntou, parecendo surpresa com a minha decisão.
— Nunca tive tanta certeza em toda a minha vida.
— Ótima escolha, senhor…
— McNight. Steffano McNight.
— Ah! Senhor McNight, é um prazer conhecê-lo. O senhor é o CEO da empresa que tem no centro da cidade, não é?
— Você conhece a empresa de advocacia?
— Sim, quando pensei na possibilidade de ser uma advogada, cheguei a cogitar um estágio lá.
— Possibilidade?
Ergui uma das sobrancelhas, curioso com aquelas palavras, e ela sorriu.
— Sim, mas, no fim, consegui bolsa em medicina. Também é uma profissão que admiro e acabei optando por questões pessoais.
— Entendo, é uma pena, a senhorita parece alguém interessante de se ter por perto, na nossa empresa — disse enquanto pegava minha carteira no bolso de trás da minha calça social e escolhia com qual cartão pagaria pelo presente.
— Depois que comecei a cursar medicina, descobri que não sou boa em argumentos, talvez advogar realmente não fosse para mim, mas agradeço o elogio.
— Isso você aprende com o tempo, não me tornei um dos melhores advogados da Itália do dia para noite.
Os lábios dela se arquearam com gentileza.
— Ainda assim, prefiro a medicina.
Consegui notar sua simplicidade só pelo fato de se admirar com as peças mais simples de toda loja, e talvez tenha sido por isso que me senti tão irritado com a minha ideia original. Eu queria tirá-la da loja, queria contar toda a verdade, queria forçar aquela mulher a aceitar o meu acordo, mas agora… não queria que essa fosse a primeira lembrança de Cecilia sobre mim.
Definitivamente, ela seria a nora perfeita para minha mãe. Para a família McNight.
Por mais que minha mamma tenha dinheiro, ela nunca foi de esbanjar e muito menos soberba, e a simplicidade das pessoas sempre a encantou. Cecilia ganharia seu coração tão cedo quanto se conhecessem, e o resto… ela tinha elegância e inteligência o suficiente para aprender a domar.
— Tenho certeza de que será uma excelente médica, Cecília.
Foi tudo que eu consegui dizer e ela sussurrou com gentileza em resposta.
— Obrigada, senhor McNight.
— Steffano, Cecília — reforcei.
— Desculpe-me — murmurou com o rosto corado, que me fez questionar o quanto eu conseguiria manter a minha sanidade perto daquela mulher.
— Obrigado pela sua ajuda… — foi tudo que eu disse, antes de pegar o suposto presente para minha mãe e sair da loja. m*l cheguei à parte externa e acendi meu cigarro para controlar a adrenalina, um pouco de nicotina não faz m*l a ninguém.