Capítulo 6 — A Noite

1111 Words
Quando a porta da confeitaria se fechou atrás daqueles dois homens, Anya sentiu o ar finalmente voltar aos seus pulmões. Ela se apoiou no balcão por um instante, tentando ignorar a sensação estranha que ainda latejava em seu peito. Aquele olhar… frio, mas quase hipnotizante… ainda a queimava por dentro. Katya apareceu ao lado dela, segurando uma bandeja com xícaras vazias e um sorriso maroto nos lábios. — Meu Deus… — disse Katya, quase sussurrando, inclinando-se para ela. — Você viu aqueles dois? Anya desviou os olhos para a bandeja, tentando se concentrar nos pratos sujos. — Vi, sim… — respondeu, tentando soar casual. — “Vi, sim…” — Katya repetiu, zombeteira, imitando o tom dela. — Anya, por favor! Eles eram um verdadeiro colírio! Principalmente o ruivo! Você reparou naquele olhar? Que homem é aquele? Parece saído de um filme! Anya corou, envergonhada. — Eu… nem reparei tanto assim. — mentiu, ajeitando nervosamente a ponta do avental. Katya soltou uma risada alta. — Claro que reparou. Eu reparei até demais por nós duas. — ela piscou, divertida, antes de inclinar a cabeça e comentar, sonhadora: — E o amigo dele também… aquele com ar sarcástico, uau… Eu não me importaria de trabalhar horas extras se fosse para servir café para eles. Anya sorriu de leve, mas não respondeu. A imagem do ruivo ainda estava muito viva em sua mente — o jeito como ele a encarou, como se pudesse ver dentro dela. Aquilo a deixava desconfortável… e, de alguma forma, curiosa. --- O movimento da tarde foi tranquilo, e quando a última cliente saiu, Katya fechou a porta com chave e virou-se para Anya com um brilho conspirador nos olhos. — Então… o que você vai fazer sábado à noite? — perguntou ela. Anya piscou, confusa. — Sábado? Nada… por quê? — Porque você vai comigo na inauguração da nova boate no centro! — anunciou Katya, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Anya arregalou os olhos, recuando um passo. — Boate? Eu? Não… eu… eu não sei dançar, e— — E daí? — interrompeu Katya, cruzando os braços. — Você vai se divertir! Vai ver gente nova, ouvir música alta, esquecer um pouco da vida… e quem sabe até chamar a atenção de outro daqueles homens bonitos, hein? Anya mordeu o lábio inferior, nervosa. — Eu não sei se devo… — Deve, sim! — Katya insistiu, pegando as mãos dela. — Vai ser bom pra você, Anyushka. Eu prometo que não vou te deixar sozinha nem um segundo. Anya respirou fundo, hesitando por um momento… mas acabou assentindo com um pequeno sorriso. — Tá bem… eu vou. — Isso mesmo! — comemorou Katya, dando um leve pulo de alegria. — E pode deixar que eu vou escolher a roupa mais linda do seu armário pra você arrasar! Anya riu, ainda tímida, mas sentindo-se estranhamente animada. Talvez… só talvez… uma noite fora da rotina fosse exatamente o que ela precisava. Só não fazia ideia de que, naquela boate, o destino já preparava outro encontro com os olhos de lobo que não saíam mais da sua memória. --- O sábado caiu sobre Moscou pesado, frio, com as luzes da cidade refletindo no asfalto molhado. Anya passou o dia nervosa, tentando convencer a si mesma de que estava tudo bem. Era só uma saída com Katya. Nada demais. Mas, quando Katya chegou à sua porta no início da noite, trazendo um vestido preto curto, saltos emprestados e um batom que parecia ousado demais para Anya, a sensação de que algo diferente estava para acontecer ficou ainda mais forte. — Confia em mim — disse Katya, enquanto ajudava a prender o cabelo dela num coque delicado. — Você está linda. E hoje… você vai ser a garota mais bonita da pista. Anya tentou sorrir diante do espelho. O vestido marcava sua cintura, as mechas rosadas nos cabelos destacavam sua pele pálida, e o batom vermelho deixava seus olhos claros ainda mais intensos. Ela m*l se reconhecia. --- A boate era ainda mais imponente do que Katya tinha descrito. Do lado de fora, a fila de convidados se estendia pela calçada. Homens bem vestidos, mulheres em vestidos justos e saltos altíssimos. Luzes vermelhas e douradas pulsavam por trás das enormes portas de vidro. Quando elas finalmente entraram, Anya ficou sem fôlego. O som pesado da música fazia o chão tremer. No centro, uma pista enorme, cheia de corpos que se moviam ao ritmo da batida. Acima, varandas privadas com cortinas escuras escondiam figuras poderosas, observando a multidão de cima. Katya agarrou a mão dela e a puxou para dentro do mar de gente. — Vamos dançar! — gritou ela, rindo. Anya tentou acompanhá-la, ainda tímida, mas se deixou levar pela música e pelas luzes. --- No andar de cima, atrás de uma das cortinas de veludo, Konstantin encostava-se ao corrimão com um copo de uísque na mão. Seus olhos percorreram a multidão lá embaixo sem pressa, como um predador à espreita. A boate era dele — mais uma das muitas fachadas para lavar dinheiro e distribuir influência — e ele não tinha a menor paciência para lidar com os capos bêbados que o acompanhavam naquela noite. — Eles já assinaram os contratos, Pakhan. — disse Igor, atrás dele. — Não precisava ter vindo pessoalmente. — Eu não confio em gente que sorri demais quando pega dinheiro na mão. — murmurou Konstantin, os olhos ainda varrendo a pista. — Quero ver quem são quando acham que não estão sendo vigiados. E então ele a viu. No meio da multidão, girando timidamente ao lado de outra garota. O vestido preto abraçando aquele corpo delicado. Os cabelos presos deixando o pescoço exposto. E aqueles olhos — grandes, azuis, com o mesmo brilho melancólico de antes. Konstantin se endireitou, apertando o copo de uísque sem perceber. — O que foi? — perguntou Igor, notando a mudança sutil na expressão do amigo. — Nada. — respondeu Konstantin, baixo. Mas não conseguia tirar os olhos dela. Ela não sabia ainda, mas havia entrado sozinha no território dele. E agora… era impossível para ele fingir que não a via. Ele observou enquanto ela ria de algo que a amiga disse, os olhos brilhando por causa das luzes. Por um instante, um músculo em sua mandíbula se contraiu. Ele não gostava de ver outros homens na pista se aproximando demais dela. Não sabia por quê, mas não gostava. Quando ela finalmente olhou para cima — sem perceber a figura sombria na varanda — os olhos dele já estavam lá. E, naquele momento, ela soube. O lobo a encontrara de novo. E desta vez, não a deixaria escapar. ---
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