Capítulo 5 — O Olhar

1163 Words
Anya acordou antes mesmo do despertador tocar, como sempre. O quarto estava gelado naquela manhã de outono, mas ela se obrigou a sair debaixo do cobertor. Arrastou-se até o banheiro com os pés descalços, prendeu o cabelo loiro em um coque desajeitado e ligou o chuveiro. A água morna ajudou a despertar seu corpo cansado — e lavar as marcas roxas ainda espalhadas pelos braços e costas. Diante do espelho, respirou fundo. Pegou a base e o corretivo da pequena nécessaire e, com mãos cuidadosas, cobriu os hematomas no rosto. Era quase um ritual: maquiar os traços da dor antes de encarar o mundo. --- Na cozinha, preparou café e ovos mexidos para ela e para o tio. Ele apareceu pouco depois, vestindo a jaqueta preta de segurança e com a arma já presa à cintura, como se fosse uma extensão de si mesmo. — Bom dia, sobrinha. — disse ele, com um sorriso falso e exagerado, puxando uma cadeira. — Bom dia. — respondeu Anya, baixo, servindo o café para os dois. Ele a olhou por um momento longo demais, como se calculasse algo, e depois começou a comer. Conversaram sobre nada: o trânsito, o tempo, algum jogo de hóquei. Para qualquer vizinho que olhasse pela janela, eram só uma família normal. Quando terminou de comer, ele pegou as chaves, deu um leve tapa no ombro dela e disse: — Seja boazinha hoje, hein? Não me faça passar vergonha com sua amiga na confeitaria. — e saiu rindo, como se fosse uma piada inofensiva. Assim que a porta se fechou, Anya sentiu os ombros relaxarem. --- No caminho para o trabalho, ela encontrou Katya na esquina já esperando por ela. — Você demorou! Achei que ia me deixar plantada. — disse Katya, sorridente. — Desculpa… — respondeu Anya, encolhendo-se no casaco. — Eu tive que arrumar tudo em casa antes de sair. — Sempre tão certinha… — Katya revirou os olhos, mas segurou o braço dela carinhosamente. — Você precisa se divertir mais, sabe? Não pode ficar só entre aquela casa e a confeitaria. Anya sorriu, tímida. — Eu gosto daqui. A confeitaria me faz bem. — Eu sei, eu sei. — disse Katya, puxando-a pela mão. — Mas um dia ainda vou te levar pra dançar. E você não vai ter como dizer não. Anya soltou uma risadinha e balançou a cabeça, sabendo que, no fundo, não teria coragem. --- A manhã na confeitaria era uma calmaria que Anya apreciava. O cheiro de pão quente e açúcar no ar, a música suave no rádio, a vitrine repleta de doces bonitos demais para serem comidos. Ela e Katya trabalharam lado a lado, rindo baixo entre um pedido e outro. Atenderam casais apaixonados, crianças famintas, senhoras exigentes. E, por algumas horas, Anya esqueceu que sua vida em casa existia. --- No fim do expediente, Katya ofereceu-se para acompanhá-la de volta, mas Anya insistiu que ela fosse embora, garantindo que ficaria bem. Em casa, colocou um vestido florido simples, pegou um regador e foi até o pequeno jardim nos fundos. Aquelas flores eram seu refúgio. Cuidadosamente, regou os botões coloridos, podou as folhas secas e ficou alguns minutos apenas respirando, olhando o céu. Quando o frio aumentou, voltou para o quarto. Sentou-se na cama com o caderninho velho no colo e escreveu algumas linhas soltas — sonhos e rabiscos que não mostrava a ninguém. "Talvez amanhã seja mais leve." Fechou o caderno, encostou-se na parede e ficou ali, em silêncio, olhando pela janela para a noite escura de Moscou. Sem saber que, do outro lado da cidade, um homem de olhos de lobo e coração de pedra já começava a traçar movimentos no tabuleiro que mudariam sua vida para sempre. --- O dia na sede do conglomerado tinha sido brutal. Reuniões intermináveis, contratos para assinar, banqueiros para manipular, capos para pressionar. Konstantin saiu do prédio de mármore n***o no começo da noite, os ombros rígidos, o olhar mais sombrio do que de costume. No carro, ao lado dele, Igor bebericava uísque em um copo baixo e comentava distraído sobre um novo carregamento de armas que chegaria pelo porto. — Vai dar problema? — perguntou Konstantin, sem tirar os olhos da rua. — Não comigo cuidando. — disse Igor, um sorriso preguiçoso nos lábios. O Mercedes avançava pelo centro de Moscou quando Igor apontou com a cabeça para uma esquina movimentada. — Vamos parar aqui. Eu preciso de um café decente antes de aturar mais uma noite naquela boate infernal. Konstantin apenas assentiu, impassível. O carro parou em frente a uma confeitaria pequena e charmosa, com janelas iluminadas e vitrines cheias de doces. Não era o tipo de lugar em que ele costumava entrar — mas também não se opunha a acompanhar Igor em suas excentricidades. Assim que os dois homens entraram, o ar doce e quente contrastou com o frio cortante do lado de fora. Konstantin caminhou até uma mesa nos fundos enquanto Igor se aproximava do balcão para fazer o pedido. E foi aí que ele a viu. --- Ela estava atrás do balcão, arrumando delicadamente uma bandeja de tortas. Os cabelos loiros caíam soltos sobre os ombros, com mechas rosadas que pareciam brincar com a luz suave do ambiente. O vestido florido e o avental branco escondiam as curvas frágeis, e os olhos — grandes, azuis, sonhadores — se ergueram por um segundo para os dele. Konstantin sentiu um instante de… pausa. O mundo, por um momento mínimo, desacelerou. Ela rapidamente abaixou o olhar, corando, mas aquilo bastou para despertar um incômodo nele. Um aperto leve no peito. Uma curiosidade irritante. Era só mais uma garota. Frágil. Inofensiva. E, ainda assim, havia algo naquela expressão — aquela mistura de melancolia e pureza — que o fez inclinar levemente a cabeça, analisando-a como quem analisa uma peça fora do lugar num tabuleiro de xadrez. --- — Duas xícaras de café forte e… escolha um doce qualquer. — disse Igor para ela, animado, interrompendo os pensamentos de Konstantin. Ela sorriu para Igor com timidez, anotou o pedido e desapareceu por alguns instantes na cozinha. Konstantin permaneceu em silêncio, os dedos tamborilando na mesa. Quando ela voltou, colocou a bandeja diante deles com mãos delicadas, evitando olhar diretamente para ele. Mas ele não desviou os olhos nem por um segundo. A maneira como ela se movia, como mantinha a cabeça baixa mas parecia pronta para desabar a qualquer momento — aquilo o intrigava. Ele não sabia ainda por quê. Só sabia que queria descobrir. Quando ela se afastou, Igor notou o olhar dele e arqueou uma sobrancelha, divertido. — Gostou do café? — provocou. — Não é do café que estou falando. — murmurou Konstantin, baixo, antes de levar a xícara aos lábios. Enquanto tomava o café amargo, os olhos dele permaneceram cravados nela, seguindo cada pequeno gesto atrás do balcão. Sem que ela sequer percebesse, já era tarde demais: o lobo havia notado a ovelha. E não tinha a menor intenção de esquecê-la. ---
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