O sol ainda nem havia nascido quando Konstantin já estava pronto para mais um dia.
Vestido com um terno preto sob medida, abotoando os punhos com precisão, ele desceu as escadas da mansão, onde Irina já o esperava no salão com uma xícara de chá.
Ela estava impecável, como sempre, com um vestido sóbrio e salto baixo. Quando ele entrou, ela ergueu os olhos do tablet e arqueou uma sobrancelha.
— Hoje você parece ainda mais perigoso do que ontem. — comentou, secamente.
Konstantin sentou-se à mesa, servindo-se de café sem sequer olhá-la.
— Todos os dias são perigosos para quem não presta atenção. — respondeu, com a mesma calma.
Irina sorriu de canto e tomou mais um gole de chá.
— Há uma nova exposição em São Petersburgo no mês que vem. Quero patrocinar em nome da fundação. Vai melhorar a imagem da família.
— Faça. Mas limpe qualquer envolvimento nosso antes que a imprensa investigue demais. — disse ele, seco.
— Sempre. — ela respondeu, e voltou para a tela do tablet.
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Às sete em ponto, o carro o deixou na sede do conglomerado.
Lá, já o aguardava Igor, de terno cinza-claro e um leve sorriso sarcástico, encostado à porta do escritório.
— Bom dia, Pakhan. — disse ele, usando o título mafioso num tom quase de deboche.
— Bom dia, Sovietnik. — retrucou Konstantin, igualmente gelado, mas com uma faísca de humor no olhar.
— Como sempre: contratos falsos, ministros comprados, empresários se fingindo de cordeiros. A cidade nunca muda, não é? — continuou Igor, seguindo-o para dentro.
Konstantin abriu a pasta sobre a mesa e começou a assinar documentos.
— Se Moscou fosse previsível, você já estaria desempregado. — respondeu, sem tirar os olhos do papel.
— Justo. — disse Igor. — Mas se eu fosse desempregado, você já estaria morto.
Os dois trocaram um olhar breve, cúmplice e cheio de ironia. E então caíram no silêncio, voltando ao trabalho.
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No meio da manhã, Konstantin convocou uma reunião com três ministros para resolver a autorização de um novo gasoduto. Eles chegaram nervosos, com os olhares baixos.
— O projeto já está aprovado. — disse um dos homens, a voz trêmula.
Konstantin apenas fixou nele aquele olhar de lobo.
— Ótimo. Mas se alguma assinatura sumir da mesa antes do fim da semana, eu corto a mão que a escreveu. — disse, tão tranquilo quanto se falasse do clima.
Os ministros assentiram freneticamente e se retiraram.
Igor, que assistia tudo de braços cruzados no canto, ergueu uma sobrancelha.
— Sutil, como sempre. — murmurou.
— Eles entendem essa língua melhor do que flores e abraços. — Konstantin respondeu, fechando outra pasta.
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Na hora do almoço, voltou para a mansão para uma rápida refeição com Irina.
Ela o aguardava no jardim interno, folheando um livro de direito.
— Você precisava falar comigo? — ele perguntou, sentando-se.
— Sim. — disse ela. — Ouvi que Viktor tem dado sinais de que quer aparecer publicamente de novo. Você vai deixar?
Konstantin olhou para o vazio por um segundo, antes de responder.
— Não. Ele já teve o trono. E já derramou sangue demais. Agora é o meu jogo. — disse, firme.
Irina assentiu, satisfeita.
— Bom. Se precisar que eu envie algum recado, você sabe que posso ser… bem persuasiva. — disse ela, com um leve sorriso venenoso.
Ele apenas a olhou, quase orgulhoso, antes de se levantar.
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À tarde, foi direto para a sede da Bratva.
Ali, entre os capos e soldados, Konstantin era uma sombra maior, mais fria, mais temida do que qualquer um ousava imaginar.
Tratou de execuções pendentes, cobrou dívidas em atraso, planejou novas rotas para os carregamentos. Ouviu Viktor Baranov, chefe em Moscou, tentar reclamar de um dos soldados.
— Eu não pago você para reclamar. Pago para resolver. — disse, seco.
Baranov engoliu em seco e recuou.
No final, Konstantin se ergueu, olhou para Igor — que já o aguardava com um charuto na mão.
— Está tudo sob controle. — disse Igor, tranquilo.
— Sempre esteve. — respondeu Konstantin, antes de virar-se para sair.
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À noite, já de volta à mansão, retirou o paletó, serviu-se de um uísque e ficou observando o tabuleiro de xadrez.
Movendo as peças lentamente, uma por uma, até que o rei inimigo caísse.
Xeque-mate.
Como sempre.
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O relógio marcava onze da noite quando Konstantin saiu do escritório da Bratva.
Já havia despachado chefes, soldados e ministros durante todo o dia, organizado rotas de carregamentos e cobrado dívidas. Sua paciência, já curta por natureza, se tornara inexistente.
De volta ao carro, recostou-se no banco de couro enquanto as luzes de Moscou riscavam os vidros escuros do Mercedes.
— Para a boate. — ordenou, seco.
O motorista não respondeu. Apenas obedeceu.
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A boate era uma joia sombria encravada no coração da cidade.
Luzes vermelhas e azuis cortavam a penumbra, a música eletrônica fazia o chão vibrar, e o cheiro de álcool, cigarro e perfume barato se misturava no ar.
Quando Konstantin entrou, o ambiente se silenciou por um instante. Todos os olhares se voltaram para ele — medo, desejo e reverência na mesma medida.
Sentou-se em seu camarote privado, de onde podia ver toda a pista.
Igor já o aguardava, encostado no balcão, girando um copo de uísque entre os dedos.
— Longo dia? — perguntou, com um sorriso cínico.
— Igual aos outros. — respondeu Konstantin, tirando o paletó e ficando apenas com a camisa impecável.
No palco, uma nova garota foi empurrada para o centro. Jovem, com curvas delicadas, olhos grandes e um medo m*l disfarçado no rosto. Ela era nova ali — ele sabia só de olhar.
O gerente sussurrou no ouvido dela, e ela forçou um sorriso antes de começar a dançar.
A música pareceu desacelerar para Konstantin.
Os quadris dela giravam em movimentos tímidos no início, depois mais ousados. Os olhos dela se ergueram, vacilantes, e encontraram os dele.
Ele apenas inclinou a cabeça, sinalizando.
O gerente correu até ela, murmurou algo, e ela, trêmula, desceu do palco, guiada até o camarote dele.
— Vá para o quarto. — disse Konstantin, a voz baixa e sem emoção.
Ela assentiu, e ele a seguiu logo atrás.
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O quarto era grande, com paredes escuras e uma única luz âmbar iluminando a cama.
Ela ficou parada no centro, tentando esconder o nervosismo.
— Tire a roupa. — ele ordenou, já desabotoando a própria camisa.
Ela obedeceu.
O que se seguiu foi rápido, intenso, sem carinho, sem promessas.
Era um jogo de poder — apenas isso.
Ele a tomou ali, como se fosse nada além de mais um corpo para saciar a própria fúria contida.
Quando terminou, levantou-se, ajeitando as abotoaduras e pegando a arma que estava sobre a cômoda.
Ela ainda se recuperava, respirando ofegante, sem perceber o que viria a seguir.
Ele a observou por um momento — aquele olhar de predador frio.
— Você dançou bem. — disse.
— Obrigada… senhor. — ela sussurrou, tentando sentar-se na beirada da cama.
— Mas eu não gosto quando têm medo de mim só na metade do tempo. — completou.
Antes que ela entendesse o que ele queria dizer, um tiro seco ecoou no quarto.
Ela caiu para trás, os olhos arregalados de choque.
Konstantin guardou a arma no coldre, pegou o paletó e saiu sem olhar para trás.
No corredor, Igor o esperava.
— Resolveram a pendência? — perguntou Igor, sem sequer perguntar pelo som do disparo.
— Sempre. — disse Konstantin, a voz neutra.
— Vamos para casa.
E assim, calmamente, deixou para trás mais um corpo e uma noite como qualquer outra para ele.
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