Capítulo 3 — Sem Coração

1257 Words
O relógio marcava 5h45 quando o despertador soou no quarto escuro. Konstantin já estava de pé. Tomava banho frio, como sempre, o vapor enevoando as janelas enormes da suíte na mansão. Vestiu um terno perfeitamente alinhado — azul-escuro, com gravata vinho — e ajeitou os punhos da camisa antes de descer para o café. Na sala de jantar, Irina já o aguardava, folheando papéis. — Bom dia, irmão. — disse ela, sem erguer os olhos. Ele apenas assentiu, servindo-se de café preto e frutas. Não falavam muito de manhã, apenas o suficiente para alinhar compromissos sociais e reuniões de fachada. Depois, ela se retirou para o haras enquanto ele saía para os negócios de verdade. --- Às 7h30, Konstantin já estava no coração de Moscou, no prédio espelhado da sede de seu conglomerado. Subiu direto para o último andar, onde sua equipe o aguardava para a primeira reunião do dia. Energia, petróleo, construção civil, investimentos: números, contratos e políticos esperando instruções. Ele ouviu em silêncio cada um dos relatórios antes de decidir os próximos passos. Cada ordem era dada com calma, como um mestre de xadrez movendo as peças. — As licenças para a nova usina? — perguntou. — Conseguimos, senhor. O ministro aprovou ontem à noite. — disse Igor, sentado ao lado, impecável. Konstantin apenas assentiu e fechou a pasta. Às 11h em ponto, deixou o prédio e entrou em outro carro — desta vez, sem motorista. Ele mesmo dirigia até a verdadeira sede. --- No centro de Moscou, atrás da fachada anônima de um prédio de mármore n***o, a Bratva respirava. Guardas discretos na entrada, câmeras escondidas em cada canto, seguranças à paisana rondando a rua. Ele atravessou o corredor em silêncio, o som ritmado dos sapatos ecoando, e entrou em seu “trono”. Os chefes regionais já o aguardavam na sala de reuniões. Um mapa-múndi em metal escovado reluzia no centro da mesa. — Carregamento de armas para São Petersburgo, já no porto. As rotas foram garantidas com a polícia local. — informou Nikolai. — Dubai confirmou a nova rota para o próximo grupo de meninas. — acrescentou Sergei, com um leve aceno. — Londres continua com os bancos clandestinos intactos, lavando cerca de 20 milhões por semana. — completou Andrei. Konstantin ouviu tudo, as mãos cruzadas sobre a mesa, os olhos frios saltando de um para outro. — Aumentem a comissão do coronel no porto, para garantir silêncio. — disse, seco. — E eliminem aquele vereador em São Petersburgo. Não quero mais reclamações. Todos assentiram. As ordens dele eram lei. --- À noite, foi para uma das boates da máfia, no subsolo de um antigo teatro. Chegou sem pressa, a música abafada pela porta pesada. Lá dentro, era recebido como um deus. Mulheres se aproximavam, homens desviavam o olhar. Ele caminhou até um camarote, onde um dos gerentes já o aguardava. — Tínhamos um pequeno problema com um fornecedor… — começou o gerente. — Já não temos mais. — cortou Konstantin, sem emoção. — Resolvido esta noite. Quando saiu, duas horas depois, um corpo já era retirado discretamente pela porta dos fundos. --- Já passava da meia-noite quando finalmente voltou para a mansão. O motorista o aguardava com um Mercedes preto, impecável, e o trajeto pela estrada gelada foi feito em completo silêncio. No carro, Konstantin apoiou um cotovelo na janela, observando as árvores escuras do bosque. Seus pensamentos estavam em outro lugar — ou, talvez, em ninguém. Quando desceu, Irina já dormia. Ele caminhou até o escritório, serviu-se de uísque e ficou ali, de pé, diante do tabuleiro de xadrez em cima da mesa. Com a ponta dos dedos, moveu o rei preto para a posição de xeque-mate. Como sempre. --- O dia ainda não havia clareado completamente quando Konstantin deixou a cama. Era hábito — e disciplina. Às cinco em ponto, já estava vestido com roupas de equitação: calças escuras, botas de couro, uma camisa preta justa. Antes mesmo que os empregados terminassem de preparar a mesa do café, ele já caminhava pela trilha de pedra que levava ao haras. O frio cortava a pele, mas Konstantin nem pareceu notar. Sua figura alta e imponente se destacava entre a neblina do amanhecer. Quando chegou aos estábulos, o cheiro de feno e cavalos quentes o envolveu. Masha já o aguardava com um de seus favoritos — um garanhão n***o, chamado Grom. — Bom dia, Pakhan. — disse ela, a voz suave. Ele apenas assentiu, montando com facilidade. — Deixe-me sozinho. — ordenou. E assim ela fez, observando de longe enquanto ele cavalgava pelo bosque por quase uma hora, como um general inspecionando suas terras. O som dos cascos batendo no solo gelado era ritmado e calmo. Ele cavalgava não por prazer, mas para pensar, para ordenar sua mente e preparar-se para o dia que viria. Quando voltou aos estábulos, desmontou sem dizer nada e devolveu as rédeas a Masha. Ela o olhou nos olhos, um leve desafio em seu olhar. — Está sempre tão distante… — murmurou. Ele ergueu uma sobrancelha. — Quer que eu seja próximo? — perguntou, a voz fria. Sem esperar resposta, puxou-a pelo pulso para dentro de uma das baias vazias. Foi rápido, sem ternura. Apenas carne e desejo saciado. Quando terminou, afastou-se, ajeitando a camisa e os punhos do casaco. — Saia do meu caminho. — disse, sem sequer olhar para ela. Masha ficou ali, respirando com dificuldade, as mãos ainda agarrando o feno para se equilibrar. Ele já caminhava para a mansão. --- Depois de um banho rápido e um café leve, Konstantin trocou o traje por um terno cinza-escuro impecável e seguiu para Moscou. No conglomerado, a rotina se repetia: salas de reuniões, contratos, ministros, investidores estrangeiros tentando sorrir para um homem que jamais sorria de volta. Uma jovem assistente esqueceu um documento importante durante a apresentação. Ele a fulminou com o olhar. — Você tem duas opções — disse em voz baixa, mas audível para todos — ou aprende a ser competente… ou aprende a trabalhar para outra pessoa. Ela corou, apanhou os papéis e quase tropeçou ao sair da sala. Konstantin apenas virou-se para Igor, que lhe entregava uma nova pasta com mais números, mais decisões. — Londres quer aumentar a margem no tráfico humano para compensar as perdas do banco. — disse Igor, sem rodeios. — Aceite, mas exija um carregamento extra de armas em contrapartida. E que limpem a situação com a polícia local antes que eu tenha de intervir pessoalmente. --- No final da tarde, trocou de carro e seguiu para a sede da Bratva. Dessa vez, tratou diretamente com os chefes regionais sobre rotas de tráfico, execuções pendentes e alianças políticas. No fim da reunião, um dos capos tentou questionar uma ordem sobre um carregamento de armas. Konstantin se ergueu devagar, caminhou até ele, e apoiou a mão em seu ombro. — Você tem três segundos para se corrigir. — murmurou, o tom suave contrastando com a ameaça. O homem engoliu em seco e apenas baixou a cabeça. Konstantin se recostou na cadeira, satisfeito. — Boa escolha. --- Quando a noite caiu, ele voltou para casa no Mercedes n***o, a cidade passando lá fora como um borrão de luzes. Entrou na mansão como um rei retornando ao castelo. Irina já havia recolhido-se aos seus aposentos. Os corredores estavam silenciosos, só o som de seus passos ecoando no mármore. No escritório, serviu-se de uísque e, como sempre, ajustou uma peça no tabuleiro de xadrez. Xeque-mate. E sorriu, finalmente — mas era um sorriso frio, destinado a ninguém. ---
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